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Opinião
Carlos Herdeiro, Departamento de Física da UA
“Nullius in Verba”
Carlos Herdeiro ao lado de Stephen Hawking, em Cambridge
Morreu um dos físicos mais brilhantes da nossa era: Stephen Hawking. Carlos Herdeiro, do Departamento de Física, que teve o privilégio de o conhecer pessoalmente e de privar com ele, em Cambridge, explica por que é que este reconhecido especialista em buracos negros foi uma pessoa e um cientista especial.

Li o best-seller internacional “Uma breve história do tempo” de Stephen Hawking em 1990. Tinha, na altura, 16 anos e estava fascinado com os buracos negros e a Cosmologia (ainda estou). Não imaginava, em 1990, que passados sete anos iria estar sentado, ao lado de Stephen Hawking, no seu gabinete do Department of Applied Mathematics and Theoretical Physics, em Cambridge, a conversar com ele.

Todos os anos, Stephen entrevistava uma pequena seleção de potenciais alunos de doutoramento e no verão de 1997, depois de um ano na Universidade de Cambridge em que era feito um processo de seleção, eu estava entre os felizes contemplados.  Lembro-me da excitação de estar a olhar para o ecrã do seu computador, enquanto o cursor controlado por um rato manipulado pelos poucos dedos que o Stephen ainda movimentava, procurava a palavra ou a letra no software concebido especificamente para ele. Conversamos sobre os tópicos científicos que nos interessavam e no final perguntei-lhe se considerava escolher-me; “I certainly do”, respondeu-me usando o sintetizador de voz.

Stephen, de facto não me escolheu, mas fiquei muito bem entregue a trabalhar com o Professor Gary Gibbons, o número dois do grupo de relatividade e gravitação de Cambridge. Ter ficado neste grupo permitiu-me durante os quatro anos seguintes, ver o Stephen quase diariamente (o gabinete dos alunos de doutoramento do grupo situava-se em frente ao dele). Tive oportunidade de conversar com ele algumas vezes sobre ciência, sobre buracos negros e sobre um tópico que nos fascinava a ambos: a possibilidade de viajar no tempo, ou de como refutar, matematicamente, esta possibilidade. Mas esta proximidade física tornou também possível aperceber-me do lado humano: o que era, para o Professor Stephen Hawking (sempre com a ajuda do seu staff), por exemplo, comer uma refeição ou satisfazer as suas necessidades básicas. Aprendi com isso a contextualizar os meus próprios problemas.

De entre as várias grandes contribuições do Stephen Hawking para a ciência, talvez a maior tenha sido o seu artigo de 1975 "Particle creation by black holes”, em que ele mostra que os buracos negros afinal não são o bicho papão em que tudo entra e nada sai. Hawking aplicou de uma maneira muito original as regras da mecânica quântica a estes objetos descritos pela teoria da relatividade geral de Einstein e descobriu uma implicação inesperada: os buracos negros, afinal, evaporam-se, embora para os buracos negros que resultam da morte das estrelas este processo seja muito lento. Esta descoberta, conceptualmente revolucionaria, abriu uma auto-estrada para o Santo Graal da física teórica: a gravitação quântica, cujo conhecimento é imprescindível para fazer alguma luz sobre o maior de todos os mistérios – o que é que a ciência realmente nos pode dizer sobre o início do Universo, sobre o Big Bang. Mas apesar de ser uma auto-estrada, o caminho é longo, e o fim não se vislumbra.

Para além do seu trabalho científico, Stephen Hawking gostava de comunicar ciência para o grande público. O livro que referi em cima foi o primeiro de vários. E as muitas palestras para o grande público, sempre divertidas e pedagógicas, com o seu muito presente sentido de humor (que nunca perdeu), eram disso um exemplo claro. Stephen Hawking percebeu que fazer esta ciência (e toda a ciência!) só faz sentido, se a desconstruirmos e a comunicarmos aos nossos concidadãos, aqueles que, connosco, partilham a aventura humana.

O meu antigo orientador de doutoramento, Gary Gibbons numa recente palestra por ocasião da celebração do 75º aniversário de Stephen Hawking, referiu que se alguma coisa captura a atitude de Stephen Hawking face ao conhecimento científico, e às ideias em geral, é o lema da Royal Society, a organização científica britânica: “Nullius in Verba”, isto é “Na palavra de ninguém”. A ciência não é estabelecida pela palavra de ninguém, independentemente da sua autoridade. É estabelecida pelos factos, experimentalmente (e matematicamente) comprovados. Stephen viveu por esse lema. Por exemplo, com 22 anos, como aluno de doutoramento na Universidade de Cambridge, desafiou publicamente o trabalho de um dos físicos consagrados dessa mesma Universidade, Sir Fred Hoyle. E essa atitude, sem dúvida, foi fundamental para as descobertas revolucionárias que fez. Mas também para algumas das ideias polémicas que apresentou, acerca da ciência e não só.

Stephen Hawking é um daqueles raros cientistas que ultrapassou largamente a comunidade a que pertenceu. A doença ALS ou doença de Lou Gehrig, que lhe foi diagnosticada com 21 anos, dava-lhe uma esperança de vida de 2 anos. Stephen Hawking perdeu progressivamente a capacidade de movimentar a quase totalidade do corpo e até a fala, mas nunca se deu por vencido, ultrapassando em 53 anos a esperança de vida que lhe foi apontada. Lamentamos a sua perda, mas celebramos a sua vida, o seu exemplo e o seu legado científico.

 

 

Carlos A. R. Herdeiro

Presidente da Sociedade Portuguesa de Relatividade e Gravitação (SPRG)

Professor no Departamento de Física da Universidade de Aveiro

Investigador no Centro de Investigação e Desenvolvimento em Matemática e Aplicações (CIDMA), onde coordena o grupo de geometria e Dinâmica Gravitacional

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