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Opinião
(H)À Educação: António Cachapuz, professor aposentado do DEP/UA
O Homem, fazedor de símbolos?
António Cachapuz defende que a Educação deve refletir maior diálogo entre Artes e Ciências
“A educação deve promover um diálogo inovador entre diversas áreas do saber que ajude os jovens a reinventar a sua relação com o conhecimento, permitindo-lhes dar sentido, unidade e coerência à diversidade de suas representações e experiências com o mundo”, defende António Cachapuz. O professor aposentado do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro escreve no âmbito da rubrica “(H)À Educação”, do Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” (CIDTFF).

Como é que nos podemos tornar mais humanos? Para o poeta T. S. Elliot, a resposta é fácil: só aqueles que arriscam ir mais longe é que sabem até onde podem ir. Para os leitores mais afoitos às “coisas” do conhecimento, um caminho possível é desocultar relações dialógicas entre a Arte e Ciência como expressão da abertura interdisciplinar, isto é, ir mais longe da visão segmentada e hierárquica do conhecimento ainda dominante. Na 5ª sinfonia de Mahler ou na lei de Lavoisier, o que aí se revela é a luta do Homem para dar significado à vida, celebrar a nossa humanidade ou corrigir as limitações e a miopia do senso comum.

O tema é recorrente (nem sempre pacífico) entre artistas e cientistas mas dificilmente chega ao grande público. A previsão é, aliás, de que o diálogo entre Arte e Ciência será aprofundado durante o século XXI (Wilson, 2002). O caminho foi aberto por Leonardo, “O” Homem do Renascimento. Na modernidade, Bachelard (1943) foi dos primeiros a abordar o tema considerando que a emoção estética está na intersecção da descoberta científica e da criação artística. Para insignes matemáticos como Henri Poincaré (1920) as civilizações só valem pela Arte e pela Ciência.  Mais perto de nós, o prémio Nobel de Medicina François Jacob (1985) considerava que, no final do século XX, deveria ser claro que nenhum sistema de pensamento é capaz de explicar o mundo em todos os seus detalhes (ao meu conhecimento, tal argumento não foi, entretanto, infirmado). Ou ainda Roald Hoffmann (1986) prémio Nobel da Química, para quem estabelecer parâmetros perfeitamente definidos para interpretar o universo é mais fácil do que questionar a morte ou a invenção do amor, dois temas recorrentes em Arte. Plaza (1996), um artista, considera que na origem do ato criador, o cientista não se diferencia do artista, só que trabalham diferentes materiais do Universo. Entre nós, há também quem se debruce sobre o assunto, sendo um bom exemplo o trabalho do químico Jorge Calado.

Sosseguem-se os irredutíveis cartesianos. O neurocientista Damásio vem questionando a utopia cartesiana do divórcio entre a razão e a emoção. Ao invés, Damásio explica, com base na investigação em neurociências, o necessário papel das emoções na decisão racional acrescentando que não se trata de desvalorizar o papel da razão mas tão só de nos ajudar a melhor compreender como é que a mente humana funciona. Palavras sábias.

Aproximar o “mundo da verdade” do “mundo da emoção e da beleza” no âmbito de uma visão interdisciplinar do conhecimento não deve só servir para legitimar intenções epistémicas da academia. É preciso olhar para fora. Deve servir também para melhorar a educação, dos jovens e menos jovens. A educação deve promover um diálogo inovador entre diversas áreas do saber que ajude os jovens a reinventar a sua relação com o conhecimento, permitindo-lhes dar sentido, unidade e coerência à diversidade de suas representações e experiências com o mundo. Que o diga o poeta/cientista António Gedeão/Rómulo de Carvalho, vulto maior da educação contemporânea no nosso país e cuja obra ainda não chegou como devia às nossas escolas.

É dele que relembro alguns dos seus versos no poema “Lição sobre a Água”, em que a Física/Química se confunde com a conhecida pintura do pré-Rafaelita John Everett Millais: "Este líquido é água/Quando pura é  inodora, insípida e incolor/Reduzida a vapor, sob pressão e a alta temperaturas move os êmbolos das máquinas que, por isso, se denominam máquinas a vapor/É um bom dissolvente/Embora com excepções mas de um modo geral, dissolve bem tudo, ácidos, bases e sais/Congela a zero graus centígrados/E ferve a 100, quando a pressão normal/Foi neste líquido onde numa noite cálida de Verão sob um luar gomoso e branco de camélia, apareceu a boiar o cadáver de Ofélia com um nenúfar na mão".

Temos de aprender de novo a formular perguntas adequadas sobre o futuro da educação em geral e da educação em ciências em particular. Todos sabemos que a Arte e a Ciência são aspetos diferentes da atividade humana. Mas essa não é a questão interessante. A questão interessante é, no quadro de uma visão não redutora do conhecimento, explorar o que as une e não o que as separa e de que modo tal visão diacrónica Arte/Ciência pode melhorar a qualidade da educação em ciências oferecida aos alunos e dar uma oportunidade aos professores para irem mais além das rotinas e burocracia a que frequentemente são sujeitos nas suas escolas. Não é tarefa fácil.

 

António Cachapuz,

investigador do Centro de Investigação “Didática e Tecnologia na Formação de Formadores” (CIDTFF) da Universidade de Aveiro, professor aposentado do Departamento de Educação e Psicologia (DEP).

Email: cachapuz@ua.pt

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