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Carlos Borrego
"Acordo todos os dias a pensar hoje vou fazer o que gosto"
Carlos Borrego
Queria ser “engenheiro de aviões”, mas foi na área da engenharia do ambiente que fez carreira. Nunca pensou ser professor, mas foi nesta profissão que encontrou a sua vocação. Esteve na criação do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, fundou o IDAD-Instituto do Ambiente e Desenvolvimento, foi ministro do Ambiente e Recursos Naturais e completou este ano 46 anos de docência universitária. É um dos mais prestigiados especialistas da área do Ambiente em Portugal. Crente em Deus, apaixonado pela família. É o professor Carlos Borrego.

Viveu uma infância privilegiada na paradisíaca Malange, em Angola, nos anos 50. Cresceu em contacto direto com a natureza e com liberdade total de movimentos, entre os cafeeiros do seu avô e as comodidades da cidade onde viviam os seus pais. Lá fez a sua instrução primária e lá frequentou o ensino secundário. No final do Liceu seguiu o caminho natural de quem na época vivia nas colónias e queria prosseguir estudos. Com apenas 17 anos, sozinho, de bagagem na mão e com o objetivo de vir a ser engenheiro mecânico no horizonte, Carlos Borrego embarcou em 1966 num barco em Luanda rumo à capital para viver o grande sonho de, tal como o seu primo, estudar no Instituto Superior Técnico (IST), fazer uma formação no estrangeiro e regressar a Angola para trabalhar numa empresa do ramo da aeronáutica.

“Enquanto vivi em Angola, tive a oportunidade de contactar bastante com o ambiente fabril, quer na fábrica onde o meu pai era chefe dos armazéns – a Cotonang – quer na fábrica de descaroçamento de arroz de um primo. Este primo acabou por ter bastante influência no percurso que tinha escolhido fazer. Ele era engenheiro mecânico, tinha feito o curso no IST e uma formação em Inglaterra. Quando vim para Lisboa, vinha muito formatado para seguir um trajeto semelhante”.

A docência nunca fez parte dos seus planos, mas quis o destino que fosse no ensino que Carlos Borrego viesse a construir a sua carreira profissional. Tudo começou com um convite para ser monitor no IST. As questões monetárias e o desejo de constituir família falaram mais alto na hora da decisão, ainda que trabalhar no ramo empresarial fosse um dos seus principais objetivos. Carlos Borrego tomou-lhe o gosto e aquela escolha que tinha sido feita por imperativos pessoais rapidamente se transformou numa agradável opção. “Eu já namorava e pretendia casar assim que terminasse a licenciatura. Quando o professor Portela me convidou e me disse que iria ganhar 2 contos e 500, apesar da docência não ser o meu objetivo, não pude deixar de pensar melhor no assunto (risos). Depois numa conversa com aquele que viria a ser o meu sogro, apercebi-me que no final do curso passaria automaticamente a assistente e foi aí que realmente tomei consciência da oportunidade que me estavam a oferecer”.

Depois desta primeira experiência como monitor e dos dois estágios obrigatórios para conseguir o título profissional de Engenheiro Mecânico – um na TAP e outro na Aerospatial em Toulouse – Carlos Borrego ingressou na carreira docente como assistente, tinha na altura 24 anos. Já casado, mas ainda com a recruta por fazer, o professor foi, no entanto, obrigado a interromper a carreira. Em março de 1973 foi chamado a ir prestar o serviço militar e, com a guerra colonial, o regresso a Angola era a opção que lhe parecia fazer mais sentido. Já em Luanda, e depois de passar pela experiência de ser soldado, foi chamado a desempenhar funções de alferes no Agrupamento de Serviço de Material de Luanda. As responsabilidades que assumiu neste cargo foram decisivas para que o Ambiente viesse tomar um lugar especial na sua vida.

“A partir do verão de 1974, fiquei com a grande responsabilidade de coordenar a Unidade de Fundição, onde existiam obviamente problemas de engenharia mecânica de grande escala. Uma das tarefas que tínhamos era a pintura dos veículos. Isso era feito ao fundo da nave industrial e do meu gabinete, que se situava no primeiro piso, via nessa zona uma grande poeirada, o vapor das pinturas… A forma de resolver aquilo era fechar a zona e retirar esse vapor através de uma chaminé. Mas depois ficou-me a interrogação "sai pela chaminé e vai para onde?". A preocupação com o Ambiente Atmosférico voltou-me à cabeça numa outra situação. Durante a época em que estive no quartel, tive também oportunidade de colaborar como docente com a Direção dos Cursos de Engenharia da universidade de Luanda. O Hotel Tropical pediu-nos para resolver um problema no ar condicionado, que me fez perceber que o ar de exaustão, que tornava a entrar nas condutas devido à má localização das tomadas de ar novo, fazia mal às pessoas. E foi aqui, com mais esta interrogação, que começo a ter interesse pela área da Qualidade do Ar”.

Essas interrogações ficaram na consciência de Carlos Borrego e quando regressou a Portugal, em outubro de 1975, finalizado o serviço militar, já tinha decidido que seria nas áreas do Ambiente, Qualidade do Ar e Problemas na Atmosfera que sustentaria a sua carreira. O ambiente tenso próprio de uma fase pós-guerra e descolonização que ainda se vivia em Lisboa nessa altura levou-o a equacionar outras paragens. Foi em Aveiro, na universidade recém-criada, que lhe deram as melhores condições e onde sentiu que ia ser feliz. “A cidade era muitíssimo simpática; o que eu queria aprofundar estava a ser investigado no Departamento de Física; o Ambiente era uma das três áreas estratégicas da universidade; e deram-me todas as facilidades para eu fazer o meu doutoramento no estrangeiro, que foi o que eu sempre quis. Depois de ter feito um “Master of Science (with honours)” no von Karman Institute for Fluid Dynamics, na Bélgica, fui bolseiro da NATO e do von Karman Institute, e apresentei a minha tese de doutoramento na universidade Livre de Bruxelas, no domínio da modelização física e numérica da turbulência e dispersão de aerossóis em gases”.

Aqui fez carreira e hoje, professor catedrático da casa, não tem dúvidas que fez a melhor escolha. “Tive o privilégio de estar na génese do Departamento de Ambiente e Ordenamento. Fui defender ao Conselho Científico a criação da Engenharia do Ambiente, ainda não era eu doutor. Havia uma ideia muito clara de que a UA tinha de ser uma universidade mais virada para a investigação, sem nunca descurar a componente de ensino, a região e a ligação com as empresas, uma componente pela qual sempre senti grande interesse”.

Quarenta e três anos depois de ter entrado nesta universidade, prepara-se agora para se aposentar e dedicar os seus dias a outras causas, embora não esteja nos seus planos desligar-se completamente da vida académica. “Agora vou poder começar a dizer “não”, que é uma coisa que eu nunca disse (risos). Não pretendo desligar-me completamente dos projetos de investigação que estou a liderar e também não coloco de parte dar uma ou outra aula como convidado. Obviamente tenho algumas atividades privadas a que me vou dedicar: uma casa de família para cuidar, tenho muitas coisas para ler, uma biblioteca de quase 5 mil livros para catalogar e muitos recortes de imprensa para organizar e que contam a minha história de vida. E uma propriedade que herdámos, da parte da minha mulher, em Idanha-a-Nova, que tem gado ovino para explorar. Como católico praticante pretendo manter o meu papel interventivo neste campo nas questões da Ecologia e do Ambiente, seguindo a exortação do Papa Francisco na sua Carta Encíclica «Laudato Si» sobre o cuidado da casa comum”.

Quando faz o balanço do seu percurso, é perentório: não se arrepende de nada, embora reconheça que podia ter feito algumas coisas de forma diferente. Considera-se um privilegiado, tendo bem presente na sua memória as pessoas que passaram pela sua vida e os 1743 alunos que teve o prazer de ensinar. “Fui um privilegiado a vários níveis: Portugal deixou-me fazer uma variedade de coisas para além do doutoramento no estrangeiro e depois cá dentro permitiu que eu tivesse enquanto docente desta universidade uma atividade que envolveu pessoas espetaculares. Estou muito grato a todos com quem trabalhei”.

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Carlos Borrego carateriza-se por ser uma pessoa bem-disposta por natureza. O segredo está em fazer o que gosta e em manter uma vida saudável e ativa.

De bem com a vida 365 dias por ano

De bem com a vida praticamente 365 dias por ano, Carlos Borrego carateriza-se por ser uma pessoa bem-disposta por natureza. O segredo está em fazer o que gosta e em manter uma vida saudável e ativa. “Eu tenho uma caraterística que sempre me acompanhou na vida; levanto-me cedo e penso logo “hoje vou fazer o que gosto”. Vir para a UA de manhã não é qualquer sacrifício para mim. Há duas coisas que eu faço todos os dias: ler o mais variado tipo de livros entre hora a hora e meia e fazer ginástica, no mínimo 15 minutos, esteja onde estiver, mesmo num quarto de hotel”.

O desporto, aliás, sempre fez parte da vida do docente da UA, tendo chegado a ser apurado para os Jogos Luso-brasileiros, na classe especial de ginástica do liceu. Não participou apenas por causa de uma lesão. “Pratiquei muito tempo hóquei em campo e cheguei mesmo a jogar pelo Atlético de Malange quando era jovem. Também tive sempre uma predileção pela ginástica, tendo sido apurado para participar nos jogos luso-brasileiros. Fiquei bastante entusiasmado com a possibilidade de participar e tal era a ansiedade para ir ao Brasil que num dos treinos e, num ato impulsivo próprio de garotos, lesionei-me. Tive que colocar gesso num pé, estar um mês sem fazer nada e os nervos foram de tal ordem que apanhei uma hepatite nervosa. Mais um mês de cama para curar a hepatite e já não fui aos jogos”.

Embora reservado no primeiro contacto com as pessoas, é muito aberto à discussão e muito empenhado em encontrar o consenso. Focado em objetivos, demasiado racional e menos emotivo, Carlos Borrego, é, no entanto, “um amante extremo” e um apaixonado pela mulher, com quem está casado há quase 46 anos, um pai dedicado e claramente orgulhoso da sua filha, antiga aluna da UA de Eletrónica e Telecomunicações. “Somos uma família muito unida. Tivemos a felicidade de podermos estar sempre juntos durante as várias fases da minha vida: a fazer o doutoramento em Bruxelas, quando estive de sabáticas, nas viagens ao Japão, ao Canadá…”

Da docência para a política

Apesar de se considerar um independente, Carlos Borrego foi ministro do Ambiente e Recursos Naturais, a convite de Aníbal Cavaco Silva, nos XI e XII Governos de Portugal (1991 a 1993). Conceber a estrutura de um ministério na área adequado a Portugal foi a sua principal missão. A sua intervenção a este nível tem um balanço positivo, na opinião de Carlos Borrego, tendo tido como ponto alto a preparação da Segunda Conferência das Nações Unidas do Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro, em que Portugal, por estar na presidência da União Europeia na altura, teve uma intervenção de grande relevância. “Quando fui convidado para ministro, o meu primeiro impulso foi dizer “não”, mas quando percebi o que tinha de fazer pareceu-me que fazia sentido aceitar o convite, como mais um serviço ao País. Era uma área onde tinha alguma experiência. Nos mais de dois anos que assumi o cargo consegui concluir a tarefa que me foi pedida - a estruturação do ministério - mas entre as várias coisas que tive oportunidade de fazer, a que eu considero absolutamente extraordinária foi a preparação da Segunda Conferência das Nações Unidas do Ambiente e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro em 1992. Tive a oportunidade única de participar em todas as negociações internacionais, numa quantidade enorme de intervenções que cumularam com a conferência e com a assinatura de documentos tão importantes como a Convenção Quadro para as Alterações Climáticas”.

Episódios de uma vida real

“Houve uma greve aos exames de junho no ano em que eu terminei o curso e só pude terminá-lo em setembro. Como o casamento já estava todo programado (a minha família estava em Angola e implicava deslocação a Lisboa), acabei por casar antes de acabar o curso. Embora eu quisesse fazer o que tinha prometido ao meu pai, não me casar antes de acabar o curso, por causa desta greve acabei por fazer o inverso. Ainda pouco antes de falecer ele brincava com isso e me dizia que eu não cumpri a promessa (gargalhadas).”

“Vivi um episódio curioso quando fui ministro do Ambiente e Recursos Naturais. Tem a ver com a reunião realizada em Kuala Lumpur, de preparação da conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento que seria no Rio de Janeiro em junho de 1992. A reunião foi com o grupo de países G77, que era presidido pela Indonésia. Portugal tinha nessa altura relações diplomáticas cortadas com a Indonésia, por causa da situação de Timor. Mas eu ia estar na reunião como representante da União Europeia e não de Portugal. Mas Portugal não aceita que eu me sente com o ministro do Ambiente indonésio. Diplomaticamente acabou por se arranjar uma forma de contornar aquilo que podia ser constrangedor diplomaticamente. Num momento qualquer, os elevadores do hotel não chegavam ao 15º piso, porque estavam lá duas pessoas a conversar (gargalhadas). Hoje já se pode falar disso. A reunião foi cordialíssima e acordaram-se várias coisas que depois funcionaram.”

“Quem vinha do ultramar para Lisboa estudar a melhor alternativa era ficar em lares universitários, alguns criados com o apoio do Ministério do Ultramar para acolher pelo menos 50% dos alunos universitários. Eu não fui exceção à regra, e a experiência de viver no Colégio Universitário Pio XII foi extraordinariamente enriquecedora. Aí tive oportunidade de contactar com uma geração brilhante, com pessoas brilhantes, entre as quais o Marcelo Rebelo de Sousa, o António Guterres, o cardeal Manuel Clemente. Somos todos da mesma colheita. Éramos um lar de rapazes, mas tínhamos três lares de meninas ao lado (risos), o que significava uma grande partilha entre lares e muita colaboração nas festas (risos). Foi um privilégio estar num sítio como aquele e fazer amigos que ainda hoje perduram.”

Nota: este artigo foi publicado na edição número 29 da revista Linhas.

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