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Entrevistas
Antigo aluno UA - José Paulo dos Santos, licenciado em Ensino de Português e Francês
Na Tunísia com a língua de Camões no coração
José Paulo dos Santos
Está na Tunísia ao serviço do Instituto Camões e da língua portuguesa. Professor na Universidade de Cartago e no Liceu Sadiki, em Tunes, José Paulo dos Santos é licenciado em Ensino de Português e Francês pela Universidade de Aveiro (UA). Escritor, especialista em tecnologias ao serviço da educação e aventureiro de culturas, adora demolir (todos!!) os muros das escolas por onde passa.

Concluiu em 1993 a Licenciatura em Ensino de Português e Francês do Departamento de Línguas e Culturas (DLC). Professor em várias escolas do ensino secundário e no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, José Paulo Santos, 48 anos, está hoje na Tunísia ao serviço do Instituto Camões, lecionando a língua portuguesa na Universidade de Cartago e no prestigiado Lycée Sadiki, na cidade de Tunes.

Criador e impulsionador de vários projetos focados nas Tecnologias de Informação e Comunicação, metodologias de ensino e aprendizagem, produção de conteúdos digitais e formação de docentes, José Paulo Santos foi mesmo pioneiro em Portugal na utilização de hardware e software educativo, de ferramentas da Web 2.0 e dos quadros interativos em contexto de ensino.

A vasta experiência na área das tecnologias valeu-lhe, em 2009, ser convidado como Teaching and Learning Consultant para a empresa Promethean. Aceita e suspende a atividade docente. Nos anos seguintes percorre vários países como formador e orador em conferências e workshops.

Em 2014, foi convidado como national general manager pela Multilingual Schools Foundation para implementar um projeto de apetrechamento de tecnologias Apple em três escolas da Guiné Equatorial. Ainda nesse ano, partiu para Cabo Verde, onde foi diretor da Cape Verde Multilingual School até finais de 2015.

Membro do conselho consultivo do Observatório da Língua Portuguesa, José Paulo dos Santos publicou em dezembro de 2017 o livro de poesia “Aldeias em Mim”, com a chancela das Edições Esgotadas.

descrição para leitores de ecrã
O primeiro-ministro António Costa, acompanhado por José Paulo dos Santos (à direita), visitou em novembro de 2017 o Liceu Sadiki onde inaugurou a sala de ensino da Língua Portuguesa.

Quais os motivos que o levaram a estudar na UA?

Após a conclusão do 9º ano na Escola Secundária de Sever do Vouga, decidi viver em Aveiro e concluir o meu Ensino Secundário na Escola Secundária José Estêvão. Tendo em conta que a UA oferecia o curso que eu desejava, oferecendo o estágio integrado, considerei que poderia realizar todo o meu percurso académico na belíssima cidade que amava e amo.

O curso correspondeu às suas expectativas?

Sim, o Curso de Licenciatura em Ensino de Português e Francês estava bem estruturado e contava com bons docentes. As didáticas das Línguas, as Tecnologias Educativas, a Psicologia do Desenvolvimento, a Sociologia, as Ciências Humanas foram algumas das disciplinas que me deram muito prazer. Obviamente, as Literaturas, as Línguas e Culturas Francesa e Portuguesa foram necessárias e bastante úteis. A todos os professores da UA, em particular do DLC, agradeço o que me ofereceram ao longo do meu trajeto académico. Ainda hoje conservo boas memórias e boas amizades com alguns deles.

E a UA?

A Universidade era ainda pequena, naquela altura. Era uma família. Não tinha as instalações magníficas que hoje possui, mas o campus era já muito agradável.

O que mais o marcou na UA?

Guardo inúmeras memórias dos tempos académicos. No ano em que entrei, 1988, no curso de Português e Francês, éramos apenas três rapazes. Em 30 estudantes, a maioria era do sexo feminino, pelo que me senti num harém. Estabeleci maravilhosas relações de amizade e de cumplicidade com todos os meus colegas, que ainda perduram até hoje. Penso que este ambiente de amizade, de partilha e de cumplicidade são a essência que fica para sempre nas nossas vidas.

Foi um estudante muito participativo.  

Eu fui um membro muito ativo da UA. Como elemento da direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), responsável pelo departamento pedagógico, assumi funções de extrema importância para a vida académica, respondendo às preocupações ou problemas dos estudantes, e procurando estabelecer o diálogo com as estruturas administrativas e de gestão da UA. A minha posição permitiu-me uma relação muito próxima com o Magnífico Reitor, Prof. Doutor Renato Araújo, assim como com o atual Reitor, Prof. Doutor Manuel Assunção, que, então, foi membro eleito do Conselho Pedagógico da UA. Também tive assento no Conselho Diretivo do DLC. Em suma, estive sempre próximo das atividades de governação da UA, o que me proporcionou inúmeras competências pessoais que, ainda hoje, são úteis.

Que mais recorda desses tempos?

Penso que o meu espírito de liderança e de empreendedorismo me permitiram realizar variadíssimas reuniões de importância vital para os estudantes, nomeadamente, durante o clima de instabilidade que surgiu com a imposição das propinas nas universidades. Participei em várias reuniões com o ministro da Educação, na 5 de Outubro, assim como nos ENDA (Encontro Nacional das Direções Académicas), um pouco por todo o país, envolvendo os responsáveis das universidades, Institutos e Escolas Superiores.

Envolvi-me na organização dos Enterros do Ano da UA, de concertos, etc.; acompanhei a vida dos núcleos desportivos e culturais da AAUAv; participei na gestão e administração daquela Associação que é vital para a construção de um ambiente estudantil enérgico, participativo e de compromisso.

Tive também imenso prazer em ser nomeado para a organização, receção e acompanhamento de alunos dos Cursos de Verão do DLC. Contactar com aqueles estudantes provenientes dos mais variados cantos do mundo foi um dos momentos que me marcaram para a vida. Ainda guardo as melhores recordações do ambiente multilingue e multicultural que vivenciei naquela época.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Decidi ser professor de Português e de Francês aos 15 anos, sem saber muito bem se isso era possível naquele tempo. Graças ao apoio de vários professores e dos seus conselhos, rapidamente orientei o meu percurso para alcançar esse objetivo. No Secundário, ainda hesitei, pois outra vertente me pareceu bastante sedutora: o jornalismo. Outros colegas de turma meus, como o Rui Loura ou o Daniel Cruzeiro, ambos jornalistas, seguiram esse percurso. No final do 12º ano, no momento de decidir, acabei então por seguir a minha opção inicial: a docência. Penso que, conhecendo-me bem, teria sido um excelente jornalista também, modéstia à parte.

Como descreve a sua atividade profissional?

Magnífica. Ser professor é uma das profissões mais belas do mundo. Desde 1992 a formar pessoas! Já são largas centenas de alunos que levam um pouco de mim na construção e desenvolvimento pessoal deles. Sei que deixei e deixo um pouco de mim em cada um. E eles contribuíram direta e indiretamente para ser o homem e o profissional que hoje sou. Tenho ex-alunos que já são avós! Alguns são médicos, engenheiros, economistas, jornalistas, empresários, desportistas; outros são professores, mecânicos, enfermeiros, etc. E eu faço parte daquilo que eles são, positivamente. Não é isto extraordinário?!

Mas eu não sou um docente comum. Nunca me restringi exclusivamente às atividades letivas. Sempre precisei de desenvolver outros projetos. Procurei sempre inovar e criar novas ideias em todas as escolas e comunidades por onde passei. Deixar uma pegada forte e valiosa para mim e para os outros, foi o meu lema. Fundei clubes, criei jornais escolares, desenvolvi projetos com impacto local, regional e nacional, lancei desafios aos órgãos de gestão, formei milhares de professores em Portugal e no estrangeiro. Sempre senti que quatro paredes de uma sala ou as grades que separavam o espaço da escola da comunidade eram insuficientes para as minhas necessidades e ambições para a Educação.

Fiz palestras, criei workshops, participei em conferências como orador, levei a cabo várias ações de formação originais e úteis para os professores. Era urgente fazer mais e melhor pelas escolas, pelos alunos e pelas famílias.

O que mais o fascina na sua atividade profissional?

A minha liberdade de ser e de fazer. Não aceito viver numa escola-prisão ou num ambiente que não me permita expandir o meu potencial humano, criativo e inovador. Procuro sempre soluções para os problemas; investigo e encontro respostas para mudar o que parece ser impossível mudar-se. Não aceito o comodismo, o conformismo e a ignorância que muitas vezes assisti nos órgãos de gestão escolares. Cada professor pode fazer a diferença. O Ministério da Educação e as estruturas de administração da Escola são responsáveis pelo ambiente burocrático e desmotivador que se vive na Educação. Não há lugar à “revolução”. É preciso que os alunos vejam nos seus modelos, nos seus professores, essa energia, essa força, essa alegria em acreditar que podemos fazer mais e melhor. A melhor educação é aquela que se faz em liberdade e em espaço de criação e de valorização de si próprio e dos outros.

Educando as pessoas, educamos um país. É o que mais me fascina.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade?

Competências de liderança, sociais e políticas, didático-pedagógicas, metodológicas, intelectuais e linguísticas. As nossas competências não podem restringir-se a um mero saber ou conhecimento académico. Devemos exigir muito mais de nós mesmos. Um campus universitário, como o da UA, permite-nos envolver-nos numa multiplicidade de atividades e momentos, onde nos podemos valorizar e distinguir. Colocarmo-nos ao serviço da comunidade, em espírito de partilha, de construção e de inovação, deve ser esse o nosso dever. Participar ativamente no mundo académico, para além das suas fronteiras físicas e criar laços fortes com cada elemento, cada professor. A atividade política e intelectual é essencial para o desenvolvimento de cada cidadão e a universidade pode ser um espaço privilegiado para dar início a outras competências, além daquelas que nos são oferecidas pelos diversos cursos.

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