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Cultura
Espaço de encontro e reencontro de estudantes e antigos estudantes mudou de roupagem
“Estórias” da UA à mesa do café
Sócios e ex-sócios do Convívio
Mudou de cara, mas há certos traços no seu facies que os amigos, nomeadamente universitários e antigos universitários, reconhecem, mantendo-o, afinal, o mesmo Convívio de sempre.

À noite, as mesas apenas se adivinham de tão rodeadas por gente de gestos largos. Conversas acesas são entrecortadas pelo estalar das gargalhadas e pelo tilintar dos copos em forma de cone invertido. Pedem-se “finos”, bebe-se café, muitos conversam, alguns jogam bilhar, outros jantam. Durante o dia, quando há mais sossego, há quem prefira este espaço para trabalhar ou estudar.

 

O Convívio tem sido assim para várias gerações de universitários. Os estudantes sentem-se particularmente acolhidos aqui, onde fazem amigos, reencontram companheiros de sempre e, afinal, se sentem em casa.

 

A mudança do Convívio da rua de S. Sebastião para a rua Aires Barbosa, com inauguração das novas instalações a 17 de setembro, foi apenas uma deslocação de escassas dezenas de metros. As mesas transitaram das antigas instalações, o balcão tem o mesmo revestimento e os candeeiros, por cima dele, em forma de lâmpada gigante, também são reconhecíveis. Apesar da nova configuração do espaço e de uma imagem atualizada, o serviço mantém-se, as caras e os nomes que garantem o funcionamento do café são os mesmos: Vítor Almeida, Porfírio Linhares, Luís Silva, entre vários outros colegas, e Flávio Pereira na cozinha, com o tal jeito especial para as francesinhas. Membros da sociedade que dá forma jurídica ao Convívio, caras que se vão tornando familiares de geração para geração. José Augusto Almeida deixou a sociedade em 2017. António Duarte saiu antes, há 13 anos, e foi substituído por Luís Silva.

Mais curioso ainda nesta cumplicidade com a vida académica é o facto de o Convívio ter nascido em 1973, ano da publicação do decreto de constituição da Universidade de Aveiro (UA), pela mão de Manuel Azevedo, antiga glória do futebol do Beira-Mar e do Benfica, e de sua esposa, Maria Luísa, então funcionária da Segurança Social. O casal afastou-se do contacto direto com os clientes em 1977, abrindo a sociedade a alguns dos funcionários, situação que se foi mantendo, com algumas substituições entre os membros da sociedade.

 

Luísa Azevedo lembra que, quando o então ministro da Educação, Veiga Simão, se deslocou a Aveiro para inaugurar a Universidade, os bolos da cerimónia foram confecionados por si.

Hoje, cerca de 90 por cento dos atuais clientes, calcula Vítor Almeida, têm até 30 anos e são atuais estudantes universitários ou já o foram.

 

A mesa do reencontro

 

Ao fundo, junto a uma parede branca, na área de café, do lado contrário ao espaço de refeições, os bilhares separam as duas áreas. Nesse extremo do Convívio, uma mesa longa rodeia-se de uma conversa bem-disposta, enche-se de copos e, à sua volta, outros amigos vão surgindo e juntam-se ao grupo. Todos sabem que basta entrar e o reencontro acontece, seguindo-se dois dedos, ou mais, de conversa. Vai ser naquela parede branca, por detrás da mesa, que Isabel Saraiva, uma das convivas e frequentadora habitual, fotógrafa freelancer, usará a sua arte para perpetuar a vivência no café, confidencia a própria com entusiasmo.

 

Entre os antigos alunos da UA presentes naquela mesa, há algumas caras mais populares, membros da Tuna Académica de Aveiro (TUA): Pedro Nunes, conhecido por Abrunhosa, Pedro Aguiar, Ricardo Mendes... Quase todos têm peripécias decorridas naquele cenário que aceitam partilhar. Era para o Convívio, por exemplo, que a mãe de Pedro Aguiar, durante o período em que este frequentou o curso, ligava todos os dias para falar com o filho. Vários contam que, quando regressavam a Aveiro no final de um fim de semana, vinham diretamente ao Convívio antes de irem a casa e pediam a Porfírio Linhares para guardar a bagagem até segunda ou terça.

 

Abrunhosa, antigo aluno de Engenharia do Ambiente, esteve oito anos a trabalhar em Angola. O Convívio, explica, é a plataforma de que precisava para a “reintegração”, voltar a rever os amigos de quem esteve apartado durante todos aqueles os anos no outro hemisfério.

 

Um espaço de reencontro. É também isso que Hugo Coelho, antigo aluno de Engenharia Eletrónica e Telecomunicações e a exercer funções no Creative Science Park - Aveiro Region, também presidente do Beira-Mar, vê no café agora localizado na rua Aires Barbosa, onde aliás diz continuar a sentir-se “em casa”. Cliente há 24 anos, desde que começou a estudar na UA, frequentou de diferentes modos o espaço, desde estudante, passando pela fase das refeições enquanto trabalhou num local próximo. Hoje, contribui, também como pai, para a transmissão do significado e memória deste espaço para as novas gerações, trazendo regularmente os seus filhos, João Francisco (17 anos) e Manuel Maria (15 anos), para os encontros e jantares com os seus amigos ou colegas de curso e os filhos deles, ainda que alguns residam e trabalhem a mais de 60 quilómetros. Também para esses, o espaço serve os propósitos do reencontro.

 

Espaço de alunos, de professores… de todos

 

Ainda estudantes de Engenharia Informática, mas clientes habituais há quatro anos, André Moleirinho, presidente da Mesa Assembleia Geral da Associação Académica da UA, Francisco Oliveira e Cláudio Santos assinalam, com uma alguma nostalgia, a perda de uma certa rusticidade e informalidade na mudança de instalações. Salientam, contudo, que esta “plástica” poderá agradar a um público mais vasto e fez reduzir o nível de ruído que existia no antigo espaço. “Não obstante poderem ser feitas algumas críticas ao espaço, ao Convívio os estudantes voltam sempre”, referem os estudantes.

 

Sendo um espaço de vivência informal, com caraterísticas que poucos têm na cidade, é partilhado por alunos e antigos alunos, alguns deles, professores. Essa informalidade na elação entre os membros da academia que motivou a opção de António Calado, professor do Departamento de Biologia, pela UA também se aplica às mesas de café. A uma mesa do café, num intervalo do trabalho com o portátil à frente, acompanhado da sua esposa, Sandra, o docente recorda que, não raras vezes, os alunos vinham sentar-se para conviver com os professores, proximidade que, lamenta o docente, se tornou menos evidente ao longo dos anos mais recentes no Convívio. “É bizarro que os estudantes se acomodem a este afastamento”, exclama este frequentador do café há mais de 30 anos, em jeito de desafio aos atuais alunos da UA.

 

(Texto publicado na revista Linhas n.º 30)

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