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Entrevistas
Professora UA: Elisabete Figueiredo, DCSPT
“Cultivem a humanidade, a generosidade, a solidariedade e a honestidade”
Elisabete Figueiredo é docente no Departamento de Ciências Sociais Políticas e do Território
Socióloga, Elisabete Figueiredo tem trabalhado nos domínios da Sociologia do Ambiente e, mais particularmente, da Sociologia Rural. Faz parte da Comissão Executiva da ESRS – European Society for Rural Sociology e é Co-Coordenadora da Secção Ambiente & Sociedade da APS – Associação Portuguesa de Sociologia. Considera que, antes mais, um professor se deve definir pela capacidade de aprender permanentemente. “Tenho aprendido coisas extraordinárias com os meus alunos, em áreas e dimensões que vão, muitas vezes, para além dos conteúdos académicos”, afirma. Como gosta muito de dar conselhos, deixa alguns aos seus alunos.

Elisabete Figueiredo é Socióloga (ISCTE-IUL) e Doutorada em Ciências Aplicadas ao Ambiente (Universidade de Aveiro). É Professora no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território (DCSPT) da Universidade de Aveiro (UA) e Investigadora da unidade de investigação GOVCOPP – Governança, Competitividade e Políticas Públicas (UA) e Investigadora Associada do CETRAD – Centro de Estudos Transdisciplinares para o Desenvolvimento, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Faz parte da Comissão Executiva da ESRS – European Society for Rural Sociology e é Co-Coordenadora da Secção Ambiente & Sociedade da APS – Associação Portuguesa de Sociologia. Foi, até junho de 2017, a Presidente da Direção da SPER – Sociedade Portuguesa de Estudos Rurais.

Como define um bom professor?

Considero que um bom professor se define, antes de mais, pela capacidade de aprender permanentemente. A aprendizagem constante e a procura do conhecimento são aquilo que sustenta a atividade de ensinar. Um bom professor deve ser também alguém que tem a capacidade de entusiasmar os outros e de promover neles a curiosidade e a necessidade de aprender. Tem igualmente, como é evidente, de ser alguém que domina o conhecimento no âmbito das áreas em que leciona (e isso significa, uma vez mais, aprendizagem e atualização permanentes). Creio que um bom professor é ainda aquele que é capaz de, para lá das competências técnicas e do conhecimento académico fomentar nos estudantes uma postura crítica, promover a honestidade intelectual e, também, despertar o interesse por dimensões da vida social e cultural que ultrapassam os conteúdos académicos. Finalmente, um bom professor é também aquele que tem disponibilidade para os estudantes, que está atento às suas características e às suas necessidades. Este último aspeto revela-se, por vezes, difícil de concretizar, já que lidamos com turmas excessivamente grandes e temos muitas outras tarefas que tendem a condicionar o nosso tempo, a nossa disponibilidade e a nossa dedicação. Por outro lado, um bom professor será sempre aquele que nunca se esquece que a sua principal função, na Universidade, é o ensino. Nos tempos em que vivemos essa função tende, algumas vezes, a ser mais desvalorizada face à função de investigação.

O que mais o fascina no ensino?

A possibilidade de estar sempre a aprender e em diversos contextos. A possibilidade de nos relacionarmos, todos os anos, com novas pessoas, com experiências e gostos diversos e que, por isso mesmo, nos ensinam sempre alguma coisa de diferente. O facto de lidar todos os dias com pessoas jovens é também um aspeto fascinante desta profissão. Um aspeto que, acho eu, nos faz envelhecer mais devagar. Tenho aprendido coisas extraordinárias com os meus alunos, em áreas e dimensões que vão, muitas vezes, para além dos conteúdos académicos. A juventude dos meus alunos permite-me estar atualizada em relação a uma série de coisas que, se não fossem eles, provavelmente, me passariam ao lado. Tem sido muito gratificante – e de certo modo, também fascinante – acompanhar o percurso dos alunos, depois da conclusão do curso, e observar o seu crescimento profissional e pessoal, sabendo que dei, em conjunto com os outros docentes do departamento e da universidade, algum contributo para a sua realização. 

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos a que está ligada?

Estou sobretudo ligada aos cursos existentes no DCSPT (Licenciatura em Administração Pública, Mestrado em Planeamento Regional e Urbano, Mestrado em Ciência Política,  Mestrado em Administração e Gestão Pública, Mestrado em Estudos Chineses e, menos diretamente, no Doutoramento em Políticas Púbicas), embora colabore com muito gosto em cursos de outros departamentos da UA e de outras instituições de ensino superior. Penso que a formação dada aos estudantes de todos os níveis de ensino, no DCSPT caracteriza-se pela multidisciplinaridade e pela solidez em termos da aquisição de competências académicas e profissionais. Penso que, pela diversidade de formações, competências e experiências do corpo docente do DCSPT, é possível formar profissionais preparados e atentos aos problemas e desafios colocados, a várias escalas, pela realidade social e económica, a sua diversidade e transformação. No DCSPT existe igualmente um grande investimento em atividades paralelas ao ensino e à formação, frequentemente desenvolvidas em estreita colaboração com o Núcleo de Estudantes de Administração Pública (NEAP), que fomentam o alargar de perspetivas e abordagens metodológicas aos problemas e questões tratados em contexto de sala de aula. Visitas de Estudo, Palestras e Seminários com convidados externos (com diversos backgrounds e experiências), Jornadas, Conferências… são atividades frequentes no DCSPT que contam com um grande envolvimento e participação dos estudantes. Por outro lado, a formação dos estudantes dos vários cursos oferecidos no DCSPT passa também pela promoção de uma postura crítica e participativa que, creio, estimula o desenvolvimento não apenas de competências profissionais e académicas, como de uma cidadania mais ativa.

É possível traçar um perfil do aluno dos cursos onde leciona? Qual, ou quais, serão esses perfis?

Não me parece que seja possível traçar um perfil específico do aluno nos cursos em que leciono, mesmo porque leciono em vários cursos. Os alunos, sobretudo ao nível da formação de 2º e 3º ciclos têm perfis muito distintos e interesses também bastante diversificados, o que, naturalmente, é muito positivo e enriquece os processos de ensino-aprendizagem. 

Se quisesse dar conselho aos seus alunos, que conselho daria?

Acho que sou especialista em dar conselhos e sugestões, sem que os alunos os peçam! No entanto, creio que lhes daria o conselho mais geral de que cultivem a humanidade, a generosidade, a solidariedade e a honestidade em todas as dimensões das suas vidas. Que procurem ser pessoas otimistas e felizes. Que sejam sempre curiosos e sonhadores. E, claro que estudem e trabalhem com afinco, no sentido de se realizarem como profissionais e como pessoas. Também gostava de os aconselhar – eu avisei que dou muitos conselhos! – a ler mais, a ver mais cinema, a viajar mais e a participar mais na vida coletiva.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Todas as turmas (e já foram muitas) a que lecionei me deixaram marcas, umas mais positivas e outras menos positivas. No entanto, se tivesse de destacar uma turma apenas, destacaria certamente a minha primeira turma de alunos do 5º ano da Licenciatura (que já não existe) em Planeamento Regional e Urbano, em 1990. Eu tinha acabado a minha própria Licenciatura em Sociologia, no ISCTE, há 2 ou 3 meses, tinha 23 anos e nunca tinha dado uma aula na vida. Os alunos tinham a minha idade ou eram mesmo mais velhos e estabeleceu-se uma relação que creio que posso qualificar como de grande simpatia mútua, com a criação de amizades e conhecimentos que perduram até hoje. Nunca esquecerei a paciência e grande generosidade desses meus primeiros alunos diante da minha juventude, nervosismo e inexperiência.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Não quero particularizar situações ou pessoas, mas claro que, em 28 anos de ensino na UA, existiram bastantes episódios curiosos e dignos de registo. No entanto, o mais importante, ou aquilo que mais valorizo, são as relações de amizade que ao longo dos anos fui criando com alguns daqueles e daquelas que foram meus alunos e que extravasaram as fronteiras materiais e simbólicas da sala de aula e da relação professor-aluno. Valorizo também muito aquilo que me é permitido conhecer de todos e de cada um dos meus alunos, na sua enorme diversidade. E aquilo que aprendi e aprendo todos os dias com eles, mesmo que possa decorrer de experiências ou de relações mais difíceis e complexas. As pessoas são verdadeiramente fascinantes quando temos disponibilidade para elas.

descrição para leitores de ecrã
Elisabete Figueiredo leciona disciplinas de sociologia ambiental e rural, metodologias de ciências sociais, entre outras.

Traço principal do seu carácter

É um traço de que não me orgulho particularmente, embora tenha desistido de o contrariar e o reconheça como fazendo parte daquilo que sou: a impulsividade. Tenho, como se costuma dizer, ‘o coração ao pé da boca’, o que já me tem trazido alguns dissabores. Além desta característica, acho que sou organizada e persistente. Sou também bastante noctívaga e não funciono muito bem de manhã. Procuro tirar felicidade e prazer de todas as dimensões da minha vida, incluindo, naturalmente, da minha profissão.

Ocupação preferida nos tempos livres

Por estranho que possa parecer, trabalhar. Mas como não posso (nem devo) estar sempre a trabalhar, ocupo o meu tempo de não trabalho a ler, a ouvir música (especialmente jazz), a ver cinema (em salas de cinema sempre!), a estar com aqueles de quem gosto e a viajar sempre que possível.

O que não dispensa no dia-a-dia

Ouvir rádio (sempre a TSF) quando acordo. Gosto de saber o que se passa no país e no mundo.

O desejo que ainda está por realizar

Não tenho grandes desejos, ou pelo menos não tenho nenhum que se me afigure impossível de realizar. No entanto, a nível profissional gostaria bastante de ter oportunidade de progredir na carreira e, a nível pessoal, de ter mais tempo para tudo, especialmente para viajar sem pressas.

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