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Investigação
Estudo da UA, Melbourne, Vigo e Ghent foi publicado na Scientific Reports
Novo método para cálculo da dispersão de larvas marinhas
Larva de mexilhão
Foi descrito um novo método, por investigadores das Universidades de Aveiro (UA), Melbourne, Vigo e Ghent que permite chegar ao cálculo da dispersão de larvas de várias espécies marinhas, fundamental para perceber a ecologia das espécies e para, entre outras aplicações, estabelecer critérios de delimitação de áreas marinhas protegidas.

O novo método, proposto por uma equipa que envolve investigadores em Ecologia e em Oceanografia Física, dos departamentos de Biologia e Física da UA, e publicado no prestigiado periódico Scientific Reports, minimiza o grau de incerteza no cálculo da dispersão de larvas, como as de mexilhão, estudadas, neste caso, como espécie modelo. Este método pode ser diretamente aplicado a espécies marinhas que passam por uma fase larvar durante a qual são produzidas estruturas anatómicas calcificadas, como em muitos peixes ósseos, bivalves e cefalópodes (lulas e polvos, por exemplo), e poderá futuramente ser generalizado a outras espécies com uma fase larvar no seu ciclo de vida tais como crustáceos (ex: caranguejos e lagostas), gastrópodes (caracóis) e equinodermes (ex: estrelas e ouriços do mar).

Para compensar a elevada mortalidade das larvas e juvenis, muitas espécies marinhas reproduzem-se em grande quantidade. No caso da fêmea do bacalhau, por exemplo, nos quinze anos que é a duração média de um indivíduo, são produzidos cerca de 125 de milhões de ovos, sendo que 122 milhões são eliminados, morrem ou são comidos, nos primeiros três meses de vida, ainda durante a fase de larva. As larvas que restam dispersam-se na massa de água transportadas pelas correntes, as quais dependem de vários fatores tais como vento, marés e trocas de calor com a atmosfera. Há vários métodos para perceber para onde são transportados os indivíduos durante o seu desenvolvimento larvar.

Um desses métodos designa-se impressão digital elementar e parte da análise química dos constituintes da concha dos bivalves. A concha é formada maioritariamente por carbonato de cálcio mas são também incorporados na concha outros oligoelementos que variam de local para local, dado que as características químicas da água do mar variam de zona para zona. Ou seja, para um conjunto de mexilhões adultos de um dado local é possível, a partir da constituição química da parte da concha formada na fase larvar, é possível determinar, com um certo grau de probabilidade, em que região da costa nasceram.

Proteger o que precisa de ser protegido

No artigo “Independent estimates of marine population connectivity are more concordant when accounting for uncertainties in larval origins”, R. Nolasco, I. Gomes, L. Peteiro, R. Albuquerque, T. Luna, J. Dubert, S. E. Swearer & H. Queiroga, partem do exemplo das larvas de mexilhão e usam equações matemáticas que tentam interpretar diversos fatores que contribuem para a dispersão. Entre eles, aspetos de oceanografia física, como correntes, ventos, afloramentos de água mais fria do fundo para a superfície, mas também aspetos da ecologia da espécie. Assim, chegam a matrizes de conectividade, que descrevem a correspondência entre a origem das larvas e os locais para onde se deslocam e onde se fixam.

Os investigadores descobriram, explica Henrique Queiroga, professor do Departamento de Biologia da UA e investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM), que, ao excluir objetivamente os casos em que a impressão digital elementar tem maior incerteza em relação às caraterísticas que distinguem uma dada população de origem, a aplicação das equações permite chegar a uma correspondência excelente (0.96 em 1) entre origem e destino das larvas, com uma resolução espacial da ordem dos 20-40 km.

As conclusões têm grande utilidade, afirma ainda o investigador, para a compreensão da ecologia e da evolução das espécies marinhas, nomeadamente para perceber qual os padrões de dispersão espacial das espécies, ou seja, como os indivíduos nascidos num certo local são transportados para os locais de assentamento e metamorfose para a fase juvenil.

Uma das possíveis aplicações tem a ver com o estatuto de proteção a aplicar a áreas marinhas. Percebendo os padrões e as distâncias de dispersão, salienta, é possível desenhar redes de áreas marinhas protegidas que assegurem uma boa probabilidade de sobrevivência das diferentes espécies ao longo do seu ciclo de vida, de modo a maximizar os benefícios socioeconómicos produzidos pelos ecossistemas marinhos.

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