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Opinião
Artigo de opinião da autoria de Luís Sancho, docente da Escola Superior de Saúde
E qual a melhor época para cometer alguns excessos do que a quadra Natalícia?
Saúde: excessos alimentares natalíciios
Professores e investigadores, de vários ramos do saber da Universidade de Aveiro, apresentam algumas curiosidades próprias da quadra Natalícia. Luís Sancho, docente na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro, deixa recomendações sobre os excessos alimentares que, por estes dias, são cometidos. “Moderação” é a palavra de ordem para este Natal.

Os excessos alimentares podem – e há quem diga que devem – existir na nossa vida, desde que sejam pontuais. E qual a melhor época para cometer alguns excessos do que a quadra Natalícia? Ao fim e ao cabo, não é todo o ano que se junta a família, não é todo o ano que aparecem especialidades culinárias únicas, não é todo o ano que se partilha com os outros os nossos bens – sejam materiais, temporais, espirituais ou doutra natureza! Dizia, com muita graça e sabedoria, uma das nossas colaboradoras, a Dr.ª Dora, que o problema não é tanto o que se come entre o Natal e os Reis, mas sim entre os Reis e o Natal! Por isso, caros leitores, não ouvireis da minha parte palavras de proibição, quanto muito, apenas de moderação.

Não hesito em qualificar esta quadra como a minha época preferida do ano. É algo que me vem desde criança – aquela altura encantadora da nossa vida em que nada nos faz mal e tudo é mágico!

Naturalmente, como criança, havia muitas razões para gostar do Natal – era a altura de rever os parentes da minha idade que moravam longe, fazer o presépio, montar a árvore, espalhar festões e estrelas pela casa era um ritual indispensável, havia um ambiente especial no ar que se sentia e que aquecia apesar do frio e, claro, havia prendas no sapatinho!  

E se é verdade que alguns dos elementos do Natal perderam parte do seu significado, outros permanecem constantes. Se as prendas são menos importantes, o prazer de rever familiares e amigos que se fazem presentes nesta época continua. Se já não nos ensaiam na escola para cantarmos as belíssimas músicas da tradição natalícia portuguesa (com alguns empréstimos internacionais, como convém a uma festa transnacional), não deixa de saber bem ouvir esses clássicos. A aletria, as rabanadas, as filhoses, os mexidos, transmontanos ou minhotos, a sopa dourada, o bacalhau, o polvo, o peru, a roupa velha tem nesta quadra um sabor especial que não se estende ao consumo extra-Natal destas iguarias! Não me esqueço de um dia ter perguntado a um familiar mais velho a razão de ele montar o presépio da sua casa com tanto zelo e ele me ter respondido que, além da tradição, gostava muito da ideia dum deus – em que ele não acreditava – que se fazia tão próximo do ser humano, especialmente dos mais necessitados. À volta seja do presépio, da árvore ou da mesa, relembramos histórias que tanto de nós são, algumas antigas, outras recentes e transmitimo-las aos que nos seguem. Não é à toa que é nesta época que, cada vez mais, se recuperam costumes e tradições de antanho que o avançar dos tempos parecia tornar redundante…

A saúde, diz-nos a Organização Mundial de Saúde, é todo um estado de bem-estar físico, mental e social e, como tal, não se esgota na profilaxia e terapêutica patológicas, antes devendo abranger todas componentes da vida do ser humano. Por outras palavras, se é verdade que a nossa saúde física pode sofrer um pequeno abalo, a minha opinião é que os benefícios psicológicos, sociais e emocionais largamente compensam os pequenos abusos e nos revigoram para o resto do ano. Naturalmente, há várias coisas que podemos fazer para potenciar este estado de bem-estar. Por exemplo, fazer por diminuir os exageros e os eventuais desperdícios é algo que faz sentido não apenas no sentido financeiro, mas também no sentido ecológico e mesmo no social.

Por último, o prometido conselho de saúde: não é à toa que a nossa tradição equilibra os maravilhosos doces com bacalhau e legumes cozidos - nada como provar um pouco de tudo, com moderação.

De Miguel Torga:

Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina. 

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

 

Luís Sancho
Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro

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