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Opinião
(H)À Educação: Pode a Atividade Física contribuir para a Qualidade de Vida do Idoso?
Rui Neves
Não sendo a AF o ‘elixir da juventude’ dos tempos modernos, ela é com certeza uma forma de envolvimento e participação com benefícios individuais e coletivos ao nível da saúde de cada participante”, escreve Rui Neves, professor do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro (UA). O Dia Mundial da Terceira Idade, assinalado a 28 de outubro, é o tema da rubrica (H)À Educação, iniciativa da unidade de investigação CIDTFF.

No atual quadro de envelhecimento da sociedade portuguesa, o nosso olhar sobre a natureza desses processos deve ser mais cuidado e atento. Portugal será um dos países mais envelhecidos da Europa nos próximos anos. A esperança média de vida tem aumentado. O número de pessoas idosas centenárias, encontra-se em progressivo crescimento. Estes factos constituem-se como alertas acerca da forma como deveremos olhar para o processo de envelhecimento em termos individuais e coletivos. Não na perspetiva exclusivamente quantitativa, mas também qualitativa. Importa pensar como poderemos viver mais tempo, com saúde, qualidade de vida e bem-estar. O que poderemos fazer para termos pessoas idosas mais felizes nesta fase da vida?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem-se batido junto dos países pela expansão do conceito de Envelhecimento Ativo (EA) assente em vários pilares (Saúde, Participação e Segurança) que podem ter expressão diferenciada face a cada contexto social. O EA rejeita o processo de envelhecimento como uma fase do desenvolvimento humano caraterizado pela passividade da pessoa idosa. Ele apela a uma atitude de participação ativa na sociedade, de acordo com as capacidades de cada um. Ser idoso não implica ser inativo. Um EA que deve ser entendido, como um processo individual e marcado pela subjetividade no que a cada pessoa idosa se refere, já que cada pessoa envelhece de forma distinta e diferenciada.

Neste sentido, o EA integra uma componente de inserção da Atividade Física (AF) no quotidiano de vida da pessoa idosa. De forma contínua e expressiva, os benefícios de uma vinculação à prática regular de AF pelas pessoas idosas, têm vindo a ser evidenciados pela investigação. Desde os benefícios mais imediatos ao nível do bem-estar e prazer pela prática de AF, até ao combate das doenças degenerativas através de AF de caráter predominantemente aeróbico. O próprio contexto de realização e organização das várias AF, estimulam o convívio social e combatem uma das grandes questões do processo de envelhecimento, que é o isolamento social. A vinculação das pessoas idosas à AF é um garante da sua mobilidade que lhes permite não só satisfazer necessidades da vida diária, como manter e fortalecer as suas redes sociais pelo conjunto de interações que lhe proporcionam. De acordo com as caraterísticas de cada pessoa, importa que a ação, a mobilidade e uma qualquer AF regular façam parte do seu quotidiano pessoal. Não estão em causa níveis de intensidade de esforço físico, exercitações com níveis mínimos de carga. Hoje, sabemos que uma simples caminhada desencadeia benefícios vários que importa preservar em nome da qualidade de vida do bem-estar e da saúde de cada pessoa idosa.

A situação de maior ou menor autonomia de cada pessoa idosa, conduz a escolhas diferenciadas de envolvimento em práticas de AF. Uma pessoa idosa institucionalizada estará mais dependente dos programas de AF proporcionados pela sua instituição. Por outro lado, alguém com algum nível de autonomia no seu dia-a-dia, pode ter um leque mais amplo de escolhas em termos de participação em AF (ex: caminhadas diárias com os vizinhos, frequência autónoma de um ginásio, frequência de uma classe de ginástica, frequência de sessões de hidroginástica, etc.). Numa lógica de EA a vinculação da pessoa idosa a práticas de AF deve estar condicionada pelo prazer e gosto proporcionados por essa prática, bem como ajustadas às capacidades individuais de cada um. As escolhas e as opções são fundamentais para garantir a continuidade da prática regular de AF. Nem todas as pessoas idosas realizam as mesmas AF, com igual duração ou intensidade. O primado do prazer da AF deve ser preservado e promovido. A AF nesta fase da vida tem tantos mais benefícios, quanto melhor cada um se sente quando a pratica. Não sendo a AF o “elixir da juventude” dos tempos modernos, ela é com certeza uma forma de envolvimento e participação com benefícios individuais e coletivos ao nível da saúde de cada participante. Ninguém estará à procura de um novo campeão, mas todos estamos preocupados com um envelhecimento ativo pautado por elevados níveis de saúde coletiva.

Rui Neves

Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro

rneves@ua.pt

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