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Entrevistas
Delfim Torres, docente e investigador no Departamento de Matemática
Um dos matemáticos mais influentes do mundo que queria ser bom em tudo
Delfim Torres, docente e investigador no Departamento de Matemática
Delfim Torres é professor no Departamento de Matemática da UA e uma das mentes científicas mais influentes do mundo. Detentor durante dois anos consecutivos (2015 e 2016) do Thomson Reuters Highly Cited Researcher, que premeia os autores dos trabalhos mais citados nas respetivas áreas de estudo, o especialista em Controlo Ótimo já colocou um teorema na história da Matemática, atribuindo ao empenho, à determinação, ao trabalho em grupo e à exigência, a chave do seu sucesso.

Nasceu há 45 anos em Moçambique, em Nampula, mas aos três veio para Portugal. Instalado em Lamego, aí viveu toda a sua infância e juventude e estudou até ao 12º ano, no Liceu Latino Coelho. Para fazer o ensino universitário decidiu-se por Coimbra. Por ser um aluno brilhante em todas as áreas, descobriu a sua paixão pela Matemática apenas quando frequentava a sua Licenciatura em Engenharia Informática, nas disciplinas de computação teórica e de lógica. Mas foi quando veio para a UA dar aulas que se começou a dedicar de corpo inteiro à disciplina dos números e das equações.

"Quando pensei na universidade, escolhi a Engenharia Informática, porque os computadores sempre me fascinaram. Mas quando pensei no mestrado, era já óbvio para mim que a vertente mais teórica da Informática ou a Matemática eram o caminho a seguir. Optei pela Matemática, mas o diretor desse mestrado em Coimbra na altura desencorajou-me. Disse-me que a minha formação de base em engenharia não me permitia saber muito de Matemática e aconselhou-me a seguir a computação teórica. Perante esta minha primeira desilusão, decidi começar a concorrer para a área da docência".

 

Eu gosto do lado perene da Matemática

Quis o destino que o professor fosse aceite aqui na UA, decorria o ano de 1994. Embora tenha conseguido destacar-se em dois concursos, um para o então Departamento de Engenharia Eletrónica e Telecomunicações e outro para o Departamento de Matemática, a sua preferência foi óbvia: recaiu sobre o segundo. "No meu último ano de licenciatura recebi uma bolsa de jovem investigador. Foi uma experiência muito interessante porque me permitiu ter contacto com várias áreas. Foi aí que comecei a dar mais valor a vertentes mais teóricas. Na Matemática nós provamos um teorema e é algo que fica para sempre. Na Informática as coisas evoluem muito rapidamente, a mudança está sempre presente. Eu gosto desse lado perene da Matemática".

Em Aveiro fez toda a sua carreira de docente, sendo hoje professor catedrático, e aqui concretizou um dos seus grandes sonhos: descobrir um teorema. "Fui um dos primeiros alunos a fazer o Mestrado em Otimização e Teoria do Controlo, um mestrado bastante duro, que exigiu muito estudo e muita dedicação. Mas valeu a pena. Na altura tive oportunidade de conhecer um professor que era uma individualidade na área do Controlo Ótimo, o Prof. Andrey Sarychev. Foi um privilégio ter aqui uma pessoa que me pôde orientar e que me pôs em contacto com pessoas de topo que trabalhavam nesse campo. Talvez por isso, consegui concretizar o sonho de ter um teorema, que já está na história da Matemática, logo no meu mestrado. É um teorema que será válido para sempre, e sendo o primeiro, tenho um carinho especial por ele".

A descoberta deste teorema marcou o seu percurso profissional, mas não foi a sua única conquista de peso. Para além de várias distinções, que já lhe valeram diversos convites para ser orador e professor em vários pontos do globo, Delfim Torres foi galardoado, em dois anos consecutivos (2015 e 2016), com o Thomson Reuters Highly Cited Researcher, que premeia os autores dos trabalhos mais citados nas respetivas áreas de estudo. Um título só ao alcance dos melhores. "Receber um título destes é motivo de orgulho e um privilégio porque é um sinal de que o nosso trabalho é valorizado. Este prémio é importante também para a Matemática porque muitas vezes comparam-se coisas que não são comparáveis. A Matemática tem uma política de citações muito diferente da Física e da Química, por exemplo, e este prémio tem em consideração essas diferenças. Os artigos podem não ter muitas citações, mas serem de grande relevância para a área em que se inserem".

E qual é a chave do sucesso para se chegar ao topo? Empenho, determinação, exigência e um excelente grupo de trabalho. "Este reconhecimento foi possível também graças ao trabalho desenvolvido em grupo, com colegas, com alunos de doutoramento e de pós-doutoramento, que permitiu criar aqui uma importante massa crítica. Na área concreta do cálculo das variações fracionário há apenas três livros no mundo e são todos de Aveiro. Temos de trabalhar muito, acreditar nas nossas ideias e depois criar um grupo de trabalho que se reja por níveis de exigência internacionais".

Quanto ao futuro, Delfim Torres tem apenas duas certezas: continuar a fazer o que gosta e envolver cada vez mais os jovens na Matemática. "Eu gosto imenso de ensinar, porque nos dá a oportunidade de transmitir o que pensamos sobre determinado assunto. Na Matemática há muitas maneiras de ensinar a mesma coisa e através das aulas o professor tem a oportunidade e a liberdade de mostrar a sua interpretação e os seus pontos de vista. Quando orientamos um aluno, há muita coisa da nossa maneira de estar na ciência e de ver as coisas que passa para esse aluno. Isso sempre me fascinou. Além disso, os jovens normalmente são poços de ideias, ainda com poucos vícios, e, portanto, há que envolvê-los e estimulá-los. É um privilégio trabalhar com jovens".

Filho de pais professores, é na docência que Delfim Torres tem encontrado o seu maior estímulo, tendo dedicado grande parte da sua vida à área do Controlo Ótimo, ou seja, à "arte" de controlar a realidade de maneira ótima.

Bom aluno em todas as disciplinas, Delfim Torres sempre se interessou por muitas áreas distintas, na ilusão de que podia ser bom em tudo. Participante assíduo de olimpíadas nas mais diversas áreas quando frequentou o ensino secundário, sempre se sentiu atraído por desafios que exigiam mais raciocínio e menos memorização de matérias. Depois de ter eleito a quimicotecnia como área vocacional no 10º, 11º e 12º, foi na Engenharia Informática que decidiu fazer a sua formação superior, tendo terminado a licenciatura como melhor aluno do seu ano, com uma média de 18,3. Apesar de ter pouco tempo disponível para hobbies, aproveita o tempo livre para correr – tendo realizado uma maratona, pela primeira vez, aos 45 anos –, para praticar karaté com os seus três filhos e para ler poesia. "Fico-me pela leitura. Como sou matemático não me consigo abstrair da estrutura; ser poeta é diferente e fascinante, brinca-se com as palavras e nem sempre se respeita a tal estrutura".

Tem como grande referência Emmy Noether, uma das poucas matemáticas mulheres da sua época. "Ela lutou muito para estudar matemática, conseguiu resultados brilhantes na matemática pura e na matemática aplicada. Fez os seus estudos numa altura em que era proibido às mulheres ir à universidade. Fez muitas coisas. Embora seja conhecida como algebrista, ofereceu importantes contributos para a área da Física".

Nota: este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Linhas

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