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Entrevistas
Rui Silva, diretor do Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica
Tal como os nanomateriais, um departamento que expõe as suas propriedades ao exterior
Rui Silva dirige do DEMAC
Destacando como prioridades a renovação e requalificação do corpo docente do Departamento, maiores abertura e aproximação às empresas e um reforço da interação com outras áreas da Universidade de Aveiro (UA), Rui Silva concluiu os primeiros meses como novo diretor do DEMAC. Na realidade, é o regresso do professor, consumidor de cultura, apreciador de caminhadas e de um bom prato, a um cargo que já ocupou noutro período da vida desta unidade orgânica da UA, o Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica.

Quer destacar e explicar, sucintamente, duas prioridades do seu programa de candidatura?

À semelhança dos nanomateriais que, pelas suas reduzidíssimas dimensões, expõem a maior parte da sua matéria ao exterior, interatuando fortemente com o espaço envolvente, a grande prioridade do meu programa está no reforço da interface com a sociedade. Aqui destaco ações como: comunicação digital do DEMaC (página na web, redes sociais), divulgação da oferta formativa às escolas, divulgação da Ciência & Engenharia de Materiais em eventos da cidade e espaços públicos como a Fábrica, contactos com empresas e associações empresariais com vista ao estabelecimento de protocolos de estágios, de prestações de serviço e de projetos em cooperação.

Interação, mas agora no próprio espaço da UA, é outra das prioridades. A experiência da constituição do laboratório associado CICECO mostrou-nos as vantagens do trabalho conjunto com investigadores de outros departamentos (Química, Física, Biologia). Como desde logo apontei na minha candidatura, devemos aprofundar e alargar o conceito de interdisciplinaridade às vertentes de ensino e divulgação. Por exemplo, será brevemente assinado um protocolo com a ESAN com vista à intercolaboração de docentes e utilização de laboratórios das duas unidades orgânicas para realização de aulas práticas, reforçando desta forma muito do que tem vindo a acontecer nos últimos anos.

Das prioridades que enumerou no seu Programa de Ação destacam-se, entre outras medidas, um reforço dos meios humanos de ensino e investigação – duas áreas onde o DEMaC também se tem destacado. Pode explicar, sucintamente, esta prioridade?

Nos próximos anos, e uma vez que a atual média de idades dos membros da UA em geral e no DEMaC em particular, é elevada, assistir-se-á à saída de docentes de topo que fizeram escola. Por um lado haverá que fixar os investigadores formados nesses grupos e, por outro, avançar com a contratação faseada de jovens com CVs de excelência nas vertentes de ensino, científica, de internacionalização e de cooperação com a indústria. Para o reforço em meios humanos e para a internacionalização propus ainda a contratação a tempo parcial de antigos professores de universidades estrangeiras de referência na área da Ciência e Engenharia de Materiais, que disponham de tempo suficiente para “viver o Departamento” por períodos largos de tempo durante cada ano. E para o ensino, considerei recuperarmos a tradição anterior de contratação a tempo parcial de especialistas vindos da indústria com grande experiência em tecnologias de produção e transformação de materiais.

Outra das prioridades referida é o estreitamento das relações com a sociedade e com as empresas – uma marca do DEMaC desde início – onde se destaca a nomeação de um Conselho de Estratégia “com representação maioritária da sociedade”. Será uma espécie de regresso da Associação de Apoio à Cerâmica (envolvendo a UA e 25 empresas) que apoiou o Departamento no início?

No sentido do que anteriormente destaquei, pretende-se agora reforçar as ações de interação com as empresas, não só visando a transferência do conhecimento, mas também a inserção dos nossos formandos no mundo empresarial, e ainda a formação dos próprios quadros das empresas. A ideia da criação do Conselho de Estratégia, aliás prevista no Regulamento do DEMaC, pretende trazer para o nosso departamento uma visão externa e inspirar-nos para a melhoria contínua da qualidade do ensino e investigação. Temas muito atuais como a Indústria 4.0 e a Economia Circular são vetores que, com certeza, estarão em cima da mesa.

O Conselho de Estratégia incluirá personalidades do meio empresarial de setores tecnológicos ligados às diferentes classes de materiais em engenharia (cerâmicos, metais, polímeros, multimateriais), não sendo por isso exatamente uma réplica da AAC. No entanto, dado que a área de I&D com maior visibilidade no DEMaC é a dos materiais cerâmicos, avancei na minha proposta de candidatura com a ideia da criação de uma cátedra suportada pela indústria, porventura por uma associação de empresas, com vista a promover a investigação e o desenvolvimento de soluções inovadoras em materiais cerâmicos avançados.

Tornar ainda mais representativa uma bandeira da UA

A Comissão Europeia, no seu programa Horizon 2020, identifica Materiais Avançados como uma das quatro Key Enabling Technologies (KETs) para aumentar a eficiência e competitividade da indústria europeia. O DEMaC e os seus investigadores têm trabalho produzido e em curso nesta área. Pode dar alguns exemplos?

Os Materiais Avançados são o foco da nossa intervenção em I&D. O programa que se seguirá ao Horizon2020 estará com certeza enquadrado com a nova era industrial que estamos a viver, com ênfase nos pilares Nanotecnologia – Biotecnologia - Inteligência Artificial. E para tudo isto terá que existir o suporte dos Materiais Avançados. No DEMaC produz-se investigação aplicada em diversos tipos como: nanomateriais para as indústrias eletrónica e de energia; biomateriais para a saúde; nanomateriais fotocatalíticos anti-poluição; auto-limpantes e anti-bacterianos para a construção; revestimentos funcionais anti-corrosão e anti-desgaste para os setores automóvel e aeronáutica; entre outros.

Quer avançar com uma proposta para reforçar a UA como universidade de referência internacional?

A área dos Materiais é já uma bandeira da UA a nível internacional. As estatísticas mais recentes mostram que o nosso país ocupa o 24º lugar em citações de artigos de Ciência dos Materiais, logo atrás do Brasil e da Rússia, e a Universidade de Aveiro é a instituição portuguesa com mais citações nesta área, em número absoluto, e em números relativos (per capita) com uma substancial diferença relativamente às universidades mais tradicionais das grandes cidades (Lisboa e Porto). Para reforçar este impacto precisamos do nosso esforço mas também que as instituições de financiamento em I&D do nosso país reconheçam a qualidade e a especialização já demonstrada pelos investigadores da UA nesta área do conhecimento.

Que atividade(s) realiza, habitualmente, para além do trabalho académico e que o ajudam a “recarregar as baterias”?

Não tenho hobbies em particular, mas sou um consumidor mais ou menos militante de prazeres da cultura: espetáculos de música, cinema, teatro, exposições. Para “recarregar baterias” do ponto de vista físico, faço caminhadas nos lindíssimos percursos do nosso país, ficando leve e de consciência tranquila para, em seguida, embarcar numa, obrigatória, experiência gastronómica.

 

"BI" do diretor do DEMAC

Rui Ramos Ferreira e Silva é professor associado do Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica da Universidade de Aveiro. Licenciou-se em Engenharia Metalúrgica no Instituto Superior Técnico (Lisboa) e iniciou a sua atividade profissional na indústria produtora de ferramentas de metal duro. Mais tarde, com uma bolsa de doutoramento da JNICT, obteve o grau de doutor em Ciência e Engenharia de Materiais na UA. Na sua atividade de investigação tem vindo a dedicar-se aos cerâmicos técnicos e à síntese de revestimentos obtidos pela técnica de deposição química em fase vapor (CVD). Rui Silva foi coautor de 220 artigos científicos e coinventor de 6 patentes. Orientou/coorientou 10 teses de doutoramento e 55 dissertações de mestrado. Foi responsável por 35 projetos de I&D.

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