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Opinião
(H)À Educação: Nilza Costa, professora aposentada do Departamento de Educação e Psicologia
O que tenho/temos aprendido com África?
Nilza Costa, professora aposentada da UA, escreve sobre o dia de África na rubrica (H)À Educação
O dia Mundial de África e a experiência que tem vindo a adquirir em resultado de colaborações do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro (UA) com países africanos na área da Educação, motiva o texto de Nilza Costa. Este texto da professora aposentada do Departamento de Educação da UA, faz parte na rubrica “(H)À Educação”, do CIDTFF.

No dia Mundial de África, 25 de maio[1], não podia deixar de fazer um tributo aos meus Colegas e Amigos Africanos (que não posso aqui nomear, mas que não duvido se identificarão nestas palavras) e sua cultura, dos Países Africanos de Língua Oficial e Expressão Portuguesa/PALOP[2]. Colegas e Amigos com quem tenho vivido riquíssimas experiências e aprendido muito, principalmente como resultado das colaborações que o CIDTFF tem estabelecido com esses Países. Julgo (tenho a certeza!) que poderei dizer o mesmo de Colegas portugueses do CIDTFF que têm também colaborado com esses Países.

O meu baptismo em África aconteceu num dia de muito sol e calor, mas também de vento (25 de julho de 2004, se a memória não me falha!), no aeroporto da ilha de Santiago, cidade da Praia, dessa vez em férias com a Família. Como se diz na gíria “foi amor à primeira vista”! Depois disso, e sempre que se tem proporcionado, tenho passado estadias de trabalho nesses Países (onde também continuo a passar férias). Como não existe na minha vida um dia sequer sem a companhia de um livro, nas minhas viagens levo sempre um/dois, procurando sempre livros da autoria de escritores dos Países que visito. Assim, tenho passado momentos deliciosos e aprendido, também, com grandes escritores Africanos. Não sei se alguns leitores, desde logo que viram o título desta notícia, se tenham interrogado, em dois dos sentidos bem diferentes: temos alguma coisa a aprender com os Africanos? Ou tendo nós tanta coisa a aprender com os Africanos como a autora vai conseguir dizer tudo num texto só?. O 1º tipo de eventuais leitores está profundamente enganado. Sim, uma professora catedrática como eu, por isso no topo da sua carreira universitária, embora espere ter deixado pelos sítios por onde ando/andei sementes com o meu saber e experiências, vivi e aprendi neles imensamente. Daí que o 2º tipo de eventuais leitores está certíssimo. Não vou conseguir dizer nem um milésimo do que gostaria, apenas procurarei aqui ilustrar algumas ideias resultantes das minhas “viagens” por terras dos PALOP.

Aprendi que (e vou ser mesmo muito sintética): (a) as crianças, jovens e adultos gostam de ir à “escola” e valorizam-na, apesar das enormes adversidades contextuais (más instalações, número excessivo de alunos/sala, falta de material de apoio, como bibliografia, entre outros). Assim, por exemplo, isso me testemunharam muitos dos alunos do ensino secundário com quem falei em São Tomé e Príncipe (em maio de 2017), e mestrandos do ISCED-Huíla em Angola (em diversas ocasiões desde 2013). Certamente, também, devido a essa valorização, uma Mãe cabo-verdiana diz para o seu Filho: (…) escola é que é a riqueza da pobreza (…) só a escola poderá dar-te uma enxada à sombra (…) (extracto do livro do escritor Germano Almeida, O mar na Lajinha, 2004, 1ª ed, p. 40); (b) não só a sociedade influencia a escola, mas que esta pode (e deve) influenciá-la. Que ensinamento ver recentemente (este mês!) os murais feitos por alunos (sobre os malefícios do lixo urbano e como evitá-lo, os cuidados a ter com as tartarugas, evitando a sua extinção) na rua principal de Porto Novo/ilha de Santo Antão ou de Mindelo/ilha de S. Vicente, ambas em Cabo Verde. Como será possível passar por esses murais sentindo-se indiferente, questionando-nos, e mudando comportamentos que põem em risco o nosso planeta? Uma coisa é certa, não vi praticamente lixo nenhum nas ruas por onde passei!; (c) alguns dos significados do que é ensinar (e aprender) em áreas que não a minha (Física e seu ensino), por exemplo, nas múltiplas discussões que tive com estudantes Africanos com diversas formações (Biologia e Ambiente, Educação Tecnológica, Línguas nacionais, entre outras), ou através dos meus livros, como sobre o ensinar a ler: “é (…) ensinar a escolher entre sentidos visíveis e invisíveis. É ensinar a pensar no sentido original da palavra ‘pensar’ que significava ‘curar’ ou ‘tratar’ um ferimento” (extrato do livro do escritor Mia Couto, E se Obama fosse Africano, 2009, p. 105); (d) o professor anseia o seu desenvolvimento profissional, e nisso investe, como uma forma de melhorar a educação do seu País. Mesmo em Países onde os salários são em geral muito baixos e onde não há grandes apoios para a formação, nunca tive uma sala vazia nas muitas intervenções que fiz para professores. É, ainda, inegável o número crescente de professores Africanos que têm procurado as ofertas formativas de programas de pós-graduação (Mestrados e Doutoramentos) adstritos ao CIDTFF. Como diz a Agenda 2063[3], o recurso mais precioso de África é o seu capital humano, com uma taxa elevadíssima de população jovem, mas que só será potenciado se se investir no acesso à educação/ensino (desde o pré-escolar) e na formação de professores, havendo metas nacionais definidas para atingir esses fins.

Duas palavras finais: uma de incentivo/reforço para as ações de professores, estudantes, encarregados de educação portugueses – mesmo em condições adversas é possível fazer diferente, então façamo-lo através da educação! Pelo muito que ficou por dizer, termino com as palavras de José Saramago: A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. … É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

Notas:

[1] Agenda de desenvolvimento do continente Africano para um mundo mais sustentável, aprovada na Cimeira da União Africana a 31 de janeiro de 2015

[2] O Dia de África (DA), anteriormente chamado Dia da Libertação de África, é a comemoração anual da fundação da Organização da Unidade Africana (OUA), criada a 25 de Maio de 1963, organização que, que desde 2002, passou a designar-se de União Africana. Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu esse dia, passando este a ser uma das suas efemérides. Criado, inicialmente, numa perspetiva de defensa e libertação do continente Africano (contra a colonização europeia e contra o regime do Apartheid) o DA simboliza o desejo de que África se torne cada vez mais um continente unido, desenvolvido e emancipado

[3] Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e S. Tomé e Príncipe

(Artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

Nilza Costa, investigadora do Centro de Investigação Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

Email: nilzacosta@ua.pt

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