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Entrevistas
Antigo aluno UA - Fernando Marques Jalôto, mestre em Música
“Graças à UA sou um artista melhor”
Fernando Marques Jalôto
Queria ser arquiteto, mas a paixão pela música, pelo cravo e pelo reportório Antigo tocou-lhe muito, muito mais alto no coração. Mestre em Música pela Universidade de Aveiro (UA), Fernando Miguel Jalôto é membro da Orquestra Barroca da Casa da Música, fundador e diretor artístico do Ludovice Ensemble, solista, músico de câmara e de orquestra, professor, investigador e, sobretudo, apaixonado pela vida consagrada à música: “Tudo me fascina na minha profissão. A sério! É perfeita!”.

Em 2006 concluiu no Departamento de Comunicação e Arte da UA o Mestrado em Música. Para Aveiro trazia já o os diplomas de Bachelor of Music (2002) e de Master of Music (2005) em Cravo do Conservatório Real da Haia (Holanda). Hoje, aos 41 anos, está a concluir o doutoramento em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa.

Fundador e director artístico do Ludovice Ensemble, um dos mais activos e prestigiados grupos nacionais de Música Antiga, Fernando Marques Jalôto é membro da Orquestra Barroca Casa da Música e colabora com grupos especializados internacionais tais como Oltremontano (Bélgica) e La Galanía (Espanha). Ao longo da carreira profissional apresentou­-se em vários festivais e inúmeros concertos em Portugal, Espanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Reino Unido, Noruega, Alemanha, Áustria, Polónia, Bulgária, Israel e Japão.

Toca regularmente com a Orquestra e Coro Gulbenkian (Lisboa) e apresentou­-se com a Lyra Baroque Orchestra (Minnesota), a Real Escolania de San Lourenço d’El Escorial, a Orquestra da Radiotelevisão Norueguesa, a Camerata Academica Salzburg, a Orquestra de Câmara da Sinfónica da Galiza, a Orquestra Nacional do Porto e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, entre outras.

Foi membro da Académie Baroque Européenne de Ambronay (França), da Academia MUSICA de Neerpelt (Bélgica) e da orquestra barroca Divino Sospiro e professor no Conservatório Nacional de Lisboa, no Conservatório de Música do Porto e na Universidade de Évora. Como investigador, apresentou comunicações em múltiplas conferências e congressos em Portugal, Itália e nos Países Baixos.

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Uma profissão fascinante: “É maravilhoso quando de repente posso ficar em casa, a estudar sozinho, só eu e o meu cravo; ou sentado ao órgão, numa igreja escura e deserta”.

Quais os motivos que o levaram a estudar na UA?

Foi uma questão prática. Estava a terminar o meu Master na Holanda, precisava que uma universidade portuguesa reconhecesse o meu diploma; como na altura (2004) ainda havia dúvidas sobre a validade de alguns graus académicos estrangeiros em Portugal, e como a minha formação tinha sido toda feita no estrangeiro, acabei por achar que seria melhor obter um diploma em Portugal, para evitar posteriores problemas. A UA tinha um plano de Mestrado em Música muito aberto, que me permitia não só terminar o meu Master em performance na Holanda em simultâneo, como continuar a estudar em Portugal com o meu professor, o Jacques Ogg. Para além disso o curso da UA tinha uma componente mais científica e teórica que completava algumas das lacunas que eu sentia no meu percurso académico, e isso também foi decisivo.

O curso correspondeu às suas expectativas? E a UA?

Sim, acho que tive bastante sorte porque, segundo percebo agora, foram uns anos algo privilegiados: podiam vir professores de fora - como o Jacques, mas lembro-me também do Marc Hantai, por exemplo... Era um curso um pouco ‘à medida’ das nossas necessidades, na parte artística, e na parte da investigação; na parte teórica - curricular - tive também alguns bons professores; algumas das disciplinas na altura não me pareciam as mais adequadas, mas compreendi mais tarde que me ofereceram ferramentas importantes para o futuro.

O que mais o marcou na UA?

Conheci ou aprofundei o meu conhecimento com pessoas que ainda hoje são importantes na minha vida profissional e pessoal, quer entre os professores, quer entre os alunos, que só foi possível graças a um ambiente académico sério, mas permeável e descontraído. A par do conhecimento adquirido, essa é sem dúvida a mais valia da UA.

Que recorda desse período?

Foi um período complexo do meu percurso e com grandes desafios - a fazer dois mestrados em dois países diferentes, a viajar muito, a tentar iniciar a carreira artística, a dar aulas... Por ter sido uma jornada difícil talvez o que me tenha marcado mais foi mesmo a ‘chegada ao fim’: o de  ‘ter conseguido’, o orgulho de ter ali a minha família e amigos para me verem atingir os meus objectivos.

Um caminho que terminou com a defesa da dissertação do Mestrado...

A defesa da dissertação de mestrado foi muito especial: pela positiva, sobretudo por ter como arguente principal o Professor Dr. Owen Rees, que muito admiro, mas também dois professores que respeito muito, o Vasco Negreiros e a Nancy Lee Harper, e perceber que o meu trabalho era apreciado e reconhecido. Mas pela negativa, o facto de ter descoberto nesse dia que não havia classificações e que apenas saía dali com um mero "Aprovado", sem qualquer nota ou menção, o que não só foi um desapontamento, como no ponto de vista prático é algo que tem dificultado por vezes o meu percurso académico, pois a maior parte das outras universidades não usa nem compreende este sistema... acho que a UA devia rever urgentemente este sistema.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Não. De todo. Orientei-me toda a minha adolescência para ser arquiteto, que era o meu sonho de infância. Entrei na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde estudei quatro anos... Foi uma profunda deceção, sobretudo a parte humana - elitista, preconceituosa, competitiva, mas de uma forma agressiva...

Mas nessa altura já estudava cravo no Conservatório de Musica do Porto.

Sim, onde tive uma excelente professora - a Maria de Lourdes Alves -  que me fez apaixonar pelo instrumento e pelo repertório desde o primeiro instante, e acho que inconscientemente, ao fim de duas ou três aulas, já sabia que iria ser músico; o ambiente era também muito diferente... apesar de um certo ar "rétro" e conservador, era uma grande família... Cresci muito nesses anos e o Conservatório era o meu refúgio, onde eu me sentia em casa, vindo da Faculdade de Arquitectura, de onde cada vez me sentia mais escorraçado...

Mas, ainda hoje não sei que "profissão" quero... o meu coração balança sempre entre o lado artístico e o lado académico - a parte de investigação, porque o ensino não me atrai tanto... e mesmo dentro da parte artística, como performer, há uma grande diferença entre ser um solista, um músico de câmara ou um músico de orquestra. Gosto de todas as vertentes e tenho a possibilidade de ir fazendo de tudo. Também dirijo, para além de tocar; e toco múltiplos instrumentos... e por vezes, diante das dificuldades, ainda penso que se calhar preferia abrir um bar ou um restaurante do que ser músico... Enfim, acho que é a capacidade de me estar sempre a questionar, desafiar e reinventar profissionalmente que me distingue. Não acho que ter uma ‘ideia fixa’ desde a infância seja assim tão proveitoso, prefiro o meu percurso algo ‘atribulado’ ainda que com objectivos claros...

Como descreve a sua atividade profissional?

A minha actividade é pois, profundamente variada: toco em inúmeros sítios, viajo muito - mas não tanto como gostaria, estou sempre a conhecer pessoas novas, a ter novas experiências, a sentir-me desafiado e posto à prova. Creio que na maior parte das vezes sou bem sucedido, mas quando tal não acontece, é sempre uma oportunidade de aprendizagem, ou fica uma história para contar no futuro; há bastante stress, não posso negá-lo. Sobretudo na conciliação do trabalho académico - ainda estou a concluir o Doutoramento! - com a parte artística. Sinto sempre que estou a falhar em algum lugar: deveria estar a estudar mais o meu instrumento, e em vez disso tenho de escrever um artigo; ou estou a ensaiar, e devia estar a preparar uma conferência. Às vezes é preciso respirar fundo, relativizar, abdicar de ser perfeito em tudo, aceitar os limites, e buscar refúgio na família, nos amigos, ou num bom livro...

O que mais o fascina na sua atividade profissional?

Tudo me fascina na minha profissão. A sério. É perfeita. O nunca ter dois dias iguais, não haver qualquer rotina, ser surpreendido a qualquer momento, estar em permanente mudança e adaptação, conhecer pessoas e partilhar momentos tão intensos, tão profundos no palco ou na sala de ensaios; conhecer novos lugares, adoro viajar em trabalho. E ao mesmo tempo, é maravilhoso quando de repente posso ficar em casa, a estudar sozinho, só eu e o meu cravo; ou sentado ao órgão, numa igreja escura e deserta. Talvez os momentos mais incríveis é quando tenho concertos em monumentos ímpares, e como músico tenho acesso aos espaços a que mais ninguém tem. Quando o camarim em que mudo de roupa é uma sacristia coberta de frescos, uma capela coberta de talha dourada, ou um salão de um palácio recamado de pinturas e porcelanas... Ou estar fechado num arquivo ou numa biblioteca. com luvas de borracha calçadas, a desfolhar códices manuscritos que já há séculos ninguém abre, e ver diante de mim tanta música maravilhosa, que ninguém escuta há 300 ou mais anos, e a que eu posso dar uma nova vida...

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua actual actividade?

A minha formação artística foi maioritariamente feita no estrangeiro, na Holanda sobretudo, mas também em muitos outros lugares, em master-classes... Mas a minha formação científica e teórica deve-se sobretudo à UA. O facto de ter feito um mestrado, realizado trabalhos académicos, investigado, escrito e defendido uma dissertação, abriu-me portas para áreas do conhecimento em que eu ambicionava penetrar, mas não tinha as ferramentas, nem o conhecimento; foi o despertar da minha actividade académica, o perceber que para mim era realmente importante completar o meu perfil de artista com o de investigador. Graças à UA sou um artista melhor, mais informado, com mais recursos; e sou um académico mais aberto, mais comunicativo, porque a minha criatividade está plenamente desenvolvida. Sempre fui um pouco caótico e desorganizado, e o "temperamento artístico" não ajuda. A UA ensinou-me talvez sobretudo a ser mais organizado, metódico, a clarificar os meus objectivos, a estruturar o meu pensamento e o meu discurso, competências que talvez pareçam vagas, mas que são essenciais a qualquer profissão.

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