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Investigação
UA estuda competências básicas e como reforçar a formação nesta área
Formar estudantes para criar cidadãos competentes
Os investigadores da UA têm vindo a estudar as soft skills e como enriquecer a formação nesta área
Há muito que o papel das universidades deixou apenas de se cingir ao ensino e à formação académica. Hoje em dia os desafios são cada vez maiores e as instituições de ensino superior têm de se preocupar, também, em formar bons cidadãos, com competências que vão além daquilo que aprendem na sala de aulas.

As chamadas soft skills até podem estar na moda, mas temos de as encarar como mais do que isso. Estas competências básicas que os estudantes desenvolvem durante o seu período académico são cada vez mais determinantes, quer seja para a sua formação como cidadãos, mas também na sua valorização perante os potenciais empregadores.

Possuir habilidades sociais e de comunicação, criar um maior sentido de responsabilidade, desenvolver o pensamento crítico e o gosto pelo trabalho em equipa e networking, tornar-se uma pessoa mais flexível, motivada, com noções da gestão de tempo e de resolução de problemas. São estes os principais desafios colocados por esta nova realidade.

As soft skills são qualidades intrínsecas, que se desenvolvem através das experiências e das interações. Podem ser cultivadas através de estratégias e ações transversais ou mesmo de práticas introduzidas nos planos curriculares.

Ciente da sua importância para os estudantes, a Universidade de Aveiro (UA) tem trabalhado, nos últimos anos, esta área de forma a proporcionar as condições necessárias para o desenvolvimento de outras competências que ajudam a enriquecer os curricula dos nossos jovens, tornando-os colaboradores multifacetados. “A nossa missão mais nobre, aquela que antes de todas as outras nos ocupa, é a de educar e formar futuros profissionais que são cidadãos, que são pessoas”, afirmava o então Reitor Manuel António Assunção no discurso que marcou a cerimónia de entrega dos diplomas em 2017, expressando um objetivo da UA no que à formação e ensino diz respeito. Neste mesmo sentido, o atual Reitor, Paulo Jorge Ferreira, considera: "Uma universidade de referência não pode ser uma estação de serviço. Não se pode limitar a formar técnicos. Deve assumir a missão de formar para a cidadania".

Iniciativas dos próprios estudantes são contributo fundamental

Olhemos para a realidade da UA, tendo como exemplo as atividades desenvolvidas pelos núcleos académicos (desportivos, culturais e de curso), ou projetos que envolvem alunos de cursos e unidades orgânicas diversas como a equipa Engenius – UA Formula Student e a equipa Motochanics. Ou até mesmo as experiências obtidas pelos alunos selecionados para a Bolsa de Mérito Social, através da qual podem desenvolver diversas atividades na UA mas de âmbito extracurricular. Existem ainda outras organizações que a par da UA trabalham no desenvolvimento das soft skills como sejam a Erasmus Student Network – ESN, BEST Aveiro, AIESEC Aveiro, Associação de Engenharia e Gestão Industrial de Aveiro – AEGIA. De referir ainda as juniores empresas como a Aveiro Smart Business e U.Dream Aveiro, a Scientific Junior Value e a Junior Empresa Lean de Aveiro.

A UA tem aumentado a sua oferta neste tipo de atividades e os alunos têm aproveitado esta oportunidade. José Paulo dos Santos, antigo aluno da UA, reconhece as vantagens das competências adquiridas na universidade, pois entende que devem ir além do “mero saber ou conhecimento académico”. “Um campus universitário, como o da UA, permite-nos envolver numa multiplicidade de atividades e momentos, onde nos podemos valorizar e distinguir. Colocarmo-nos ao serviço da comunidade, em espírito de partilha, de construção e de inovação, deve ser esse o nosso dever. A atividade política e intelectual é essencial para o desenvolvimento de cada cidadão e a universidade pode ser um espaço privilegiado para dar início a outras competências, além daquelas que nos são oferecidas pelos diversos cursos”, concretiza este professor formado na UA.

Já Fernando Santos, licenciado em Engenharia do Ambiente pela UA, acredita que quando há “vontade e compromisso” tudo se consegue. A sua experiência na UA ajudou-o a desenvolver coisas tão básicas “como a curiosidade, mas também o espírito empreendedor, a capacidade de planeamento e de organização”, revela.

A mesma opinião partilha Antonieta Correia Gomes que reconhece que “a entrada na UA foi um marco muito importante no desenvolvimento pessoal. Acredito que as competências interpessoais e o trabalho em equipa foram claramente aprofundados a partir do momento em que entrei na UA”, afirma a antiga aluna do Departamento de Línguas e Cultura.

Academia atenta à importância das soft skills

A criação de condições para o desenvolvimento das soft skills deve-se muito ao trabalho desenvolvido pelos departamentos e escolas da UA que se revelam atentos a esta nova realidade e empenhados em contribuir para a formação de estudantes e cidadãos competentes e multifacetados.

No artigo “O pensamento crítico: as mudanças necessárias no contexto universitário”, de Amanda Franco e Rui Marques Vieira, ambos investigadores do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da UA, e Carlos Saiz da Universidade de Salamanca, publicado em 2017, referem que o pensamento crítico ainda não é a regra seguida no ensino superior, apesar da importância reconhecida. Como exemplo do esforço de reflexão neste campo, é apontado o exemplo da Rede de Pensamento Crítico, integrada pelo CIDTFF como exemplo de alguns espaços em Portugal onde se promove e divulga a investigação neste campo. Salienta-se, citando outros autores, que o pensamento crítico requer estratégias dirigidas para esse fim em sala de aula, uma prática continuada, a associação a problemas da vida real dos estudantes, e uma reação personalizada e atempada.

A UA através do trabalho coordenado por António Moreira, que conta com a participação de Margarida Lucas, do Departamento de Educação e Psicologia, tem vindo a contribuir para a definição de critérios europeus para avaliar competências digitais. A competência digital é reconhecida como transversal à aquisição de todas as outras competências-chave e essencial para o crescimento competitivo, inteligente e sustentável da sociedade atual. Estudos recentes indicam que a aquisição de competência digital entre os estudantes do ensino superior não está tão garantida como se possa pensar.

São também vários os projetos e trabalhos de investigação que existem na UA que promovem, direta e indiretamente, o desenvolvimento das soft skills. O ABC-MELES2.0, desenvolvido no âmbito do programa Erasmus+, e que é promovido por um consórcio de cinco universidades europeias, entre elas a UA, é um destes casos. Envolve cinco docentes dos departamentos de Matemática (DMat) e de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo (DEGEIT) – Tatiana Tchemisova, Natália Martins, Isabel Cação, Ana Daniel e Mariana Pita – e tem como objetivo principal a criação de um novo tipo de educador, o “Academic Business Coach", capaz de apoiar o desenvolvimento de ideias de negócios resultantes de projetos académicos.

Tolerância ao stress, gestão do tempo e paixão pelo que se faz 

Um outro projeto a decorrer na UA é o ActYouth EU – “From Theory to Action” – que tem como finalidade desenvolver um sistema que apoie o reconhecimento, a avaliação e o desenvolvimento de competências transversais nos jovens, estudantes e graduados. O trabalho desenvolvido envolveu a auscultação de empregadores e jovens e permitiu identificar competências transversais fundamentais para a empregabilidade. No estudo “Critical Transversal Competences Towards Employability: Matching Employers And Students Perspectives”, publicado no âmbito deste projeto concluiu-se que são as competências como “tolerância ao stress”, “gestão do tempo” e “paixão pelo que se faz” que as entidades de formação e ensino superior devem dar mais atenção, porque é estas que os jovens declaram terem menos desenvolvidas. No extremo oposto estão competências como a “vontade de aprender” e a “adaptabilidade”, às quais os empregadores atribuem elevada importância, mas que os jovens consideram terem já substancialmente desenvolvidas.

O ActYouth é coordenado na UA por Marlene Amorim, e tem a colaboração de toda a equipa de investigadores “Network of Research on Economics Management and Social Innovation (REMSI)”, do DEGEIT, e envolve parceiros do Chipre, da Polónia e da Lituânia. O projeto permitiu identificar dez soft skills consideradas “mais relevantes”, e desenvolveu para cada uma delas um pacote de formação para formadores e outro para formandos. O estudo desenvolveu e validou também uma ferramenta de diagnóstico ao nível de competências, que pode ser usada para aferir e posicionar as necessidades de qualificação dos jovens neste âmbito. Esta ferramenta está disponível em: http://ict-tool.actyouth.eu/, pelo que os interessados poderão realizar o teste em qualquer altura. Adicionalmente, todos os detalhes e recursos desenvolvidos no âmbito da equipa de investigação REMSI estão disponíveis em http://competencies4sight. web.ua.pt/wordpress, o site da rede que oferece recursos e atualizações sobre as próximas atividades e eventos.

Humildade faz parte das caraterísticas do líder

Do ponto de vista da gestão, uma soft skills como a humildade, que também pode ser encarada como uma fraqueza, faz parte das caraterísticas do líder que obtém melhores resultados, explica Andreia Vitória, Professora do DEGEIT, esclarecendo que, neste caso, "a humildade não pode ser entendida per se, sendo necessário associá-la a garra e coragem. Saber liderar é também saber transmitir aos outros uma imagem de si”. Saber ouvir os outros, ter consciência das próprias fraquezas, partilhar honrarias

com os que estão próximos, estar aberto a perspetivas diferentes, também caraterizam um líder eficaz, explica esta docente?.

A importância cada vez maior dos ambientes informais de aprendizagem, particularmente relevantes no caso das soft skills, foi analisado no projeto internacional Cacht It, igualmente coordenado por Marlene Amorim e que contou com a participação de investigadores, docentes e pessoal técnico, administrativo e de gestão de várias unidades orgânicas da UA, incluindo Marta Ferreira Dias, Isabel Dimas, José Manuel Oliveira, José Paulo Rainho e Mário Rodrigues, Marta Oliveira, Niall Power, Pedro Pêgo e Eva Andrade. O projeto permitiu a exploração e partilha de práticas de aprendizagem não formal nos três países parceiros – Portugal, Dinamarca e Polónia – incluindo a aprendizagem baseada em projetos, no âmbito da qual os estudantes trabalham com módulos temáticos associadas a diversas disciplinas para desenvolver um projeto concreto. Na mesma linha foram explorados os benefícios dos estágios curriculares em diferentes momentos da formação académica ou no final dos ciclos de estudos. As aprendizagens resultantes deste projeto estão reunidas em livro e disponibilizadas a toda a comunidade no site do projeto www.nonformalacademy.eu.

Mónica Lourenço, investigadora do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro, que participou na elaboração do referencial The Cambridge Framework for Life Competencies, é da opinião de que “precisamos de uma educação para a cidadania global” nas instituições de Ensino Superior, como forma de preparar os estudantes para a empregabilidade, mas, fundamentalmente, para viverem juntos de forma sustentável como cidadãos comprometidos na resolução dos problemas mundiais. Destaca ainda que a OCDE vai passar a incluir no PISA um teste para avaliar a competência global, que define como uma “capacidade multidimensional: ser capaz de ter em consideração questões locais, globais e interculturais, compreender e avaliar perspetivas e visões do mundo diferentes, interagir com sucesso e de modo respeitador com outros e agir de forma responsável rumo à sustentabilidade e bem-estar coletivo”.

Exemplos na UA

Bárbara Pinho - Vencedora do Famelab e beneficiária da Bolsa de Mérito Social

"Tenho tido muita sorte, digo sempre isto porque sinto-o de forma bem vincada. Todos os projetos aos quais me associei trouxeram sempre pessoas super interessantes e com as quais partilho sempre gostos e formas de ser. Ultimamente, posso mesmo dizer que tenho criado uma rede profissional única e fantástica tendo em conta os meus objetivos de empregabilidade. No entanto, não fica por aqui: tenho feito amigos e crescido como pessoa de forma a melhorar sempre e isso é o melhor que se pode pedir de qualquer atividade: melhoria constante".

Miguel Oliveira - Presidente do BEST Aveiro

"Ganha-se muito, seja em termos pessoais, seja em termos de futuro. Não só desenvolvemos imensas soft skills como aprendemos sobre imensas áreas que, na maior parte dos casos, nem estão relacionadas com os nossos cursos. Por exemplo, aprender a desenvolver websites ou trabalhar com programas de design. Além disto, aprender a lidar com outras culturas, a lidar com pessoas e, claro, a organizar eventos, coisa que, na minha perspetiva, nos tempos que correm, torna-se cada vez mais importante. Vemos muitas empresas a fazer o mesmo, internamente. Pessoalmente, este tipo de coisas faz-nos crescer como pessoas e perceber também que devemos ter um papel ativo na sociedade e não ficar parados".

Joana Ribau - Aluna da UA e presidente da Erasmus Student Network Aveiro

"Além da complexidade que um curso superior alberga, senti que só estava a desenvolver as minhas hard skills numa área muito específica e isso não me preenchia. Portanto, procurei também atividades extracurriculares que promovessem causas em que acredito e que me ajudassem a desenvolver as minhas soft skills, tornando-me numa pessoa com uma visão mais holística. A minha capacidade de gestão de tempo, de compreensão intercultural, de resolução de problemas e, acima de tudo, de adaptação a novos ambientes deve-se muito ao meu percurso na Erasmus Student Network".

João Valentim - Membro da direção do GrETUA

"Ao envolver-me nestas ações, porque transcendem muito o conceito de atividades, ganho não só possibilidade de evoluir profissionalmente, muitas vezes com uma liberdade superior à média, assim como me leva a conhecer pessoas que dificilmente conheceria de outra forma e a ganhar skills que acabam por resultar do meu empenho e interesse pelas funções que executo e pela capacidade de colocar a fasquia gradualmente acima e acima".

Teresa Neto - Professora do Departamento de Educação e Psicologia, participante em duas missões de voluntariado na área da Educação em S. Tomé e Príncipe

"As experiências em que participei, em regime de voluntariado, obrigaram-me a dinamizar grupos de trabalho com pessoas de outros contextos sociais e culturais, exigindo capacidades de saber ouvir e adaptar práticas de atuação profissional a contextos muito particulares. Ganhei, sem dúvida, mais motivação para integrar projetos de cooperação nos PALOP e/ou CPLP".

Renata Ribeiro - Responsável financeira do Núcleo Associativo de Estudantes da ESSUA da AAUAv e membro do Conselho Geral da UA

"Penso que o principal ganho é ao nível do desenvolvimento de soft skills. Aprender a gerir o tempo foi um dos principais ganhos, assim como aprender a tomar decisões, cada vez mais ponderadas. Também aprendi a bater o pé e a dizer "não". Ao desenvolver o espírito crítico, melhorando o poder de argumentação, fiquei mais apta a participar em discussões. A nível emocional, os laços que se criam com as pessoas que estão à nossa volta com quem passamos muitas horas e o que se aprende diariamente com elas, é notável. Sou uma pessoa de pessoas e as relações que se estabelecem neste contexto e que daqui partem para amizades, são um ganho ao qual dou imenso valor".

 

(texto com adaptações antes publicado na revista Linhas 29)

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