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Entrevistas
Antigo Aluno UA: Susana Pimpão, Engenharia do Ambiente
“A UA superou muito as minhas expectativas”
Susana Pimpão é antiga aluna de Engenharia do Ambiente e inspetora do trabalho
Susana Pimpão concluiu a Licenciatura em Engenharia do Ambiente na UA, em 1999. Após alguns anos a trabalhar com questões de domínio público marítimo da Ria de Aveiro, na Administração do Porto de Aveiro (APA) e na Direção Regional de Ambiente e Ordenamento do Território do Centro (DRAOT-Centro), começou a trabalhar como inspetora do trabalho. Entretanto, tornou-se membro do Voz Nua, onde se sente “como em casa”. Enquanto aluna da UA, afirma que muita coisa que cá aconteceu a marcou para vida inteira: desde o Orfeão, às lutas estudantis de 1992/93, ou à colaboração com o GrETUA…

Após a licenciatura em Engenharia do Ambiente, na UA, coordenou os trabalhos de transferência de jurisdição do domínio público marítimo da Ria de Aveiro, da Administração do Porto de Aveiro (APA) para administração regional na área do ambiente e ordenamento, tendo o “enorme privilégio de conhecer muito melhor esta Ria tão imensa, maravilhosa e cheia de surpresas”. Em abril de 2009, terminou o seu percurso sobre a Ria de Aveiro e, pouco depois, integrou a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), como inspetora. Entretanto, começou a cantar no Voz Nua. Susana diz sentir-se “como em casa” e considera uma “experiência incrível, de desenvolvimento pessoal e técnico (vocal e musical), que possibilitou a participação em projetos e parcerias fantásticos, como estreias de peças de compositores portugueses, a oportunidade de cantar com a Filarmonia das Beiras e outros músicos e instrumentistas da região, de viajar e participar em concursos internacionais, tendo chegado à final do Festival Internacional da Beira Interior, no Fundão”.

Quais os motivos que a levaram a estudar na Universidade de Aveiro?

Bom, os motivos não foram os mais nobres. Sou de Coimbra e apenas sabia que não queria estudar naquela universidade tão tradicional. Na minha busca de uma alternativa, o curso de Engenharia do Ambiente pareceu-me interessante e a Universidade de Aveiro, tão jovem e inovadora, surgiu como a oposição óbvia à centenária Universidade de Coimbra. 

O curso correspondeu às suas expectativas? E a Universidade de Aveiro?

A ideia que que tinha da Engenharia do Ambiente era talvez um pouco romântica. Pensei que iria ter mais contacto com a natureza e focar-me na defesa do ambiente de um modo mais harmonioso. Vim a perceber que a engenharia era dominante e o curso muito mais técnico e focado para técnicas de tratamento. Aprendi imenso, mas não penso ter espírito de engenheira. Já a Universidade de Aveiro superou em muito as expectativas. Adorei o ambiente relaxado e o convívio próximo que senti no campus desde o primeiro dia. Naquela altura seríamos menos de 2000 alunos e parecia que todos nos conhecíamos. Eu tinha apenas 17 anos quando vim estudar para Aveiro, o que implicou sair de casa dos meus pais, e este ambiente próximo facilitou bastante essa transição.

O que mais a marcou na Universidade de Aveiro? (algum professor/colega/ episódio?)

Marcou-me muita coisa na Universidade de Aveiro, nem tudo a nível académico, é difícil escolher apenas uma. Destaco, sem dúvida, a luta contra as propinas, em 1992/93, com as empolgadas e muito participadas RGAs, as manifestações na Assembleia da República e, principalmente, a semana em que fechámos a Universidade, de forma organizada e responsável penso eu, com piquetes de informação aos colegas, professores e funcionários, distribuição de comida, acampamentos à porta de todos os departamentos e muita, muita camaradagem. Mas também a criação do Orfeão Universitário de Aveiro, em conjunto com uma colega e amiga que também queria ter aulas de canto, mas sem dinheiro para isso, ou a adaptação/tradução de uma peça de teatro de Sarah Kane para o GrETUA. Foram experiências muito marcantes.

Tinha intenção, antes, de desenvolver a atividade principal atual? A partir de que momento começou a definir as ideias neste capítulo?

Julgo que nunca me tinha passado pela cabeça trabalhar na área das relações laborais e segurança no trabalho e muito menos em ser inspetora. Tudo surgiu um pouco por acaso. Como referi acima, estava numa situação precária e concorria a quase todos os concursos a que me pudesse candidatar, a maioria na área do ambiente, mas às vezes em áreas próximas, como julgo serem as condições de trabalho. Fiz o curso de Técnica Superior de Segurança e Saúde no Trabalho, para alargar um pouco as possibilidades de emprego, mas sem intenção clara de enveredar por este caminho.

Foi fácil começar a carreira profissional como inspetora do trabalho? Refira os principais fatores que contribuíram para a facilidade/dificuldade.

Não diria que foi fácil, mas também não foi muito complicado. O curso de Eng.ª do Ambiente é bastante abrangente, focando diversas disciplinas, o que dá algum traquejo no estudo e compreensão de novas e diferentes matérias e a experiência que tive na administração pública ajudou bastante, principalmente a lidar com a estrutura e funcionamento algo particular da administração pública, com a legislação e, particularmente, a lidar com pessoas. Ser inspetora implica lidar com muitas pessoas, de diferentes origens, diferentes níveis literários, diferentes hábitos e até diferentes linguagens, e para isso foram essenciais as experiências multiculturais que tive na Universidade de Aveiro, especialmente nas atividades extracurriculares, nomeadamente no Orfeão Universitário de Aveiro e Voz Nua, e no semestre de Erasmus na Universidade de Nottingham. E o canto coral é uma ótima escola para o trabalho em equipa, por um objetivo comum.

Como surgiu a oportunidade de entrar no Voz Nua? Já havia experiência de canto vocal antes?

Bom, eu comecei a cantar bem nova, no Coro dos Pequenos Cantores e no Coro que havia no Ciclo Preparatório, em Coimbra. Depois parei com o canto e tentei aprender violino, mas foi um grande fracasso. Já na Universidade, comecei a procurar aulas de canto, mas eram demasiado caras para o orçamento de estudante. Percebi que uma colega e amiga andava com a mesma vontade de cantar, e como não tínhamos muito espírito para as Tunas, decidimos tentar criar um Orfeão Universitário. Com o enorme apoio do Artur Pinho Maria, que concordou em ser maestro desta aventura, em 1995 iniciámos a atividade do Orfeão Universitário de Aveiro, que estava parado há anos. Este renovado Orfeão teve bastante sucesso e ainda terá existido durante mais de 15 anos. Em 2003, quando trabalhava na APA, juntei-me ao coro do Porto de Aveiro, cujo maestro era o Artur Pinho Maria e me convenceu a voltar ao Orfeão. Ainda lá andei uns 2 anos, mas o coro já não tinha muito a ver comigo. Anos mais tarde, sabendo que eu andava à procura de um coro onde me sentisse bem, uma amiga disse-me que um amigo comum estava envolvido num projeto de uma maestrina irlandesa, que cá estaria a fazer mestrado, e que lhe parecia muito interessante. Não descansei enquanto não consegui o contacto e no início de 2013 fui ao meu primeiro ensaio. Adorei, e nunca mais o deixei! 

Alguma atuação do Voz Nua terá ficado mais na memória e que queira descrever sucintamente?

A participação no nosso primeiro concurso internacional, na Irlanda, foi sem dúvida dos mais marcantes, mas a atuação mais marcante dessa viagem não foi propriamente oficial. A nossa ida à Irlanda coincidiu com o referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e na nossa última noite, num pub onde se celebrava a vitória do "sim", demos por nós a cantar para/com aquela gente tão orgulhosa e feliz. Foi um momento bastante emocionante.

Quem são os membros do Voz Nua? Têm todos experiência/formação em canto vocal?

É um grupo bastante variado, em idades, nacionalidades ou formação (académica e musical). Somos um pouco como uma família alargada, que recebe regularmente novos membros e, infelizmente, se vai despedindo de outros, que seguem para outras paragens. Diria que todos têm experiência em canto coral, mas nem todos temos formação.

Como descreve o seu dia-a-dia profissional como inspetora do trabalho / membro do Voz Nua?

O meu dia-a-dia como inspetora é imensamente variado. Para além da atividade inspetiva pura e dura, em que visito locais de trabalho, observo atividades e contacto profissionais de todo o tipo, desde hotelaria e restauração ou serviços, a construção civil ou industrias de pequena ou grande dimensão, faço atendimento ao público, em que tento esclarecer quem tem dúvidas sobre as mais variadas matérias relacionadas com as relações laborais e condições de trabalho, compareço em tribunal para defender os autos de notícia que levanto, e desenvolvo uma panóplia de trabalho chamado "de secretária" - análise de documentação, relatórios, autos, notificações, registos de todo o tipo.

Como membro do Voz Nua, ensaio todas as segundas-feiras no DeCA, entre as 18h30 e as 20h30, mais ou menos. Depois há que estudar as peças em casa, especialmente as mais complexas, ter alguns ensaios de naipe, no meu caso, ensaio de contraltos, e, claro, as atuações. O coro proporcionou também a oportunidade de ter aulas com uma terapeuta da fala e posteriormente com um professor de canto, o que tem sido incrível!

O que mais a fascina nessas suas atuais atividades?

Ser inspetora do trabalho permite-me contactar com realidades totalmente desconhecidas da maioria das pessoas e totalmente distintas da minha, e isso fascina-me. Nem sempre é uma experiência positiva, no sentido em que essas realidades são muitas vezes um pouco negras, mas sentir que posso contribuir, por pouco que seja, para melhorar as condições de trabalho de algumas (mesmo que poucas) pessoas, dá-me uma enorme satisfação, apesar de ser por vezes emocionalmente muito desgastante. 

E para compensar esse desgaste emocional, canto! Cantar em coro é uma sensação difícil de descrever, mas acredito que todos deviam experimentar. A camaradagem, o trabalho individual e em equipa, a descoberta de capacidades que nem acreditávamos ter, o ver(ouvir) aparecer as primeiras melodias de uma peça nova e, finalmente, quando tudo está montado, a energia incrível do grupo em sintonia... é emocionante. E terapêutico!

Tem alguma outra atividade paralela que queira referir?

Viajar e fotografar são as minhas outras paixões. 

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício das suas atuais atividades? O percurso na UA teve algum efeito no seu caminho profissional/atividades paralelas que exerce? De que maneira?

Mais até do que a formação académica, sem dúvida de excelência, a formação e desenvolvimento pessoal que a minha vivência da/na UA me proporcionou foi fundamental. 

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