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Opinião
Emanuel Leite Jr e Carlos Rodrigues enquadram seminário “Sport in a Mobile World”
Geopolítica e futebol: a Rússia, o Mundial e o soft power
Aperto de mão entre Vladimir Putin e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman no jogo Rússia Arábia Saudita
Rússia e a Arábia Saudita deram início à 21ª edição do Campeonato do Mundo FIFA. Dentro de campo, os russos golearam os sauditas por 5x0, naquela que é a segunda maior goleada em um jogo inaugural de Mundial (atrás apenas do Itália 7x1 EUA, em 1934). Porém, o momento mais icónico da partida de abertura não ocorreu dentro de campo. Isso, porque está a correr o mundo a imagem do aperto de mãos entre o presidente russo Vladimir Putin e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman, com o presidente da FIFA Gianni Infantino ao centro. Este texto enquadra o seminário “Sport in a Mobile World: Identity, Culture and Politics”, a 21 e 22 de junho, na UA.

Este aperto de mão entre Putin e Mohammed bin Salman simboliza a dimensão geopolítica de megaeventos desportivos como o Mundial. Afinal, como diz o sociólogo Richard Giulianotti, que na próxima quinta-feira abre o seminário “Sport in a Mobile World”, que acontece nos dias 21 e 22 de junho no DCSPT, os “megaeventos desportivos podem ser considerados uma das mais poderosas manifestações contemporâneas da globalização”.

Giulianotti argumenta que os megaeventos desportivos têm reflexos nas esferas económica, social e política. Em termos económicos, o autor alude às cifras de mil milhões de Euros envolvidas nestes torneios e a possibilidade de as cidades e países que sediam os eventos poderem “se vender”. No que tange à questão social, o pesquisador recorda que estas competições são acompanhadas por mil milhões de pessoas em todo o planeta. Por fim, o aspeto político, uma vez que “estes eventos atraem políticos de todo o mundo, particularmente nas cerimónias de abertura” (Giulianotti, 2015).

Ao descrever as relações de poder, Joseph Nye definiu que “poder é a habilidade de influenciar as outras pessoas para se conseguir os resultados que se deseja, o que pode ser feito através da coerção, do pagamento ou da atração” (Nye, 2012). O ‘soft power’ seria este poder através da atração, em contraponto ao “poder duro”, que se caracterizaria pela coerção (força militar) ou do pagamento (força econômica), haveria o ‘soft power’ (“poder brando”). “Um país pode obter os resultados que deseja na política internacional porque outros países – admirando seus valores, emulando seu exemplo e aspirando ao seu nível de prosperidade – vai querer segui-lo” (Nye, 2004).

E para autores como o nosso orador convidado Giulianotti, a organização de megaeventos como o Mundial pode servir como instrumento de ‘soft power’, na medida em que permitem às cidades e países construírem uma nova imagem de si mesmo, expor uma nova marca em escala global ou atingir alguns objetivos políticos (Brannagan & Giulianotti, 2015; Giulianotti, 2015).

Algo que países periféricos e emergentes, como a Rússia e a Arábia Saudita, já identificaram. Por exemplo, todos os parceiros da Rússia nos BRICS – Brasil, Índia, China e África do Sul - sediaram nos últimos anos, e no caso da China ainda vai sediar (Jogos Olímpicos de Inverno 2022), megaeventos desportivos. Pequim, a capital chinesa, recebeu os Jogos Olímpicos de Verão em 2008 e vai organizar os Jogos de Inverno em 2022. A Rússia, que agora sedia o Campeonato do Mundo, organizou os Jogos Olímpicos de Inverno 2014 em Sochi.

Se nos tempos de Guerra Fria, o desporto e as participações em megaeventos desportivos, especialmente os Jogos Olímpicos, serviram de campo para enfrentamentos ideológicos entre os dois lados daquela disputa, praticamente 27 anos depois do fim da União Soviética, a Rússia volta a apostar no desporto como instrumento de promoção internacional de sua imagem. Desta vez não com o intuito de se mostrar ideologicamente superior, mas de promover uma marca revigorada do país no cenário geopolítico, comercial e financeiro internacional.

No caso dos sauditas, é interessante observamos o recente movimento deste reino no tabuleiro geopolítico do futebol. Pelo que se fala nos bastidores do desporto mais popular do mundo, seriam os sauditas os responsáveis pela ideia de reformulação do Campeonato do Mundo de Clubes. Especula-se que, ao lado do banco japonês SoftBank, a Arábia Saudita estaria a articular o novo formato daquela competição.

Uma articulação curiosa se lembrarmos da estratégia do Catar no futebol, emirado com o qual a Arábia Saudita (acompanhada por Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein) rompeu relações diplomáticas precisamente há um ano. Em 2008, os qataris lançaram o Qatar National Vision 2030, um plano estratégico para tentar mudar sua imagem no contexto internacional. E dentre as medidas adotadas, o Qatar apostou no desporto como instrumento de ‘soft power’ e ‘nation branding’ (Krzyzaniak 2016). Falando apenas no futebol, em 2010, o Catar conquistou o direito de sediar o Mundial 2022 e se tornou patrocinador do Barcelona, em 2011 adquiriu o Paris Saint-Germain (PSG), da França, e em agosto do ano passado, dois meses depois de ter sido isolado pelos países do Golfo Pérsico, o PSG contratou Neymar, naquela que foi a transferência mais cara da história.

Não nos esqueçamos, ainda, da China e do seu Plano de desenvolvimento do futebol a médio e longo prazo (2016-2050), que tem abalado as estruturas seculares do eurocentrismo do futebol e cujas empresas têm preenchido o vácuo deixado pelas multinacionais Ocidentais após os escândalos da FIFA, patrocinando a entidade máxima do futebol e suas principais competições.

Giulianotti afirma que “o futebol é uma das grandes instituições culturais, como a educação e os meios de comunicação de massa, que forma e consolidam identidades nacionais no mundo inteiro” (Giulianotti, 2010, p. 42) e como fenômeno cultural e espetáculo de massas que representa, o futebol é reflexo do contexto social, político e económico no qual se encontra inserido, ao mesmo tempo em que se reflete na própria sociedade. Não nos admira, portanto, que em um evento de abertura de Mundial esvaziado de lideranças Ocidentais, Mohammed bin Salman tenha sido uma das autoridades de maior relevância presentes. Afinal, Rússia e Arábia Saudita, que por décadas estiveram em campos opostos na geopolítica mundial, há cerca de dois anos se aproximaram, estabelecendo acordos sobre a produção de petróleo.

Aos 12 minutos do jogo inaugural do Mundial 2018, Yury Gazinsky abriu o marcador para os anfitriões russos. No principal camarote do Estádio Luzhnik e com o presidente da FIFA entre eles, Vladimir Putin e Mohammed bin Salman apertam as mãos. Uma imagem aparentemente despretensiosa. Um gesto, porém, icónico. Uma cena que simboliza não apenas a dimensão política do futebol, mas também a geopolítica do futebol em transformação.

 

Emanuel Leite Jr., investigador do Departamento de Ciências Sociais Políticas e do Território da UA

Carlos Rodrigues, professor do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA

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