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Opinião
Celeste Coelho, professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento e investigadora do CESAM da UA
O paradoxo da seca! País litoral em seca severa desde o Minho até ao Algarve
Celeste Coelho
2017 foi um ano marcado pela seca em todo o território nacional com altas temperaturas, grandes incêndios, demasiadas mortes e elevados prejuízos materiais. Em artigo de opinião, Celeste Coelho, professora Catedrática Jubilada do Departamento de Ambiente e Ordenamento e investigadora do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro diz que está na hora de “reinventar do nosso território para nos prepararmos para o futuro”.

Portugal, um dos países da Europa, onde mais chove (cerca de 2500mm na serra do Gerês), está em seca desde dezembro de 2016. De seca ligeira, no princípio de 2017, a seca já estava bem presente em abril, e instalou-se em todo o território de Portugal Continental, em outubro, com tendência para piorar.

Um olhar pelos campos da Beira Litoral transporta-nos para outras paragens, da planície alentejana, em pleno período estival. Os terrenos estão ressequidos, a erva não cresce, mesmo com o orvalho das noites frias outonais. Nos ribeiros e nos córregos não corre água, os poços e as charcas não têm água. Será já a antevisão do que se prevê para meados deste século?

Pela sua posição geográfica, face aos sistemas e aparelhos atmosféricos, o clima de Portugal é caraterizado por uma estação seca de verão, que dura, em média, dois meses no Minho e vai crescendo até aos cinco meses no Algarve. Portugal é muito vulnerável à seca. Secas muito pronunciadas e desastrosas registaram-se nos anos 1943/1944, 1944/46, 1964/1965, 1975/1976, 1980/81, 1991/92, 1994/95 e 1998/99, tendo afetado principalmente o Alentejo, o Algarve, o Ribatejo, a Beira Alta e Trás-os-Montes. Desde a década de 90, do século passado, registaram-se secas mais frequentes e algumas muito severas a estenderem-se a todo o território (2000, 2003 – seca também em toda a Europa –, 2004/2006 e 2016/2017).

As situações de seca constituem uma ocorrência natural associada essencialmente à falta de precipitação por períodos longos, com repercussões negativas sobre as atividades económicas, a saúde e o bem-estar das pessoas, e a vitalidade dos ecossistemas (por exemplo maior risco de incêndio). A seca é um perigo assustador, porque ela não é repentina e facilmente percetível, como uma cheia ou uma onda de calor, ela evolui muito lentamente, silenciosamente, algumas vezes durante meses e é de longa duração. As secas muito severas, como resultado de perturbações no ciclo hidrológico, provocadas pelas alterações climáticas, poderão conduzir a impactos muito significativos, à escala regional. A seca é o desastre natural, à escala mundial, que afeta mais pessoas, e durante mais tempo.

As secas não podem ser evitadas, porém os seus efeitos podem ser reduzidos através de uma gestão sustentável da água, pela adoção de boas práticas de uso e conservação do solo e da água, pelas boas práticas agrícolas e silvícolas, pela promoção do uso responsável da água em zonas urbanas e industriais.

Donde planear para a seca é fundamental, urgente, mas difícil!

Regra geral, os decisores políticos e o público em geral não possuem um entendimento completo acerca da seca. Pela sua natureza aleatória não tem sido dada prioridade ao planeamento, de longo prazo, para a seca. Foi criado recentemente o Plano de Prevenção, Monitorização e Contingência para Situações de Seca 21.

Num ano de seca em todo o território, com temperaturas muito elevadas, grandes incêndios, com perdas de vidas humanas e de bens materiais e imateriais, é oportuno refletir sobre o "renovar, o reinventar do nosso território" para nos prepararmos para o futuro.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 28 da revista Linhas

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