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Entrevistas
Márcio Carvalho, antigo aluno de Economia da UA
Da banca à terra
Márcio Carvalho gere 40 hectares de culturas hortículas
Agricultura sustentável. Cultura de proximidade. Estes dois termos resumem a atividade da Banca Terra, jovem empresa com raízes em Oliveirinha, gerida por Márcio Carvalho, antigo aluno de Economia na UA e ex-bancário. Bisneto e filho de agricultores, pegou no negócio da família, ampliou-o e tem, hoje, em exploração, cerca de 40 hectares, sendo atualmente o único produtor de alho francês da região a alimentar o grande mercado.

Bisneto, neto e filho de agricultores, o economista Márcio Carvalho, 35 anos, não deu propriamente um salto para o desconhecido quando, passados oito anos, decidiu deixar a atividade bancária para, com a companheira de vida, Patrícia Silva, dar continuidade ao negócio agrícola que a família desenvolvia em Oliveirinha, freguesia essencialmente agrícola do concelho de Aveiro.

Na realidade, e neste caso o que pode parecer um pormenor faz toda a diferença, não se tratou de uma exata continuidade. O antigo aluno da UA relançou o negócio familiar, em novos moldes, aderindo ao regime de produção integrada, com base em dois mil metros quadrados e estufas que já eram cultivadas pelos pais, assim como máquinas e alfaias agrícolas, e aproveitando os apoios do Programa de Desenvolvimento Rural (ProDer) para a instalação de jovens agricultores.

Muitos, na sua situação, teriam resistido à mudança. Mas, desiludido com o contexto socioeconómico, arriscou. O apelo da atividade em que foi participando desde pequeno e apoiando os pais, a formação em Economia, na UA, onde diz ter passado anos muito felizes, a experiência na banca e a facilidade que adquiriu em procurar mais conhecimento, fizeram a diferença, reconhece Márcio.

Foram importantes as ferramentas que adquiriu na formação universitária, quer a nível geral – como a definição de um plano de negócios, por exemplo – quer em áreas específicas – como estratégia de vendas, gestão de clientes, gestão provisional, cálculo de custos, ou gestão financeira. Márcio considera esta última essencial numa empresa agrícola e lamenta ser um aspeto frequentemente menos valorizado nas empresas agrícolas. O empresário recorda com satisfação que a evolução do negócio coincide com o que tinha estabelecido no plano inicial.

Área multiplicada por seis em três anos

Constituídas duas empresas, Hortovouga e Banca Terra, foi adotado o regime de produção integrada, explica-se no sítio desta última na Internet, aliando a proteção integrada a todas as práticas culturais e fertilidade do solo. "Na proteção integrada das culturas utilizam-se meios alternativos de luta contra as pragas, tendo como principal preocupação a produção de alimentos isentos de resíduos prejudiciais à saúde. "Esta prática de produção agrícola, permite aos agricultores a utilização de estratégias de luta racionais no controlo de pragas e doenças, sem afetar espécies que auxiliam o desenvolvimento das culturas, tendo sempre presente a noção do nível económico de ataque, evitando ou limitando a utilização de fitofármacos e herbicidas, muitas vezes nocivos para o Homem e para o ambiente."

Passados três anos, a área cultivada foi multiplicada por seis, abrangendo agora 40 hectares. Atualmente, é nestas terras que se produz o único alho francês da região para alimentar o grande mercado.

Enquanto que a Hortovouga vende para grandes clientes, em maiores quantidades, a Banca Terra aposta na relação com o cliente, através de encomendas de cabazes via página na Internet e redes sociais, com possibilidade de entregas ao domicílio: "Desta forma aproximamos o campo português até si e melhoramos

muito a sua dieta alimentar e o bem-estar da sua família", propõe-se no sítio da empresa na Internet. Em março deste ano, a Banca Terra promoveu um Dia Aberto para, em convívio com os clientes e outros interessados que se inscreveram, numa espécie de "dia de regresso à terra", mostrar o que faz e como faz, sensibilizando para as práticas agrícolas sustentáveis.

Pensar bem e testar antes de iniciar esta atividade

A quem pondera lançar-se no negócio agrícola, Márcio Carvalho aconselha a "pensar muito bem". "Primeiro, testar e experimentar. Que venha cá e, durante dois ou três dias, tome contacto com o que fazemos aqui. Os resultados saem do corpo! Não há feriados e, nos dias santos, trabalha-se de manhã!", avisa. Por outro lado, o antigo aluno lamenta a rápida variação – às vezes, uma semana basta – no preço dos produtos que depende sempre das leis do mercado, embora sublinhe que essa é uma característica da atividade agrícola.

"A atividade agrícola era mal vista pela sociedade, mas atualmente essa perspetiva tem vindo a mudar e a imagem do agricultor a melhorar. O agricultor está, muitas vezes, pouco acompanhado. Eu próprio já aconselhei muita gente com dúvidas sobre vários aspetos da atividade", afirma o licenciado em Economia.

Quando se deteta uma ameaça às culturas – e é necessário estar sempre atento à sua evolução – é preciso, primeiro, esgotar todas as possibilidades de atuação pela via natural. Tratamentos químicos são permitidos, mas apenas em última instância e, nesse caso, garantindo sempre o cumprimento dos intervalos de segurança. São fundamentais certas práticas, enumera, tais como a rotação e diversidade de culturas no mesmo espaço, evitando a proximidade de plantas da mesma família, dado que quanto maior a área abrangida por plantas da mesma espécie, maior a probabilidade de atrair pragas. Outras espécies há que são úteis ao atraírem insetos benéficos que promovem a polinização, ou insetos que se alimentam das pragas e ainda plantas que as afastam. Quanto à fertilização do solo, essencial para boas colheitas, é feita com recurso ao que sobra das plantas cultivadas e a composto orgânico comprado.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Linhas

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