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Investigação do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro
Morcegos tropicais dão-nos lição: dieta variada é chave para diversificação das espécies
Os morcegos noctilionoídeos constituem um grupo de mais de 200 espécies (Foto: Maria Joaƒo Ramos Pereira)
De que forma o tipo de alimentação influencia a formação de novas espécies? Através do estudo da dieta dos morcegos noctilionoídeos da América do Sul, uma equipa de biólogos da Universidade de Aveiro (UA) deu mais um passo na compreensão da ancestral mas pouco compreendida relação entre comida e diversificação das espécies. No caso deste morcego, que se divide em mais de 200 espécies numa diversidade sem paralelo entre os mamíferos, os biólogos garantem que sua dieta variada é mesmo a chave que explica a enorme riqueza genética.

Até agora, estudos realizados com aves e mamíferos sugeriram que a alimentação exclusivamente herbívora aumenta a taxa de formação de novas espécies. No entanto, para os omnívoros - animais que incluem produtos vegetais e animais em sua dieta - não existia um padrão claro: em alguns morcegos, uma dieta diversificada parece abrandar a taxa de formação de espécies, enquanto em mamíferos ungulados, como veados ou antílopes, ocorre o contrário.

Um novo estudo publicado na revista Ecology Letters pelos investigadores do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) Danny Rojas (Pontíficia Universidade Javeriana Cali, Colômbia), Maria João Pereira (Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil) e Carlos Fonseca (UA) e parceria com Liliana Dávalos (Universidade de Stony Brook, EUA) permitiu elucidar qual é a relação entre o tipo de dieta e a formação de espécies.

A pesquisa mostra que nos morcegos noctilionoídeos, um grupo de mais de 200 espécies que habitam os trópicos do Novo Mundo, as linhagens com uma dieta omnívora produzem mais gerações de longo prazo do que linhagens que se alimentam estritamente de plantas ou outros animais.

"Suspeitamos que alguns dos resultados contraditórios sobre o efeito da dieta na formação de novas espécies possam estar mais relacionados à forma como as análises acompanham as mudanças nos processos de especiação e extinção, do que com as mudanças na dieta", referem os investigadores.

Para avaliar essas suspeitas, a equipe de pesquisa caracterizou a dieta de espécies de morcegos de um índice quantitativo que permitiu ordenar espécies de herbívoros estritos a animais rígidos. Uma das vantagens do uso dos noctilionoideas como um sistema de estudo reside na diversidade das dietas que ocorrem neste grupo: há espécies que se alimentam apenas de insetos, outras que consomem apenas frutas, ainda outras que se alimentam de vertebrados, exclusivamente do sangue ou do néctar das flores. Dentro desta riqueza há ainda hábitos alimentares que combinam de todas as formas possíveis os referidos menus.

Com este índice trófico e um novo método analítico que os biólogos também desenvolveram para este estudo, foi possível relacionar a velocidade com que novas espécies são formadas e a velocidade com que a dieta evolui para quase 200 espécies de morcegos.

Os investigadores descobriram que uma dieta herbívora altamente variada, que inclua, por exemplo, frutas, néctar e pólen, ou uma dieta predominantemente herbívora que inclua alguns produtos de origem animal, aumenta a formação de novas espécies. Pelo contrário, quando os morcegos se especializaram num único tipo de produto vegetal, a taxa de formação de novas espécies diminuiu.

Portanto, apontam os biólogos, ser um herbívoro generalista ou um omnívoro moderadamente insectívoro favorece o aumento da diversidade de espécies num quadro evolutivo, possivelmente porque essa estratégia é uma forma de seguro contra os padrões erráticos e imprevisíveis de florescimento e frutificação das plantas nos Neotrópicos.

Este estudo foi parcialmente financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e pela National Science Foundation (EUA).

 

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