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Opinião
Criação de Mendeleev faz 150 anos
Para a Tabela Periódica uma salva de palmas…
Tito Trindade escreve sobre a relevância da Tabela Periódica
“A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos. A Tabela Periódica (TP) enquanto património científico universal é tida como uma das conquistas mais importantes da Ciência, 'refletindo a essência da Química' e de outras disciplinas fundamentais, e é uma forma concisa de mostrar os constituintes elementares de toda a matéria do Universo”. Tito Trindade, diretor do Departamento de Química da Universidade de Aveiro (UA), escreve sobre a relevância desta criação científica.

No dia 29 de janeiro acontece o lançamento oficial destas comemorações em diferentes partes do mundo. Assim, pretende-se celebrar o conhecimento científico ao serviço da Humanidade, nas suas diferentes dimensões, pelo que cabendo às academias um papel dinamizador, desejavelmente é uma comemoração de e para todos.

Foi há 150 anos que o químico russo Dmitri Mendeleev apresentou o Sistema Periódico, criando assim a Tabela Periódica dos Elementos Químicos. Apesar de tentativas anteriores de organização dos elementos químicos até então conhecidos, foi a partir de Mendeleev que esta construção intelectual adquiriu valor de previsibilidade, uma característica essencial em Ciência, para além de corretamente apresentar valor informativo intrínseco à organização dos elementos então conhecidos de acordo com a periodicidade das suas propriedades. Esta proposta de TP surgiu pelo génio de um filho da Rússia czarista, oriundo da Sibéria predominantemente rural, bem distante geográfica e tecnologicamente, dos centros intelectuais europeus que na altura eram embalados a todo o vapor pelos novos processos industriais. Pelo que em 2019 comemora-se também o 150º aniversário da TP proposta por Mendeleev, a partir da qual versões posteriores mais completas foram sendo desenvolvidas, fazendo-se uma justa homenagem a este grande vulto da Química.

A TP encontra-se amplamente disseminada na montra de objetos icónicos da nossa contemporaneidade. A muitos transportará para memórias de lições de Química, com a omnipresente TP em versão inacabada afixada algures no espaço de aula. O seu valor como ferramenta científica é de tal forma inquestionável que se aparenta supérflua qualquer demonstração a este propósito. Não é possível compreender Química sem saber ler a TP. Porém saber ler a TP vai para além do seu contexto estritamente científico, está ao alcance de todos os que exerçam através da curiosidade o direito em saber mais. Perceber o lento processo de construção da TP, é também compreender a aventura do Homem pela busca do conhecimento, em toda a sua glória e infortúnio, ironizar com as vaidades exacerbadas temperadas com rasgos poéticos, enquadrar na mesma tela orgulhos nacionais e homenagens humildes às mentes mais admiráveis de diferentes épocas. A TP sendo explicada pela teoria mais elaborada pode também ser cantada e assim ensinada a crianças. E é de futuro que esta celebração também trata.

Vivemos uma época em que o excesso de informação dificulta a distinção entre o verdadeiro e o falso. Ao nível da disseminação de conhecimento científico exige-se mais do que nunca espírito crítico e rigor de análise. A robustez da TP foi sendo testada ao longo dos anos, existindo fundamento teórico consistente que a explica, mas em que à proposta de inclusão de novo elemento se segue um processo de verificação submetido a crivo apertado. Por exemplo, os últimos quatro elementos a serem integrados na TP é assunto ainda controverso… Para além de projetar um passado, a TP invoca desafios atuais, sempre no pressuposto da busca pela verdade como nos ensinou Mendeleev. Celebrar os 150 anos da Tabela Periódica é revisitar o método científico como a ferramenta intelectual mais poderosa que o Homem construiu.

 

Tito Trindade

Diretor do Departamento de Química

Universidade de Aveiro

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