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Entrevistas
Professora UA – Marília dos Santos Rua, Escola Superior de Saúde da UA
Ao serviço do doente, ao serviço da Enfermagem
Marília Rua
Durante 20 anos foi enfermeira nos blocos de partos e operatório no Hospital Distrital de Aveiro. Desde há 17 anos é na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro (ESSUA) que Marília Rua, diretora do Mestrado em Enfermagem de Saúde Familiar, continua a cuidar dos doentes através das várias gerações de enfermeiros que tem ajudado a formar.

Doutorada em Ciência da Saúde pela UA, mestre em Ciências de Enfermagem pela Universidade do Porto, licenciada em Enfermagem com especialização em Saúde Materna e Obstétrica pela Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca, escola onde tirou também o bacharelato em Enfermagem, começou a exercer a sua paixão em 1981 no bloco operatório do Hospital Distrital de Aveiro. Daí, em 1993, passou para o bloco de partos como enfermeira especialista em obstetrícia. 

Chegou à UA na viragem do milénio. Já foi diretora da Licenciatura em Enfermagem. Desde o ano letivo 2013/2014 preside à direção do Mestrado em Enfermagem de Saúde Familiar  da ESSUA.

Qual é o segredo para se ser bom professor?

Um bom professor deve começar por ser um bom profissional na área em que leciona (neste caso especifico a enfermagem), ou pelo menos ter conhecimentos na área que lhe permitam abordar as temáticas em estudo não só sob o ponto de vista teórico, mas fundamentando a utilização desses conhecimentos na aplicação na prática.

Deve manter uma atualização constante ao nível das evidências cientificas que apoiam o conhecimento, mas sobretudo “saber ler” a evolução macrossistémica que acompanha o desenvolvimento sociocultural e por consequência compreender os estudantes com quem trabalha os processos de ensino aprendizagem, nas suas diferentes formas de ser e de estar e de aprender. Isto implica um desenvolvimento das suas competências pedagógicas por forma a ajustar o ensino a cada situação específica e não entender os estudantes como uma “massa acrítica” dispostos a ouvir o professor.

Quanto ao segredo, não sei se existe. O que acredito que existe é uma maturidade que advém da sua prática reflexiva, acompanhada de uma grande vontade de inovar, de fazer cada dia melhor que no dia anterior, de contribuir para a formação de profissionais críticos e motivados eles também para os desafios que se irão colocar ao longo das suas vidas profissionais.

Acredito ainda que tem que haver uma boa dose de sensibilidade, para compreender os estudantes, não só no processo de transição para o ensino superior, mas ao longo do curso compreender as suas fragilidades, os seus receios, mas também festejar com eles as suas vitórias.

O que mais a fascina no ensino?

O que mais me fascina é um poder orientar um jovem adulto no seu percurso formativo, sabendo, no meu caso, que ele necessita de ferramentas que lhe vão permitir “cuidar” a pessoa/família ao longo do ciclo vital. Transmitir conhecimentos desprovidos de contextualização, seria na minha perspetiva um processo de ensino pobre. Não iria motivar os estudantes. Mas poder transmitir o conhecimento, ou trabalhar com eles as ferramentas para aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de competências é, sem dúvida, fascinante.

Por vezes, quando há tantas coisas burocráticas/administrativas para fazer que nem sei como dar resposta, costumo dizer, "deixem-me dar aulas, estar com os estudantes a partilhar experiências". Teríamos todos mais a ganhar.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes na ESSUA?

Ao longo do percurso como docente na ESSUA, que se sobrepõe à existência da mesma, já passámos por três planos curriculares diferentes.

O pré-Bolonha – mais centrado no contacto com o estudante em aulas e ensinos clínicos - já era considerado por muitos, nomeadamente supervisores em ensinos clínicos, como um bom nível de formação, com uma abertura para áreas que outras escolas não apresentavam.

Seguiu-se a transição para Bolonha e com ela a alteração de paradigma ensino aprendizagem, que se pressupõe ser centrada no estudante enquanto agente responsável pelo seu processo de desenvolvimento. Trouxe assim uma diminuição do número de horas de aulas, que fomos tentando ajustar com novas metodologias de ensino aprendizagem. Mais centradas em problemas e casos clínicos, para que os estudantes possam ter um nível de desenvolvimento adequado ao que é expectável. Penso que se tem conseguido manter o nível de boa formação. Neste ano estamos a fazer a transição para um novo plano de estudos, decorrente da avaliação da A3ES, o propósito do mesmo é manter ou aumentar o nível de formação, que penso será sem dúvida conseguido

Que grande conselho dá aos seus alunos?

Estou sempre a dar conselhos sobre o presente e sobre o futuro. Sobre o presente aconselho a trabalhar dentro das suas capacidades, enfrentando os desafios constantes, tanto em termos de trabalho em sala de aula, como mais especificamente em ensinos clínicos. E, neste contexto, estou sempre a referir a importância de “saber” para poder “fazer bem”. Na profissão de enfermagem trabalhamos com pessoas, daí que o erro pode ter consequências muito graves para as mesmas e os cuidados são irrepetíveis.

Mais especificamente em EC digo constantemente, “se não sabe fazer, peça apoio, não vai prestar um cuidado tendo dúvidas sobre o mesmo”.

Mas simultaneamente digo-lhes que eles para além de estudantes têm outros papéis na família a na sociedade que devem continuar a desempenhar. Devem aproveitar com bom senso a vida académica, pois só acontece com uma intensidade marcante nesta fase de licenciatura, depois os mestrados ou doutoramentos tem outros enquadramentos.

Tento saber as atividades que vão decorrendo e falar sobre elas, tanto pelos exageros, como pelos benefícios que daí podem advir.

Outro conselho, ou será mais um alerta, é a necessidade constante de estudar. A grande aprendizagem deles, na área, começa no momento em que iniciam a sua vida profissional. Em saúde os conhecimentos por vezes são efémeros, as técnicas mudam, a tecnologia que nos apoiam nos cuidados está em atualização constante. Isso exige “formação ao longo da vida”, exige empenho e sobretudo ter orgulho em ser enfermeiro e não apenas ser licenciado ou mestre em enfermagem.

Houve alguma turma que mais a tivesse marcado? Porquê?

Sim, houve. O 1º e o 2ª grupo do Curso de Licenciatura Enfermagem da ESSUA. Mas talvez seja lógico. O primeiro por serem, tal como os docentes, os primeiros a dar vida à ESSUA. Um grupo de apenas 45 elementos, que conhecia e conheço muito bem. Só eles na escola, tudo era feito em função deles o que gerou uma grande proximidade. Ainda hoje sei o nome de todos e “sei por onde andam quase todos” mesmo os que estão fora do país, sei os seus percursos de vida, conheço os filhos. Alguns já voltaram à ESSUA para outras formações e há alguns que se mantém há alguns anos como assistentes/docentes na ESSUA.

O 2º grupo, porque foi com eles que fiz o meu percurso de doutoramento, estudando o desenvolvimento das suas competências em ensino clinico ao longo de quatro anos.

Deste grupo, também 45 no início, conheço bem todos, tal como os do 1º. Contudo, a relação com alguns tornou-se mais estreita na medida em que participaram de forma muito ativa no processo e a partir de determinada altura eles próprios sentiam curiosidade em saber o que eu já tinha feito, se o que eles escreviam nas suas narrativas era importante, se ajudava, se faltava muito...

A participação que se iniciou um pouco a medo, foi evoluindo para uma relação de confiança que lhes permitia ser “eles próprios” quando escreviam as narrativas ou me davam entrevistas. Este grupo tem caraterísticas que nenhum outro tem. Eles reúnem-se pelo menos uma vez por ano e fazem questão que eu esteja presente. E tenho estado.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Não sei de momento identificar uma situação... Ao longo dos anos foram várias as situações que se iam diferenciando do que era habitual, mas todas elas foram vivenciadas e marcantes no momento e passaram. Outras vão-se sobrepondo, o que é natural quando trabalhamos com jovens, nesta área da saúde, em que por vezes se abordam temáticas do foro mais intimo da pessoa e em que pode sobressair alguma ingenuidade do estudante. Tento nesses casos aproveitar a situação para que todos possam retirar algo de positivo da mesma.

descrição para leitores de ecrã
Aos estudantes costuma dizer que é preciso “ter orgulho em ser enfermeiro e não apenas ser licenciado ou mestre em enfermagem”.

Traço principal do seu carácter

Persistente (para não dizer teimosa) e gosto muito de trabalhar

Ocupação preferida nos tempos livres

Ler, estudar, estar com a família

O que não dispensa no dia-a-dia

Dois cafés (e o e-mail)

O desejo que ainda está por realizar

Não há um desejo único, gostaria de ter mais tempo e condições para poder viajar. Por outro lado, gostaria de saber mais sobre determinadas áreas do conhecimento, não propriamente da Saúde... Gostaria de ter em simultâneo tempo para a família para vivenciar mais cada fase das nossas vidas.

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