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Entrevistas
Rosa Amélia Martins, professora aposentada da UA
Uma vida dedicada ao ensino da matemática
Rosa Amélia Martins
Rosa Amélia Martins esteve 29 anos ligada à Universidade de Aveiro (UA). São 29 anos de dedicação à matemática e à formação de professores e, mais recentemente, ao ensino não formal desta disciplina, através de projetos para professores e educadores, crianças de jardins de infância ou alunos de escolas dos vários graus de ensino e até animação de rua e espetáculos de circo. Uma docente multifacetada que vai manter um “pé” na UA através destes projetos paralelos à docência formal, mas que também se vai dedicar mais às netas e às leituras.

Quantos anos trabalhou na UA?

Trabalhei na UA vinte e nove anos, desde 1984. Até lá, e durante doze anos entre 1972 e 1984, fui professora do ensino secundário. Quando fui convidada para dar aulas no Departamento de Matemática (DMat), então secção autónoma, entrei como requisitada. Entretanto, fiz um mestrado e, em 1994, decidi arriscar e mudar para a carreira do ensino superior e fazer doutoramento.

Que função/funções desempenhou ao longo destes anos?

Acho que desempenhei todas as funções a que um docente está “obrigado”. Dar aulas, como é óbvio: e foram bastantes as disciplinas que lecionei! No início éramos poucos e não podíamos ser esquisitos - conto no meu curriculum 16 disciplinas diferentes... Também orientei e coordenei estágios pedagógicos, monografias, dissertações. Fui representante do DMat junto do antigo Centro Integrado de Formação de Professores (CIFOP), diretora de curso da Licenciatura em Ensino de Matemática, vogal do conselho diretivo, e membro do conselho do DMat. Ultimamente, fui responsável por unidades curriculares da atual Licenciatura em Educação Básica.

Também tenho estado empenhada, desde 2005, no ensino não formal da matemática, num projeto (EECM) com atividades tão diversificadas como workshops para pais e educadores, ações de formação para professores, atividades com alunos de jardins de infância ou escolas e até animação de rua e espetáculos de circo (Circo Matemático).

Como é o relacionamento com os colegas e os alunos?

O relacionamento com os colegas do Departamento é das melhores coisas que há e de que vou sentir muita falta. Mesmo quando discutimos e estamos em desacordo, é muito bom! É certo que, de há algum tempo para cá, as coisas foram mudando e há menos lugar para os encontros e desencontros. Há menos lugar para a democracia, que agora parece ser muito “musculada”, ou seja, já está tudo decidido e as grandes reuniões servem para pouco. Talvez seja uma consequência natural do crescimento, mas não sei, acho que as pessoas se encontram agora muito menos e não sabem o que se passa a não ser tarde demais ou o que tem a ver diretamente consigo…

Talvez se perca menos tempo em reuniões, mas não sei se se ganhou tempo para fazer o que realmente importa: estudar com prazer aquilo de que se gosta, preparar boas aulas, fazer investigação com menos preocupação com a publicação a todo o custo e menos precária (para os mais novos há muito trabalho precário agora na investigação, que merecia e precisava de mais estabilidade).

Com os alunos, sempre gostei muito de dar aulas e tive, no geral, um bom relacionamento com eles. Claro que é mais difícil conseguirmos um bom entendimento com pessoas que têm resistência à matemática e acham que podem manter essa atitude mesmo depois de ingressar no curso de Educação Básica, como tem vindo a acontecer nestes últimos anos. Penso que a UA deveria ter uma política mais exigente de ingresso neste curso, que contrabalançasse a necessária procura de clientes.

Que balanço faz destes anos na UA?

O balanço que faço destes quase trinta anos na UA é positivo, mesmo muito positivo. Gostei muito de trabalhar no Departamento de Matemática. Encontrei pessoas que muito admiro e se foram tornando grandes amigos/as. Não posso deixar de referir o João David Vieira, que foi o responsável pela minha contratação, mas também o Sousa Pinto (infelizmente já falecido), a Natália Castelo e o Casimiro. E as minhas amigas e colegas de gabinete desse tempo, Manuela Souto e Virgínia Santos (que levou um pouco de mim quando se foi, há três anos). E é interessante, mas natural, verificar que alguns dos melhores alunos passaram a ser meus colegas docentes - o que nos faz rejuvenescer, com o contacto desta gente nova.

De que vai ter mais saudades?

Ainda não sei bem, porque não estou ainda desligada de compromissos assumidos, mas penso que será do convívio diário com os colegas e do contacto com os alunos. As pessoas são o que me fará mais falta, tenho a certeza.

Como vê a evolução da UA ao longo destes anos?

A UA cresceu nestes trinta anos, como é natural, em todos os aspetos. Foi diversificando as áreas científicas, que atualmente abarcam engenharias várias, ciência e tecnologia, ciências sociais, da saúde, humanidades, educação, línguas e culturas, música e outras artes.

Não quero pôr-me em bicos de pés para comentar o que de bom se tem feito em termos de ensino, investigação, ligação com empresas, internacionalização, mas quem vem acompanhando a vida da UA e do ensino superior em geral sabe que houve uma grande evolução e a UA é considerada uma universidade moderna e pioneira em algumas áreas (não quero usar a palavra “excelência”, que já perdeu o significado inicial por excesso de uso e abuso).

Em termos físicos, tem um campus muito agradável, com uma arquitetura que se tornou de referência, numa zona muito bonita da cidade de Aveiro, com poentes magníficos!

Pode dar uma ideia para que a UA continue a ser uma instituição de referência?

Nestes tempos conturbados em que vivemos, em que todos os dias temos notícia de mais cortes no estado social, portanto também na educação (em nome do pagamento de uma dívida que vai crescendo), é difícil, também para as instituições de ensino superior, conseguirem manter-se à tona.

E para áreas como a Matemática, em que a aplicação imediata dos resultados da investigação nem sempre é possível, como toda a gente sabe, é perverso que não haja discriminação positiva e que se trate de forma igual aquilo que é diferente. Para além dos problemas de orçamento para o funcionamento da instituição, há também problemas de orçamento familiar e desemprego que fazem com que muitos alunos tenham de abandonar os estudos.

Para lá da conjuntura, que é muito má e todos desejamos que se possa ultrapassar, há três sugestões que faço: uma delas tem a ver com a importância que a “praxe” tem nesta universidade (mesmo a nível institucional). É muito deprimente ter de assistir durante praticamente todo o ano a estas práticas de humilhação consentida (?), em que são sistematicamente gritadas as obscenidades obrigatórias e se parte do princípio que a população, na UA e fora dela, tem de aturar este espetáculo, só porque se trata de estudantes universitários!

Em segundo lugar, penso que já ia sendo altura de se tomar medidas concretas que limitem de facto (não do ponto de vista económico) o tempo que um aluno pode demorar a tirar um curso. Poderia ajudar a definir prioridades por parte dos estudantes, que provavelmente fariam uma melhor gestão do seu tempo.

Outro problema com que me defrontei nestes últimos anos tem a ver com o tipo de alunos que a UA tem permitido que entrem na licenciatura em Educação Básica, com uma formação muito deficiente na fundamental área de Matemática, por terem reprovado a essa disciplina no ensino básico e não terem tido nenhuma disciplina de Matemática no secundário. O curso de Educação Básica é naturalmente, com os subsequentes mestrados, o que forma os futuros educadores de infância e primeiros professores das crianças, que são quem lhes irá abrir portas ou então fechá-las eventualmente para sempre – na minha opinião é o curso mais importante da UA!

E, já agora, mais duas “dicas” para melhorar o campus e o tornar acessível para todos: uma é tornar todos os espaços fisicamente acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida, outra é identificar todos os edifícios de forma simples e colocar mapas atualizados do campus (como em tempos existiram) para que os visitantes e fornecedores não se vejam tão atrapalhados.

Que projetos vai abraçar a seguir?

Em primeiro lugar, fico com mais tempo para abraçar as minhas quatro netas, uma delas recém-chegada! Mas, respondendo à pergunta, ainda não sei bem. Penso que irei continuar a integrar o Circo Matemático (com a Andreia Hall e outros colegas-revelação) e a fazer algumas atividades de ensino não formal, mas também quero fazer coisas de outro tipo, relacionadas com costura e reciclagem. Vou também ter mais tempo para ler, pegar num livro e ir lendo sem ter de interromper para ir trabalhar, que bom! Mas nunca fui muito de fazer planos (sou mesmo portuguesa, para o melhor e para o pior), gosto de navegar à vista, vamos indo e vamos vendo…

Rosa Amélia Baptista Ferreira Soares Martins nasceu a 31 de janeiro de 1949 em Santo Ildefondo, Porto. Iniciou funções na UA a 1 de outubro de 1984 e esteve sempre ligada ao Departamento de Matemática enquanto docente.

 

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