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Entrevistas
José Paulo Rainho, diretor da UATEC, entrevistado na Semana Aveiro Empreendedor
Mais atenção às empresas “gazela”
José Paulo Rainho
No decurso de um programa recheado de eventos, iniciativa da parceria Aveiro Empreendedor, em que a Universidade de Aveiro (UA) é participante ativa, o coordenador da Unidade de Transferência de Tecnologia, José Paulo Rainho, considera-se satisfeito e até, de certo modo, orgulhoso, com os números que demonstram a capacidade de inovação e empreendedorismo da UA.

José Paulo Rainho, que também é investigador principal e professor do Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial na área do empreendedorismo e propriedade intelectual, considera que a UA está na sua máxima pujança produtiva e que é necessário, portanto, dar ainda mais atenção à qualidade e ao impacto do que se produz. Apesar dos confortáveis números relacionados com a criação de novas empresas com origem na UA, entende que seria importante incentivar mais a criação de empresas “gazela”.

A Universidade de Aveiro foi construindo, ao longo dos anos, uma imagem de universidade inovadora e com espírito empreendedor. É correto dizer que tal se deve, essencialmente, à aposta que a UA fez nas áreas tecnológicas?

Penso que se deve a um conjunto de fatores. A história da UA demonstra isso. Ao longo de 40 anos, foram desenvolvidas inúmeras ações. A construção dessa imagem começou cedo, dado que a UA surgiu de uma necesidade do meio empresarial para melhorar a formação e qualificação dos seus trabalhadores. Essa origem marcou uma grande diferença em relação às restantes universidades. Os cursos surgiram ligados à indústria, sendo muitos dos docentes profissionais com experiência na indústria. Tudo isso influenciou a formação e a investigação. Hoje, a UA é uma das universidades europeias com melhores resultados em termos de investigação. A componente prática e de aplicação – estágios e projetos em contexto empresarial – dos cursos lecionados, em estreita interação com as empresas, tem também influenciado essa imagem da UA. Por outro lado, as iniciativas desenvolvidas na área do empreendedorismo, inovação e propriedade intelectual, a comunicação e divulgação da ciência, têm vindo igualmente a reforçar essa marca de imagem moderna, inovadora e de gente empreendedora. O mais importante quando se fala destas questões é, não tanto a criação de empresas, mas a atitude associada ao empreendedorismo e ao intra-empreendedorismo da academia.

Os números de spin offs e de pedidos de registo de patentes de propriedade intelectual, por exemplo, expressam essa imagem?

Sim, refletem. Enfim… Nunca estamos satisfeitos com os números que temos… queremos sempre mais e melhor, mas os estudos sobre estas matérias e os números alcançados pela UA demonstram que estamos com uma elevada produtividade. Os nossos números de comunicações de invenções, de  comunicações de ideias de negócio,  de invenções e de criação de novas empresas, estão maximizados, neste momento. Do ponto de vista de produção científica, estamos cada vez mais perto do topo e penso que é extremamente difícil que estas taxas de crescimento continuem a subir. O que há a fazer é aumentar a qualidade e o impacto das nossas publicações. Por consequência, a propriedade intelectual da UA também está a atingir o auge – tendo sido mesmo nos últimos anos uma das universidades portuguesas com mais registos de propriedade intelectual - atingindo uma média de 20 patentes registadas por ano. Quanto às spin offs, temos margem para crescer, mas acho que deveríamos dar especial atenção às empresas “gazela”, produtoras de alta tecnologia e com elevado potencial de crescimento, que tenham a capacidade de, rapidamente, angariar capital de risco, e ter uma elevada taxa de crescimento económico, com elevada rentabilidade e empregando quadros altamente especializados.

Os pedidos de registo de patentes e de comunicações de ideias de negócio (Spin-off), feitos à UATEC, têm aumentado?

O número de pedidos tem aumentado, mas temos aplicado um maior rigor na continuidade desses pedidos, tendo em consideração a recessão económica que estamos a viver. Ou seja, uma vez recebida a comunicação de invenção, e depois de ter sido feito o pedido nacional de patente só se avança para o pedido de registo internacional de patente, após terem sido identificadas empresas interessadas em comercializar esses produtos ou serviços a nível internacional. Esse maior rigor da nossa parte –  associado a uma débil capacidade financeira das empresas - faz com que muitos desses pedidos de patente internacional acabem por não avançar. Os pedidos de registo têm aumentado, mas o registo internacional acaba, depois, na sua maioria por não ocorrer. Quanto à constituição de empresas, há um aumento originado pela necessidade dos nossos graduados em criar o seu próprio emprego, dada a dificuldade e retração do mercado de trabalho. A UA, através UATEC, tem promovido várias iniciativas que procuram dar uma resposta a essa necessidade, nomeadamente, pela promoção de várias  formações em empreendedorismo, pela promoção do passaporte do empreendedorismo, pela realização de concursos de ideias de negócios, pelo apoio à mobilidade dos empreendedores, bem como pelo apoio prestado pelo nosso consultório de empreendedorismo à elaboração do plano de negócios e oportunidades de financiamento.

Contributo da UA para a economia

Há quem defenda que deve haver formação em empreendedorismo, desde muito cedo e que o facto de tal não acontecer em Portugal se reflete em obstáculos em idades mais avançadas, nomeadamente ao nível das universidades. Como tem a UA compensado esses alegados obstáculos?

Existem vários estudos e linhas de orientação que indicam que o ensino do empreendedorismo deve começar na mais tenra idade, desde logo, no primeiro ciclo… Independentemente de considerar que as competências empreendedoras devam ser trabalhadas na tenra idade, pessoalmente, julgo que é perigoso vulgarizarmos o conceito tão cedo, porque quando certos termos se popularizam em demasia, como hoje em dia acontece com o termo “empreendedorismo”, as pessoas usam, mas não o usam de forma correta  porque não compreendem o seu verdadeiro significado… e podemos correr o risco de passarmos uma ideia errada aos nossos filhos. Ao nível do primeiro ciclo, o importante é que as crianças sintam que são úteis à sua família bem como à sociedade. Isso irá, certamente, tornar as nossas crianças muito mais felizes. Há umas décadas atrás, as crianças iam à escola e, logo a seguir, eram chamadas a contribuir com trabalho para a economia familiar. Agora já não é assim. É importante, para a educação da criança, que seja valorizado o seu papel e o seu contributo para o coletivo. O que é importante é que se exercite e se treine as “competências empreendedoras” das crianças, exercício esse que deve ser adaptado ao seu nível de ensino, à sua idade, bem como ao seu ambiente familiar. Ao nível do ensino superior, e em particular na UA, nossa preocupação é que o ensino do empreendedorismo seja lecionado em todos os ciclos (licenciatura, mestrado e doutoramento) bem como nas nossas escolas superiores. De igual forma, a UATEC garante a existência de cursos de formação em empreendedorismo, não conducentes a grau, durante todo o ano lectivo através do CEBT – Curso de empreendedorismo de base tecnológica e do LABE – Laboratório de Empreendedorismo.

A UA tem uma vocação tecnológica, mas o ensino e investigação desta instituição também se constrói com áreas em que, habitualmente, não é tão fácil valorizar economicamente o conhecimento. Que estratégias se podem adotar para valorizar esse tipo de conhecimento?

Tem havido preocupação da UA – e da Unidade de Transferência de Tecnologia (UATEC), em particular – em valorizar também essas áreas. Embora nos denominemos como unidade de transferência de tecnologia, na realidade aquilo que fazemos diariamente é a valorização do conhecimento gerado na UA, nos mais variados departamentos.   As inúmeras atividades de valorização do conhecimento em departamentos como o de Design, Comunicação e Arte, Educação, Línguas e Culturas e Ciências Sociais, Políticas e do Território - são a prova disso. A quantidade de protocolos e contratos angariados pela UATEC demonstra que existe uma grande interação entre estes departamentos e as mais variadas empresas e entidades públicas, porque são realizados serviços que vão desde as áreas de educação, do design e conteúdos digitais, às traduções e gestão do território, entre outras. Apesar da aparente dificuldade, temos conseguido encontrar interessados em valorizar essas áreas de conhecimento da UA.

O contexto económico tem-se refletido no número de solicitações do exterior, à procura de conhecimento na UA que possa ser aplicado nas empresas? A aproximação da UA às empresas e ao exterior tem-se estreitado?

A UA tem tido cada vez mais iniciativas de aproximação às empresas, porque o contexto económico não potencia as solicitações do exterior. Em particular, a UATEC realiza mensalmente vários eventos, como é o caso do UATEC@Departamentos e do UA Innovation Clubbing e promove Plataformas Tecnológicas que visam fortalecer e aumentar a aproximação e a relação com as empresas. Certamente como fruto deste grande esforço, temos conseguido manter, nos últimos três anos, os resultados e as receitas da UA, o que constitui excelentes notícias perante o contexto em que vivemos. Refiro-me à prestação de serviços, projetos de investigação e desenvolvimento em consórcio com empresas, estudos de consultoria, transferência de tecnologia para as empresas, etc. Claro que, também nos últimos tempos, temos verificado que existem mais empresas em dificuldades e que se veem na iminência de não poder cumprir os contratos com a UA. No entanto, também temos verificado que as empresas que optam por fazer investigação com a Universidade obtêm um caráter distintivo e inovador que lhes permite crescer e exportar com maior valor acrescentado. Os números que se têm mantido são reflexo do grande esforço que temos feito enquanto academia… E as empresas estão satisfeitas ! A UA tem contribuído para o crescimento da economia regional e nacional, sem qualquer dúvida!

O que se pode esperar de um programa como a Semana Aveiro Empreendedor?

A Semana do Empreendedor é uma das iniciativas da parceria Aveiro Empreendedor, em que a UA participa, tal como a Câmara Municipal de Aveiro, a Associação Industrial do Distrito de Aveiro, a Inova-Ria, entre outros parceiros… No âmbito desta parceria existem diversas atividades que promovem o empreendedorismo nas suas diferentes etapas e que se dirigem aos públicos mais diferenciados, desde as crianças do 1º ciclo ao ensino superior. A ideia foi aglomerar, num único programa, várias iniciativas dos parceiros de modo a que o impacto dessas atividades seja maior na população e na sociedade aveirense, na perspetiva de sensibilizar um maior número de atores. Gostaríamos que, em Aveiro, houvesse um aumento das competências empreendedoras e para isso é necessário passar dos muros da Universidade. A ideia é que cada um de nós contribua e seja, de facto, a mudança!

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