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Entrevistas
Entrevista a Carlos Borrego nos 40 anos do Departamento de Ambiente e Ordenamento
“O futuro do DAO continua ligado ao desenvolvimento sustentável e à capacidade de contribuir para relançar a economia”
Carlos Borrego fala dos 40 anos do DAO
O Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro (UA) assinala, este ano, 40 anos numa cerimónia a 8 de maio, para a qual foram convidados o ministro do Ambiente e o Reitor da UA, entre outras personalidades. Esta cerimónia comemorativa integrou a abertura da Conferência Internacional de Ambiente em Língua Portuguesa (CIALP). A história das instituições faz-se com os protagonistas das mesmas. Assim, ninguém melhor que o diretor do DAO, Carlos Borrego, para evocar o historial da unidade orgânica da UA, desde a sua fundação, no ano de 1978, até ao presente e perspetivar o futuro próximo.

Quais os momentos mais relevantes ocorridos ao longo dos 40 anos de existência do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) da Universidade de Aveiro?

Um pouco de história. Cheguei à UA no dia 2 de novembro de 1975 para lecionar os cursos de Ciências do Ambiente e da Natureza. Integrei o Departamento de Física (um dos seis departamentos criados no início da UA) e começou o sonho de autonomizar o ensino do ambiente, então distribuído pelos Departamentos de Biologia, de Física, de Geociências e de Química. Propusemos a criação de um Departamento de Ambiente! E conseguimo-lo em 1978. Já lá vão 40 anos... A escolha foi clara e assumida de fazer diferente em Portugal: ensinar as ciências e tecnologias do ambiente que estavam a despontar.

A Engenharia do Ambiente, enquanto curso autónomo da Universidade Portuguesa, e como resposta aos problemas que emergiam, surgiu na Universidade de Aveiro em 1976. A aposta feita na altura, “contra ventos e marés”, de criar um novo perfil de formação superior por oposição à tradicional especialização pós-graduada, que deu origem à Engenharia do Ambiente, revelou-se correta e mostrou-se claramente ganhadora. Tal como a posterior criação do Doutoramento em Ciências Aplicadas ao Ambiente, hoje Ciências e Engenharia do Ambiente.

Nos anos ’90 passou-se da fase de afirmação junto dos parceiros sociais, para a resposta aos pedidos de um número cada vez maior de técnicos qualificados com soluções novas para novos problemas: tratamento de águas e águas residuais, de resíduos, da qualidade do ar e efluentes gasosos. Preparámo-nos com afinco para incluir o desafio do desenvolvimento sustentável na estratégia do DAO. A investigação em ambiente teve um significativo crescimento, quer porque entrámos em inúmeros consórcios com parceiros europeus e concorremos com sucesso a fundos europeus dos programas de I&D, quer porque a apropriação da vertente social levou o DAO a participar na construção de soluções ambientais com as empresas, autarquias e departamentos do governo, através da valorização económica do conhecimento (a que vulgarmente chamamos prestação de serviços). Com a assinatura do Protocolo de Quioto em 1997, fortalecemos inovação na resposta ao desafio das alterações climáticas, que passou a integrar os curricula e a investigação.

A década de 2000 veio reforçar as orientações gerais da “Agenda 21” (lançada pela Nações Unidas 10 anos antes). Foi uma década cheia de mudanças, preparando antecipadamente as respostas ao que prevíamos que aí viria. O progresso das políticas ambientais, com a consolidação de novos instrumentos, como a avaliação de impacto ambiental, o licenciamento ambiental, os sistemas de gestão ambiental, os sistemas de acreditação, o comércio europeu de licenças de emissão e a lei da responsabilidade por danos ambientais, levaram a que os conteúdos dos programas fossem atualizados e a oferta formativa tivesse um carácter mais transversal, tentando captar o interesse das outras áreas da engenharia da UA. Foi também a época do aumento do número de cursos que o DAO passou a coordenar e participar, além dos cursos acima referidos: Mestrados em Gestão e Políticas Ambientais (associado à Rede de Estudos Ambientais de Países de Língua Portuguesa), em Sistemas Energéticos Sustentáveis, em Estudos Ambientais (parceria de mais 3 universidades europeias e financiado pelo Erasmus); Programas Doutorais em Sistemas Energéticos e Alterações Climáticas, em Território, Risco e Políticas Públicas.

Em meados da década de 2000, o curso de engenharia do ambiente foi reestruturado dando cumprimento ao Processo de Bolonha e modernizando não apenas os métodos de ensino-aprendizagem, mas também os conteúdos curriculares. A investigação estava consolidada e integrada no Laboratório Associado “Centro do Ambiente e do Mar – CESAM”, e a relação com a sociedade evoluiu com um cada vez maior número de iniciativas.

Na década de 2010, apesar de toda a legislação e instrumentos à disposição dos portugueses, reconhecemos devíamos manter, e incrementar, o investimento na educação para o ambiente e a cidadania e, em particular, na transição para a economia circular como suporte do desenvolvimento sustentável. O DAO tem estado atento a mais este desafio, tendo adequado e preparado os cursos para dar respostas a estas e outras pressões atuais. A investigação consolidou-se nas novas áreas. Organizámo-nos para responder aos desafios atuais, em que a problemática ambiental passou das questões predominantemente ligadas à produção para aspetos mais próximos do consumo. Existe, agora, uma maior sensibilização dos cidadãos relativamente aos efeitos ambientais, o que condiciona as nossas escolhas diárias relativamente ao que comprar, onde viver, trabalhar ou viajar.

Que projetos futuros para o futuro estão previstos no DAO?

O futuro do DAO continua ligado ao desenvolvimento sustentável e à capacidade de contribuir para relançar a economia, não à custa de mais recursos e mais desperdício, mas numa lógica de economia circular suportando de modo sustentável as soluções. Para tal, precisamos de técnicos qualificados, experientes e inovadores, preparados para repensar o ambiente de modo sistémico, face aos desafios do século XXI.

Por isso, o futuro do DAO é, simultaneamente, sólido, desafiador e exaltante. Sólido, porque, nos últimos 40 anos, se avançou espetacularmente na área da formação dos técnicos e na investigação no domínio ambiental, sendo um departamento de referência ao nível nacional e internacional. Desafiador, porque se está na encruzilhada da consolidação estrutural resultante da aplicação do Processo de Bolonha ao Ensino Superior na Europa, criando um enorme espaço de empregabilidade, que obrigou a reorganizar o sistema formativo em torno de novos valores: as competências e não só os conteúdos, a aprendizagem e não simplesmente o ensino, a participação e o envolvimento de todos os intervenientes. Exaltante, porque o ensino da engenharia do ambiente é cada vez mais necessário para resolver e prevenir as disfunções criadas pelo “progresso” e para reforçar a coresponsabilização das outras especialidades de engenharia a enformarem os conhecimentos ambientais, criando novas oportunidades de emprego.

Identificámos três prioridades estratégicas para os próximos 10 anos: alterações climáticas no pós-COP21 (Acordo de Paris em 2015), reforçando o cobenefício da poluição atmosférica; economia circular, mantendo os recursos em circulação na economia; cidades inovadoras e resilientes, com a inclusão das zonas rurais. E uma prioridade transversal: facilitar a transformação sistémica.

A natureza transversal do ambiente exige uma abordagem integrada com a inclusão dos cidadãos na procura das soluções e não apenas como usufrutuários. O paradigma do futuro deixou de ser “o cidadão com acesso total a todos os dados”, passando “ao cidadão fornecedor de dados para todas as decisões”.

Na área do Ambiente, o DAO é uma referência nacional no ensino. Qual o contributo do DAO para a formação de melhores investigadores, técnicos e decisores na área do Ambiente?

O DAO tem, desde a sua criação há 40 anos, vindo a antecipar estratégias para os desafios ambientais e, na vertente do ensino, reformulou o Mestrado Integrado em Engenharia do Ambiente e o Programa Doutoral em Ciências e Engenharia do Ambiente para dar resposta sistémica ao novo paradigma ambiental. Integrou disciplinas com conteúdos como economia circular, ecologia industrial, metabolismo urbano, ecoeficiência, ecoinovação, soluções baseadas na natureza, cidades resilientes. O ensino leva em consideração o ciclo de vida completo do produto, indo desde as emissões às energias renováveis, da reciclagem ao desperdício de alimentos, dos mercados de matérias-primas secundárias à criação de novos empregos e ao aumento da competitividade.

Na investigação continuamos conscientes que, para se ter uma abordagem sistémica, é determinante manter um profundo conhecimento das quatro conexões ambientais: água, ar, solo e biota. Por isso, temos uma abordagem matricial em que os grupos de investigação temáticos contribuem para as áreas sistémicas, ganhando deste modo um conhecimento profundo em cada tema e beneficiando da integração dos conhecimentos setoriais. Também assim fazemos chegar o conhecimento de ponta ao ensino, formando diplomados preparados para dar resposta aos desafios societais.

Dentro da própria Universidade de Aveiro, o DAO está ligado a centros de investigação e ao IDAD (Instituto de Ambiente e Desenvolvimento). Quais os objetivos desses projetos entre departamentos?

O DAO é um dos cinco departamentos que integram o Laboratório Associado Centro de Estudos do Ambiente e do Mar – CESAM, onde desenvolve investigação líder na área do ambiente, com especial ênfase nas áreas costeiras e marinhas, contribuindo significativamente para a estratégia de desenvolvimento sustentável.

Assim, a investigação no DAO suporta a utilização mais eficiente dos recursos ambientais terrestres, costeiros e marinhos, e concorre para uma economia mais competitiva, resiliente e sustentável, concebida para apoiar a criação de empregos e assegurar a coesão territorial e social. A investigação no DAO também contribuirá para a compreensão, mitigação e adaptação das alterações climáticas e riscos naturais associados.

Por outro lado, a ligação ao IDAD-Instituto do Ambiente e Desenvolvimento, unidade de interface da UA na área do ambiente, que é uma associação científica e técnica, sem fins lucrativos, de utilidade pública, e tem como objetivos a investigação, o desenvolvimento e a prestação de serviços nas áreas do ambiente e ordenamento, e a colaboração neste âmbito, com organismos, instituições e empresas, permite aplicar o conhecimento científico de modo a proporcionar às empresas e à administração pública as melhores soluções de inovação ambiental.

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