conteúdos
links
tags
Opinião
Texto de Sara Moreno Pires, investigadora do GOVCOPP/UA
Alimentação como um dos principais desafios ambientais dos municípios
Sara Moreno Pires participa no estudo sobre pegada ecológica municipal
Resultados recentes do estudo Pegada Ecológica dos Municípios Portugueses, realizado em seis municípios portugueses (Almada, Bragança, Castelo Branco, Guimarães, Lagoa e Vila Nova de Gaia), apontam para a alimentação como o principal contribuidor da elevada Pegada Ecológica dos residentes destes municípios. Este projeto, realizado pela Global Footprint Network (GFN) – organização responsável pelo conceito da Pegada Ecológica–, a ZERO–Associação Sistema Terrestre Sustentável e a Unidade de Investigação GOVCOPP da Universidade de Aveiro, salienta os desafios locais para inverter lógicas de consumo prejudiciais ao ambiente. A investigadora Sara Moreno Pinto explica no texto de opinião.

A Pegada Ecológica é uma metodologia reconhecida internacionalmente que permite estimar o impacto das nossas atividades de consumo nos recursos naturais do planeta: compara os recursos naturais usados para suportar um determinado estilo de vida (Pegada Ecológica) com a capacidade dos ecossistemas para gerar esses mesmos recursos (Biocapacidade).

Os resultados mostram que o saldo entre Pegada Ecológica e biocapacidade é sempre devedor em todos os municípios, isto é, a Pegada por residente é sempre superior à biocapacidade média por pessoa nesses municípios ou mesmo à biocapacidade per capita do país ou do Planeta Terra. Isto significa que se toda a população mundial consumisse ao mesmo nível de cada residente de um destes municípios, seriam necessários 2,4 Planetas Terra (no caso da média de Almada, Bragança ou Castelo Branco) ou 1,9 Planetas (no caso de Lagoa).

No ano de 2016, um cidadão de Almada teria esgotado os recursos naturais disponíveis para esse ano, no dia 27 de maio. O Dia da Sobrecarga da Terra, como simbolicamente se chama a este dia do ano em que entramos em défice ecológico, seria a 30 de maio (para Bragança e Castelo Branco), 3 de junho (Vila Nova de Gaia), 13 de junho (Guimarães) ou 4 de julho (Lagoa).

Estes resultados demonstram um padrão semelhante a nível mundial, em que cerca de 130 países se encontram em défice ecológico, dos quais Portugal se inclui (ver: https://wwf.panda.org/knowledge_hub/all_publications/living_planet_report_2018/).

Quais as atividades de consumo que mais influenciam estes resultados?

O consumo de produtos alimentares é a atividade de consumo que mais se destaca, sendo responsável pela maior componente da Pegada Ecológica (cerca de 30% em média), seguido do consumo no setor dos transportes (cerca de 20% em média). Responsável por esta elevada Pegada da alimentação está o consumo de carne (que varia entre 23% e 28% nos municípios) e de peixe e outro pescado (em torno de 26%). O consumo de proteína animal corresponde assim a mais de metade da Pegada da Alimentação.

Sendo Portugal o país Europeu que mais peixe consome, de acordo com este recente estudo (https://ec.europa.eu/jrc/en/news/how-much-fish-do-we-consume-first-global-seafood-consumption-footprint-published), esta relação entre consumo de peixe e carne e impacto ambiental elevado fica evidente.

Este alerta pretende gerar um forte envolvimento da sociedade civil e potenciar a promoção de novas práticas (que reduzam o desperdício alimentar, promovam uma alteração de dieta alimentar, fortaleçam o consumo de produtos locais e biológicos, entre outras) que incentivem a redução dos impactos ambientais e o reforço dos serviços prestados pelos ecossistemas ao nível municipal.  É uma importante ferramenta de alerta para as necessárias mudanças de comportamento de consumo das sociedades atuais e para um novo paradigma de efetiva valorização dos serviços prestados pelo ambiente ao Ser Humano.

 

Sara Moreno Pires

Investigadora - Project CeNTER – Community-led Networks for Territorial Innovation 

Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro 

GOVCOPP, Research Unit on Governance, Competitiveness and Public Policies

imprimir
tags
outras notícias