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Entrevistas
Arsélio Pato de Carvalho
“É um título honorífico que muito me honra”
É um académico íntegro, de perfil completo e enorme reputação científica na Biologia fundamental e ligada à saúde, mas também na divulgação da ciência. O professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, a quem são reconhecidas contribuições significativas para o desenvolvimento da neurociência em Portugal, vai, a 19 de abril, ser distinguido pela Universidade de Aveiro com o título Doutor Honoris Causa. Em entrevista ao uaonline, Arsélio Pato de Carvalho destaca os grandes momentos da sua carreira.

Como encara esta distinção que a UA lhe confere?

O doutoramento Honoris Causa é um título honorífico que muito me honra, especialmente sendo atribuído pela Universidade do distrito onde nasci e pela qual há muito sinto um certo carinho e uma certa afinidade.

É evidente que o Doutoramento Honoris Causa implica contribuições dos cidadãos a quem é atribuído, que vão para além daquilo que é expectável que tenham feito ao longo da sua vida. Sinceramente considero que tudo aquilo que fiz, foi dentro do âmbito da minha profissão, como professor, como investigador e como cidadão sensível às questões sociais com que nos confrontamos no dia a dia. Portanto, é uma distinção que muito me honra, mas que me faz sentir maior responsabilidade perante a sociedade e perante a Universidade de Aveiro.

É um especialista na área das Neurociências e da Biologia Celular.  O que podem os avanços científicos nesta área trazer para a qualidade de vida das pessoas?

As doenças neuronais mais evidentes e que mais afetam as populações são doenças que têm uma base de neuro degeneração de células do cérebro, como por exemplo as doenças de Alzheimer e de Parkinson. Estas são aquelas que estão a ser estudadas com grande intensidade, sabendo-se já onde se originam, pelo que provavelmente trarão bons resultados num futuro próximo.

Mas no futuro será possível erradicá-las?

É uma pergunta muito difícil de responder. Têm vindo a encontrar-se soluções para doenças que se pensava ser impossível e estas não são impossíveis. Atualmente já há uma base bioquímica que permite saber o que causa estas coisas. Identificou-se a fonte do mal.

Que contributos especificamente deu o Professor Arsélio Pato de Carvalho para o avanço científico?

A contribuição que considero mais relevante e inovadora e que começou nos anos 70, quando regressei dos EUA, foi de facto ter introduzido em Portugal o estudo da neurobiologia; no fundo quais são os fundamentos biológicos de funcionamento das células nervosas para através daí percebermos melhor a base de funcionamento do cérebro. Na altura, criámos uma área que não estava a ser desenvolvida em Portugal para percebermos como as células individualmente funcionam e como é que elas comunicam. Portanto, acho que foi nessas áreas que demos maior contribuição.

“Fizemos uma espécie de revolução científica”

De que momentos mais se orgulha ao longo da sua carreira?

Fui para os EUA com 16 anos e vivi lá 20 anos. Estive 10 na Universidade da Califórnia, fiz lá a licenciatura e o doutoramento. Ainda trabalhei em Nova Iorque, no Instituto de Investigação Científica, dei aulas na Universidade de Columbia e finalmente vim para Portugal no início dos anos 70. Esta era uma época negra da ciência em Portugal. Os jovens não eram expostos ao mundo da ciência que já existia nessa altura. Isto motivou o crescimento de um grupo de investigação que iniciei em Coimbra. Fizemos uma espécie de revolução científica que, tal como o 25 de abril, também era social porque os alunos estavam muito envolvidos. Fomos o único grupo em Coimbra que não foi afetado pela revolução porque já tínhamos uma revolução muito avançada. Foi um grande desafio. A partir daí, criámos um centro de investigação que progrediu e foi o 1º Laboratório Associado de Portugal: o Centro de Neurociências e de Biologia Celular – um instituto de grande prestígio e que ainda hoje é o maior da Universidade de Coimbra, integrando cerca de 600 pessoas. Fui seu diretor até um pouco antes de me jubilar, em 2004. Este Centro foi uma grande fonte de satisfação.

Outra contribuição que considero importante para Portugal foi ter criado o conceito de ensino de pós-graduação (mestrados e doutoramentos) e fazê-lo internacionalizando o processo. Criámos o que chamámos Cursos Avançados de Coimbra em que os professores eram cientistas de praticamente todo o mundo. Ao longo dos anos passaram por ali centenas de grandes cientistas. Isto criou uma grande vitalidade na ciência em Coimbra e depois expandiu-se por outras universidades.

Depois pôs-se outro desafio que deu origem ao Biocant, em Cantanhede. Na altura, o Presidente da Câmara, Dr. Jorge Catarino, estava interessado em criar um centro de Biotecnologia e foi falar connosco. Foi uma iniciativa que teve muito sucesso e que ainda hoje, creio, é o único parque de biotecnologia de Portugal exclusivamente dedicado à Biotecnologia.

Finalmente o Instituto que dirijo há 10 anos: o Instituto de Educação e Cidadania que foi fundado em 2005, na Mamarrosa, e ao qual a UA está ligada. É uma instituição de interface entre os centros de conhecimento: as universidades, os institutos de investigação científica e as escolas e as populações. Acho que as universidades, pela sua própria natureza, ficam muito dentro de si próprias. O Instituto de Educação e Cidadania foi criado em parceria com a Câmara Municipal de Oliveira do Bairro - que construiu e equipou o edifício, num investimento de perto de um milhão de euros - para trazer uma dinâmica de conhecimento a uma região rural, onde creio ainda haver pessoas analfabetas. Este foi um grande passo.

Em resumo: A mesma filosofia que presidiu à minha intervenção na universidade, que era ter ligações ao estrangeiro e aos grandes centros de investigação, está também a ser aplicada aqui na Mamarrosa, com a ligação a estes centros de conhecimento, como as universidades de Aveiro e Coimbra, o Biocant... Neste momento damos aulas em escolas do concelho de Oliveira do Bairro e de Águeda. Temos também protocolo de funcionamento com Miranda do Corvo, Figueira da Foz e Santa Maria da Feira, num total de 37 escolas. Considero que este é o maior desafio da minha vida. É o que tem mais impacto, uma vez que estamos a lidar com estudantes e professores que vivem um pouco sozinhos. O ensino que fazemos nas escolas, principalmente nas do secundário, é feito com cientistas, jovens cientistas. Mais de 100 jovens cientistas colaboram connosco em conferências, em cursos, em simpósios, ou seja, há toda uma dinâmica regional que se instalou. Confesso ter esperança que um dia haja um Ministro da Educação que queira dar uma certa autonomia a esta região para que esta região possa incutir a sua visão do que deve ser a educação, com alguma supervisão, como é evidente.

“Sou uma pessoa muito simples”

descrição para leitores de ecrã
Arsélio Pato de Carvalho, Doutor Honoris Causa pela UA 2017

Como se define como pessoa?

Sou uma pessoa muito simples, sempre tive um convívio muito próximo com os alunos, gosto de desmistificar as diferenças entre as pessoas. Nós somos de facto basicamente todos iguais.

Há algum traço de personalidade que o caraterize particularmente?

Não sei, as pessoas pensam que sou sempre muito exigente. As minhas intervenções são muitas vezes mal entendidas, mas na verdade entendo que as pessoas podem sempre fazer melhor e ter muito mais impacto do que aquele que têm. O filósofo José Gil diz que os portugueses têm medo de ser. Eu sinto sempre que as pessoas que estão à minha volta podem ser sempre muito mais do que aquilo que pensam que podem ser. A ideia de já estarmos na média da Europa ou passar com nota 10 para mim não chega. Temos que nos colocar outro tipo de exigência.

Como costuma ocupar os tempos livres? Tem algum hobby?

Joguei futebol até aos 53 anos. Gosto de exercício físico ao ar livre. De jogar voleibol, andar de bicicleta. Gosto muito de ler, de música clássica. Tenho sempre o rádio na Antena 2. No Instituto de Educação e Cidadania há sempre música clássica. Durante a minha juventude fui influenciado pelas canções de intervenção: Joan Baez, Zeca Afonso.E dentro da música clássica tem algum compositor preferido?De um modo geral toda a música clássica me atrai. Serena-me. Ouço muito de Beethoven, Bach… mas não posso dizer que tenha um compositor preferido.Também disse gostar muito de ler. Tem algum género literário preferido?

Inicialmente fui um pouco viciado em literatura russa: Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói. Ainda hoje releio alguns clássicos. Tenho também um especial gosto por Eça de Queiroz; o retrato da sociedade que faz nos seus livros ainda é muito atual, e com frequência releio um ou outro dos seus livros. Ainda houve uma fase na minha vida em que Albert Camus me fascinou.  Ele faleceu em circunstâncias que às vezes ainda me tocam. Ele tinha comprado bilhete para ir numa viagem, mas um casal amigo ia para o mesmo local e ofereceu-lhe boleia. Tiveram um acidente e morreram. Aconteceu muitas vezes eu ir a Lisboa e comprar bilhete de ida e volta, mas depois encontrava um colega que me oferecia boleia para Coimbra. Vinha-me sempre à memória esta história. Hoje leio menos. A literatura moderna passa-me um bocadinho ao lado. Ainda ocupo muito tempo a ler artigos científicos.

 

 

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