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Entrevistas
Pessoas UA: Eliana Ferreira, estudante do Mestrado em Ciências Políticas
"Recebemos muito mais do que aquilo que damos"
Eliana Ferreira
Tem bem presente o que é ajudar os outros. Já fez parte da Associação de Voluntariado U.Dream. Esteve em Pedrógão através do Voluntariado Teresa de Saldanha (VTS) e ainda faz parte da equipa de acolhimento do Centro Universitário Fé e Cultura (CFUC). Eliana Ferreira é uma jovem estudante da Universidade de Aveiro (UA). Natural de Gaia, tem 23 anos e frequenta o segundo ano do Mestrado em Ciências Políticas.

Para além de estudar, há alguma atividade que pratique?

Atualmente faço voluntariado na VTS e sou membro da equipa de acolhimento do CUFC. Neste centro mantenho o bar aberto para os estudantes que nos visitam e que querem estudar, é uma forma de garantir o espaço aberto, construímos atividades de forma a dinamizar o espaço para que não pensem que é apenas um espaço religioso. Também fiz voluntariado na U.Dream.

Uma qualidade?

Sou paciente e sorridente ao mesmo tempo. Estas atitudes ajudam-me muito a encarar os problemas que vou encontrando nas atividades que exerço.

Um defeito?

Quando surgem situações desconfortáveis com as quais não sei lidar, entro em choque e fico rezingona.

Qual é o seu maior sonho?

Gostava imenso de trabalhar numa Organização Não Governamental. Sei que trabalhar para a Organização das Nações Unidas (ONU) é sonhar muito alto, mas, gosto de trabalhos de campo e gosto de saber que estou a ajudar alguém.

Que países gostava de conhecer? Porquê?

Fiz Erasmus em Itália durante 6 meses, já visitei alguns países europeus, mas gostava de ir à India e a Marrocos.

India porque vejo filmes desde pequena com a minha mãe e eles têm uma cultura muito diferente da nossa. Gostava de conhecer a realidade de lá, ver como a comunidade vive. 

Marrocos, porque estudei a Língua Árabe na minha licenciatura e fiquei com um “bichinho” de querer conhecer.

Nas atividades em que já participou e que ainda participa, há alguma história que a tenha marcado e queira partilhar?

No ano de 2017 fiz voluntariado na U.Dream. Estava no departamento das relações humanas. Neste departamento lidamos com crianças e temos a oportunidade de acompanhar uma criança durante três meses.

Conheci o Afonso que agora tem 16 anos, tem 1.90 de altura, é autista mas é muito querido. No início não sabíamos como lidar com ele. Tinha horários muito distintos, não sabíamos como comunicar, era difícil de estar com ele, só tínhamos uma visita semanal e não era fácil estabelecer contacto com ele. Erámos dois e sempre que levávamos algo combinado corria sempre mal. Chegamos a levar um livro para ler ele não lia, assim como outras atividades, acabamos por desistir. Um dia dissemos-lhe “vamos fazer o que tu quiseres”. Andamos a planear o que havíamos de fazer, descobrimos que ele gostava de nadar mas não sabíamos como ia correr… Sabíamos que tínhamos de fazer algo por ele, mas estávamos sempre com medo que corresse mal. Ele podia olhar para nós e dizer “não quero fazer” e assim estragava o nosso dia.

Então, decidimos levá-lo a passear a um parque, a jogar bowling, a fazer natação, correu tudo bem ele adorou! Ao fim de dois meses após estas atividades reencontramos o Afonso,  ele recebeu-nos tão bem que ficamos muito felizes. O pai veio-nos agradecer e foi esta atitude que também me marcou, o Afonso gostava de bowling e o pai não sabia e agora já podia fazer este tipo de tarefa com ele.

Nós convivemos com estas crianças, somos como uma família e nem sempre sabemos se estamos a fazer as coisas bem e no fim percebemos que afinal estamos a contribuir para que esta criança seja mais feliz. O facto de estarmos ali todos juntos ajudou o próprio Afonso a desenvolver-se e a estimular-se. O pai agradeceu-nos por isso.

Entretanto voltou a estar com o Afonso?

Sim, em novembro, ele fez anos. Vamos marcar mais visitas pois ele é o nosso “menino” e acabamos por ganhar amor, queremos acompanhá-lo e saber como é que ele está.

O objetivo da U.Dream é que ao fim dos três meses de convívio com cada criança, consigamos organizar um dia chamado o “Dia do Sonho”. Neste dia, reunimos a família com a criança, oferecemos algo à família que os ajude a curto e a longo prazo e especialmente que a criança se divirta.

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Eliana enquanto voluntária da U.Dream onde conheceu o Afonso e com quem conviveu durante três meses

Porque gosta tanto de fazer voluntariado?

Recebemos muito mais do que aquilo que damos. Eu não gosto de estar parada e saber que posso ajudar os outros para mim é gratificante. No verão passado fiz uma caminhada a Santiago de Compostela pelo CUFC, conheci a Irmã Flávia. Convidou-me a fazer parte do VTS, tendo-me desafiado a ir a Pedrógão, fazer voluntariado em lares. Em Pedrógão a Irmã Flávia ensinou-me que nós temos de ser sementes. Este pensamento influenciou-me, pois temos tempo e neste tempo livre podemos ajudar os outros tornando-nos em sementes que mais tarde serão colhidas.

E como foi essa experiência em Pedrógão?

Pensava que ia ser pior por causa dos incêndios, mas onde estive foi menos visível que nas localidades próximas. Não senti muito esta tragédia nos lares onde estive. As instalações eram ótimas, os idosos reclamavam, mas era por situações financeiras. Estive à conversa com algumas pessoas que perderam alguém e não é fácil, eu queria chorar com eles, mas não podia, tive de me manter firme. Ainda tive a oportunidade de visitar uma família em que os filhos perderam os pais e os avós não sabem como lidar com a situação, porque perderam um filho que nunca mais vão reaver… A vida deles parou, estagnou. Ouvi e tentei dar força, foi um choque para mim. Perder alguém neste tipo de situações não é fácil encontrar palavras que lhes dê força para continuar. Ver este tipo de notícias na TV é muito diferente de estar em contacto direto com estas pessoas.

 

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Eliana fez parte de uma equipa do Voluntariado Teresa Saldanha e esteve em lares de idosos na sua visita a Pedrógão

Sente que todas estas ações mudaram a Eliana que é hoje?

Senti que cresci muito! Começou logo quando fiz Erasmus, era muito passiva, não tinha nenhuma atividade a não ser estudar na UA. O facto de ter saído fora da caixa, fez-me perceber que tinha de fazer mais alguma coisa para além de estudar. As oportunidades foram surgindo e fizeram com que eu desse mais valor a muitas coisas que antigamente não dava. Melhorei a minha relação com as outras pessoas e comigo mesma contribuindo assim para a sociedade.

Um dia vou…

Brevemente vou a Timor e com esta experiência quero-me pôr à prova. Quero ver se consigo estar tanto tempo fora, e se conseguir, um dia vou ingressar no voluntariado durante um ano, fora de Portugal. 

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A série #PessoasUA pretende mostrar as estórias e vivências das pessoas que fazem a comunidade UA. Se conhece alguém que deva estar aqui retratado, envie-nos uma mensagem para noticias@ua.pt com as suas dicas.

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