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Entrevistas
Antiga aluna UA – Diana Ferreira, licenciada em Ensino de Música
Aveiro_Síntese: uma vida dedicada à música electroacústica
Diana Ferreira
Há vinte anos, no campus da Universidade de Aveiro (UA), nascia uma programadora. Diana Ferreira, licenciada em Ensino de Música pela UA, professora e crítica musical, desde há duas décadas que partilha com o público a sua paixão pela música do nosso tempo, através da criação e programação de festivais. O próximo encontro é no Aveiro_Síntese 2018. De 16 a 25 de fevereiro, o festival traz ao Teatro Aveirense concertos, conversas, compositores e estudantes de música num programa preparado para todas as idades.

Nascida em 1976, estudou no Conservatório de Música de Aveiro. Em 2002 terminou a Licenciatura em Ensino de Música – ramo Composição no Departamento de Comunicação e Arte (DECA) da UA.

A Academia haveria de ser o berço das Jornadas Nova Música. De 1997 a 2001, a então estudante da UA levou para o Campus, na companhia de dois colegas de Lisboa, cinco edições das Jornadas que deram origem à Arte no Tempo, a associação através da qual deu ao público português diversas iniciativas de divulgação musical, maioritariamente no âmbito da música contemporânea. Destes projetos destaca-se a Orquestra XXI, os Reencontros de Música Contemporânea, o Omnia Mutantur e o Aveiro_Síntese, cuja próxima edição estará nos palcos do Teatro Aveirense, em Aveiro, de 16 a 25 de fevereiro.

Diana Ferreira estudou composição e música electroacústica com Godfried-Willem Raes, na Hogeschool Gent (Bélgica) e participou em diversos seminários orientados por compositores como Emmanuel Nunes, Christopher Bochmann, Gérard Grisey, Jonathan Harvey, Salvatore Sciarrino ou John Chowning. Algumas das suas peças foram premiadas e tocadas em Portugal, França e Itália. É professora de Análise e Técnicas de Composição e de História e Cultura das Artes, assim como colaboradora do jornal Público.

Entretanto regressou ao DECA onde está a terminar o Mestrado em Música

Que pode o público esperar deste Aveiro_Síntese 2018?

O que eu espero que as pessoas encontrem no Aveiro_Síntese é um informal ambiente de partilha, de descoberta, de grande respeito pela música, pelos músicos e pelos ouvintes. Tal como na primeira edição (em 2002), pensámos este programa com uma perspectiva histórica (obras do grande repertório), dando espaço para selecções elaboradas por convidados e também para a apresentação de novas obras, maioritariamente de compositores portugueses. Os programas são sempre pensados para as pessoas, mas nesta edição houve um especial cuidado na tentativa de envolver o público, chamando diferentes pessoas para o palco, procurando estimular para experiências directas, marcantes, com consequências positivas a longo prazo. 

Há alguns compositores ou intérpretes que queira destacar?

Destaca-se a música concreta, por um lado (os 70 anos dos "Estudos de Ruídos" de Pierre Schaeffer), e a música por computador (e os 60 anos da descoberta de John Chowning da síntese por FM). Destacam-se as ausências de Pierre Henry (1927-2017) e, sobretudo, de Jean-Claude Risset (1938-2016) e de Clotilde Rosa (1930-2017), que seriam mais duas presenças inequívocas se a morte não tivesse lamentavelmente chegado. Uma das duas últimas obras que Clotilde Rosa escreveu foi precisamente para este Aveiro_Síntese e será estreada no dia 18 de Fevereiro. John Chowning e Daniel Teruggi são as duas presenças "importadas" da bienal. Horácio Ferreira e Mário Teixeira são dois dos notáveis solistas que se apresentarão no Teatro Aveirense.

E haverá a presença de jovens alunos de música.

Contamos com uma fortíssima presença de alunos do ensino artístico especializado da música, de diferentes escolas do país, para a estreia de diversas obras para instrumento solo e electrónica de compositores portugueses – encomendas da Arte no Tempo com o apoio da Direcção Geral das Artes e da Câmara Municipal de Aveiro [a 18 de fevereiro, às 18h30]. Para isso, temos a colaboração de conservatórios/academias de Arouca, Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Espinho, Guarda, Linda-a-Velha, Lisboa, Vilar do Paraíso e Lagos. Estreia-se um projecto comunitário, criado e coordenado por João Martins [dia 17 de fevereiro, às 18h30]. No último dia, o Conservatório de Aveiro dá voz e corpo a uma peça de teatro musical de Jaime Reis, antigo aluno da UA – encomenda conjunto da APEM/Cantar+ e da Arte no Tempo, financiada pela Fundação Calouste Gulbenkian, Direcção Geral das Artes e Câmara Municipal de Seia. E despedimo-nos desta bienal com um concerto pelo Grupo de Percussão da Universidade do Minho, com uma estreia e meia.

A música electroacústica continua a ser um 'gueto' que pouco atrai mesmo a grande maioria da comunidade musical. Que é preciso para mudar essa ideia feita?

Começa a fazer cada vez mais sentido, para mim, a ideia de que cabe aos programadores inverter essa situação e, se preciso for, "fazer o pino" para trazer as pessoas até à música. Não podemos nunca fazer cedências a nível da qualidade. É importante dar aos criadores as melhores condições possíveis e a maior liberdade para que possam fazer o seu trabalho. É importantíssimo, também, ser muito selectivo nas propostas que se faz ao público e escolher muito criteriosamente os criadores com quem se trabalha, sobretudo quando o público está menos familiarizado com a área (parece um contra-senso, mas não é). No entanto, importa igualmente descobrir novas abordagens, novas formas de apresentação dos espectáculos, novas formas de apelo.

Como o projecto do compositor João Martins que envolveu a Escola Básica de Santiago e o colectivo D'Arte ou as 11 estreias de obras escritas para alunos do ensino artístico especializado?

Deposito grande esperança no impacto que o projecto comunitário que o João Martins está a desenvolver com alunos da Escola Básica de Santiago e do colectivo D'Arte pode ter na vida dos intervenientes e nas consequências positivas que o mesmo terá na criação de novos públicos. Paralelamente, se, no interior das próprias escolas de música, a electroacústica é ainda encarada com alguma estranheza, vamos atribuir a alunos e professores o lugar que merecem, partilhando com eles a responsabilidade de fazer a música acontecer: teremos 11 estreias absolutas de peças de compositores portugueses, protagonizadas por alunos de secundário, preparados com o apoio dos professores de instrumento. Nesse sentido, a experiência dos Reencontros de Música Contemporânea (2017) mostrou-nos que estávamos no caminho certo e que, por agora, deveremos insistir neste trabalho conjunto. Daqui a dois anos, o que fará falta pode já ser algo completamente diferente. Se as escolas de música começarem a voltar-se todas para a electroacústica, este nosso papel deixará de fazer sentido (é esse o objectivo!) e estaremos, certamente, a actuar numa outra frente.

Quais os motivos que a levaram a estudar na UA?

Nasci em Aveiro e gosto do clima da região. Houve diferentes razões que me levaram a fazer aqui a licenciatura: primeiro, a composição era o mundo que eu queria descobrir e isso parecia-me possível em Aveiro. Pouco depois, desejando uma abordagem um pouco diferente e sendo admitida na Escola Superior de Música de Lisboa, acabei por permanecer em Aveiro na expectativa de uma mudança (que já só parcialmente aconteceu após Bolonha) e pelo tal conforto do clima que me é favorável. Anos mais tarde, a vantagem de obter a profissionalização numa segunda área de ensino levou-me a regressar.

O curso correspondeu às suas expectativas?

O Mestrado, sim. A Licenciatura, menos. Quando se é mais novo espera-se sempre muito mais de tudo e de todos.

E a UA?

É um bonito campus. É delicioso o amanhecer na Marinha de Santiago da Fonte, um sítio extraordinário para prestar atenção ao som das aves, antes da cidade acordar.

O que mais a fascina na sua atividade profissional?

A minha actividade divide-se em diferentes campos: o ensino, a actividade crítica e musicográfica e, no topo de tudo, a programação. O que mais me fascina é fazer a música acontecer, poder partilhar o que acredito ser importante, dar um ínfimo contributo para que esta música, que não chega ainda a muitos, chegue a cada vez mais e diferentes pessoas. Como a Arte no Tempo não dispõe de grandes recursos, para que a actividade que programamos se concretize, vejo-me sempre obrigada a despender de muito mais tempo do que gostaria em actividades de produção (que não me desagradam, mas me impedem de aceitar outros trabalhos devidamente remunerados e de me dedicar mais à investigação e à criação).

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