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Entrevistas
Antigos alunos UA: Cristina Boia (Engenharia do Ambiente), administradora da Extrusal
“O melhor conselho que posso dar aos estudantes é: sejam resilientes”
Cristina Boia, antiga aluna e ex-docente da UA, é administradora da Extrusal
Cristina Boia nasceu em Aveiro em 1961. Numa primeira fase da sua vida de estudante, interessou-se por Biologia Marinha, mas acabou por se licenciar em Engenharia do Ambiente na Universidade de Aveiro (UA). Doutorou-se em Ciências Aplicadas ao Ambiente, tendo sido investigadora e docente universitária. As voltas do destino e o contexto famíliar levaram-na a estudar Gestão, a tornar-se administradora e a dedicar-se à empresa familiar, a Extrusal. A experiência de vida leva-a a aconselhar os estudantes, dizendo: “sejam resilientes!”

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Ingressei primeiro na Universidade de Bordéus para estudar Biologia Marinha, que era o que queria, e para evitar perder o ano propedêutico que tinha surgido nessa altura e veio a originar o 12º ano. Mas fui para demasiado longe, tendo em conta que era uma filha quase única, ainda por cima e finalmente, com uma irmãzinha deliciosa de dois anos. Voltei no Natal e o Reitor da UA, o Prof. Mesquita Rodrigues, que era biólogo marinho, disse-me que tinham expectativas de abrir o curso de Biologia Marinha na UA e que o melhor seria ingressar em Engenharia do Ambiente, cujo currículo era mais próximo do que pretendia, e depois mudar.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

O curso foi muito interessante e acabei por não mudar, quer porque o outro curso não abriu, quer porque gostei do meu. Também gostei muito da UA, que era um mundo diferente na cidade. O curso era muito abrangente e completo, desde a compreensão dos ecossistemas nos aspetos biológi­cos, geológicos, químicos, físicos e suas interações, até à intervenção positiva nos mesmos através da engenharia e tendo em conta a vertente econó­mica. Os professores eram interessantíssimos. Eram os fundadores do curso, com especialidades complementares, que acreditavam entusiastica­mente naquele novo conceito de integração de ciências para formar jovens técnicos capazes de resolver problemas do ambiente de modo holístico.

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro?

Muitos professores me marcaram, a maioria no bom sentido e alguns no mau, o que também é importante para formar carácter. Também temos de aprender a resistir e a superar dificuldades, e os professores “com defeito” são tão importantes para isso como os excelentes.

Lembro-me do entusiasmo, alegria e clareza que eram as aulas e os projetos com o Prof. Carlos Borrego, e das excelentes aulas de outros professores da especialidade, como Casimiro Pio, Antunes Pereira, Armando Duarte, ou das disciplinas básicas, como os Profs Pedrosa, Rino, Caldeira, Marques da Silva ou Helena Moreira…

Mas a UA marcou-me muito mais do que enquanto aluna porque, após um ano a trabalhar fora, voltei como docente. Comecei como assistente estagiária até me tornar professora auxiliar, tendo sido aluna de doutoramento, e tive muito mais experiências na Universidade, como a de trabalhar em projetos de investigação e de extensão universitária com equipas extraordinárias.

Tinha intenção, antes da formação na UA e da atividade como docente e investigadora, de vir a ser administradora de empresas?

Nunca tive intenção de ser gestora de empresas, muito menos no ramo meta­lomecânico, daí não ter feito a minha formação inicial nessa área. Eu gostava era de Biologia Marinha, o meu ídolo era o Cousteau! Entretanto, aprendi a gostar muito de Engenharia do Ambiente e da sua visão completa dos ecossistemas, mas com racionalidade e sem dogmatismos. Gostava, sobretudo, das tecnologias de tratamento, mas por razões variadas especializei-me em ecotoxicologia e avaliação de riscos ambientais.  Mas gostava mais de resolver problemas do que apenas de os identificar e caracterizar.

Só que a vida não é só sonhos, e a certa altura da minha tive de enfrentar a herança familiar, que nunca é só num sentido… A saída de um tio da empresa e a morte prematura de outro levaram-me a sentir que precisava de vir dar apoio na sociedade industrial que o meu pai criara, e tive de me envolver cada vez mais profundamente. Nessa altura já estava doutorada e fizera um curso de Gestão na UA. Este e depois outro que fiz na AESE, no Porto, foram essen­ciais para desenvolver a atividade de gestão, de forma perfeitamente diferente do que até então se fazia na empresa, porque os tempos haviam mudado e as opções de gestão tinham também de se ajustar. Não foi um processo fácil, sobretudo a partir de certa altura.

O que mais a fascina nessas suas atuais atividades?

A fase mais fascinante da minha vida na empresa acho que já passou, que foi a primeira. Agora, o que me move é manter uma empresa com forte cariz humanista, tentando que se equilibre cada vez mais do ponto de vista económico-financeiro, porque isso é essencial. Continuo a gostar muito das otimizações industriais, mas já não sou eu que estou a liderar de perto essa parte da vida da empresa. Contudo, tendo passado profundamente por todas as áreas, estou a acompanhar de forma crítica, e espero que construtiva, os planos de ação e a sua concretização.

Fascina-me paralelamente a reconstituição da história da minha família e dos lugares onde viveu. Perceber a causa das coisas, como foram os percursos, as obras, porque se fizeram certas opções, e deixar um legado de compreensão às próximas gerações. A par com o maravilhoso papel de avó…

Como gestora/administradora no ramo da metalomecânica, quer deixar um conselho aos jovens recém-formados que pretendam seguir esse percurso?

O maior conselho que me parece que se pode dar é o da resiliência. A vida não é fácil, e não se pode desistir às primeiras dificuldades, em nenhum aspeto das nossas vidas. Mas, por outro lado, é importante tentar descobrir e fazer o que se gosta. Tal torna tudo muito mais fácil, mas nem na nossa área favorita é tudo sempre fácil. É claro que mesmo as rosas têm espinhos, mas o caminho é para a frente, e há que tirar o lado positivo mesmo das piores fases. Há que viver com positivismo, com boas energias, dedicando tempo também a hobbies que, no meu caso, são as atividades aquáticas, a música e a micro agricultura, e na vida profissional saber o que se faz e ser realista.

E não pôr o dinheiro acima de tudo, nem desprezá-lo. Lidar corretamente com os aspetos económicos é fundamental, porque o dinheiro é uma moeda de troca muito importante. Viver sem o suficiente não é saudável, mas idolatrá-lo torna-se normalmente uma prisão (raramente atrás das grades, mas na vida),. pelo que considero que lidar equilibradamente (e com verdade e atenção aos impostores) com este aspeto da vida é fundamental.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? O percurso na UA teve algum efeito no seu caminho profissional/atividades paralelas que exerce? De que maneira?

Na UA - curso, doutoramento e docência - desenvolvi sobretudo competências técnicas, de estruturação e de perseverança, e também foi na UA que conheci o meu marido e durante o tempo em que trabalhei na UA que tive os meus filhos.  Mas, de facto, a minha vida foi marcada por muito mais do que a UA, e houve outras influências que também foram fundamentais. Desde logo, a família estreita e alargada em que tive a sorte de nascer e de gerar, os meus padrinhos (que são algo de inédito e extraordinário: os Lysos, da Real República dos Lysos, no Porto), os amigos, os parceiros profissionais, as viagens, os hobbies. É importante alargarmos horizontes, e foi fundamental ter tido outras experiências e ter abraçado outros desafios.

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