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Entrevistas
Professor UA – José Moreira, Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática
“Procurem o conhecimento, perguntem-se porquê e leiam muito”
José Moreira
Semestre após semestre, ano após ano, acompanhar os alunos, vê-los a evoluir e potenciar-lhes o caminho rumo ao futuro. E, para isso, ter de estar permanentemente atualizado e adaptado à vertiginosa velocidade com que avança o mundo da programação e das bases de dados. Professor no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da Universidade de Aveiro (UA), é também nos livros e nas conversas entre amigos que José Moreira encontra os prazeres da vida.

Doutorou-se em Informática pela École Nationale Supérieure des Télécommunications de Paris (atual Télécom ParisTech) em cotutela com a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Professor do DETI desde 2004, José Moreira tem sido responsável por diversas unidades curriculares sobre programação, bases de dados e temas relacionados, maioritariamente nos cursos ministrados naquele departamento mas também noutros cursos de outros departamentos da UA.

José Moreia tem participado em diversas atividades de ensino internacionais, nomeadamente nos programas promovidos pela UA em conjunto com a Carnegie Mellon University e com a Universidade de Cabo Verde. Recentemente lecionou uma unidade curricular no sistema de Blended Learning na OTH Regensburg (Alemanha).

Qual é o segredo para se ser bom professor?

Enquanto aluno, tive professores com quem aprendi muito, mas curiosamente aqueles de que me recordo melhor tinham perfis e métodos muito distintos. Talvez existam características transversais, como as competências científicas e técnicas, a organização ou a capacidade de comunicação, mas penso que também é essencial que existam professores com métodos ou perspetivas diferentes, que possam contribuir para o enriquecimento dos alunos sob diferentes pontos de vista, sejam ao nível do conhecimento, da forma de pensar ou outras vertentes do ensino. Além disso, como em qualquer outra atividade, é essencial envolver-se, importar-se e despender tempo.

O que mais o fascina no ensino?

A aprendizagem é um processo contínuo e eu gosto particularmente de acompanhar a evolução das pessoas sob os mais variados aspetos, sobretudo os mais jovens. O ensino permite não só acompanhar, mas também contribuir para esse processo. Gosto também da mudança, pois para além de precisarmos de nos atualizar permanentemente em termos científicos e técnicos, também temos de nos adaptar aos novos tempos e às novas formas de estar na vida. Na verdade, costumo dizer que nós envelhecemos, mas os alunos não, uma vez que a cada ano recebemos alunos novos, que têm a mesma idade dos que entraram na universidade no ano anterior. Isto permite-nos ter uma visão privilegiada sobre a evolução sociocultural das novas gerações.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no DETI?

A Universidade em geral e o DETI em particular, possuem um corpo docente qualificado e motivado, que é capaz de aliar a formação científica com a prática e a resolução de problemas reais.

Um aspeto que quero destacar é a interação que existe entre os professores e os alunos, e que se traduz numa extensão da formação para além da sala de aula. Na verdade, os alunos são cada vez mais incentivados a participar em atividades e projetos dos departamentos. Por exemplo, os núcleos de estudantes são muito ativos e organizam diversos tipos de iniciativas com o apoio dos departamentos e dos professores. Os alunos participam ativamente em iniciativas promovidas pelos professores, por exemplo, o Students@DETI ou a Academia de Verão, e também têm a oportunidade de participar em projetos de Investigação & Desenvolvimento nas unidades de investigação, que no caso do DETI são o Instituto de Engenharia Electrónica e Telemática de Aveiro (IEETA) e o Instituto de Telecomunicações (IT). Desta forma, para além de trabalhar em projetos inovadores, têm também a oportunidade de trabalhar em equipas que integram professores, bolseiros e alunos de doutoramento, o que é certamente uma mais-valia em termos pessoais e académicos.

Que grande conselho daria aos alunos?

Sejam curiosos, procurem o conhecimento, perguntem-se porquê e leiam muito.

Houve alguma turma que mais o tivesse marcado? Porquê?

Gosto de trabalhar com alunos dos primeiros anos e gosto de reencontrá-los quando estão próximos de concluir o curso, podendo desta forma aferir o quanto evoluíram nesse período. Isto tem acontecido com muitos alunos e turmas de vários cursos, mas por se ter tratado de um contexto diferente, destaco os alunos do Mestrado em Sistemas de Informação que a UA realizou em Cabo Verde. Os alunos, quase todos trabalhadores-estudantes, procuraram aproveitar ao máximo as nossas estadias em Cabo Verde e o nosso contributo foi muito para além dos programas curriculares propostos, pois também traziam problemas relacionados com as suas atividades profissionais. Apesar de o horário ser das 18h às 21h, chegamos a ter sessões que começavam a seguir ao almoço e só terminavam às 23h. No final, penso que o sentimento geral, tanto para os alunos como para os docentes da UA, foi que realmente valeu a pena.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula?

Começo por um episódio que passou logo nos primeiros anos como docente e que ainda me recordo com frequência. Na altura, era um jovem professor, e quando acabava de descer uma escadaria para me dirigir para uma das salas onde estava marcado um exame, vi a pouco mais de 10 metros de distância uma aluna ao ver-me chegar com os enunciados debaixo do braço, quase desmaiou. Foi amparada pelos colegas e depois foi acompanhada por um funcionário para ser vista por um médico. Soube mais tarde que se tratava do último exame para concluir a licenciatura.

Mais recentemente, estava a dar uma aula teórica matinal num anfiteatro e reparei num aluno que estava permanentemente a fazer desenhos no seu caderno, aparentemente alheado da aula. A determinada altura, fiz uma pergunta que não era trivial à turma, e pedi a esse aluno para responder. Fiquei surpreendido por ele saber qual era a pergunta, pois achava que ele nem sequer estava a ouvir, e mais ainda por ter respondido bem e ter justificado perfeitamente a resposta. À tarde, já na aula prática, esse aluno mostrou-me os exercícios que resolvera e pedi-lhe para resolver um problema bastante mais complexo que os anteriores. Passado algum tempo mostrou-me uma boa solução. Perguntei-lhe qual a nota que tinha tido na unidade curricular do semestre anterior da mesma área e ele respondeu em voz baixa e discretamente: 20. Dessa vez, já não fiquei muito surpreendido e pude confirmar durante o semestre que se tratava realmente de um aluno excecional.

descrição para leitores de ecrã
Professor há 12 anos no DETI, José Moreira destaca a grande interação que ali existe entre os professores e os estudantes

Traço principal do seu carácter

Gosto de observar e ouvir. Dizem que sou calmo.

Ocupação preferida nos tempos livres Gosto de cinema (nas salas de cinema, nem tanto na televisão), gosto de ler e gosto de longas conversas com os amigos.

 

 

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