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Investigação
Estudo sobre japoneses jesuítas que viveram no século XVI-XVII
UA publica estudo sobre visita de japoneses à Europa contemporâneos da ação de “Silêncio”
Os quatro jusuítas japoneses com o Padre Mesquita: Julião Nacaura (em cima à esq.), Miguel Chijiwa, Martinho Hara e Mâncio Ito ©Trustees of the British Museum
A viagem, no final do século XVI, aos reinos da Península Ibérica e a várias cidades italianas de quatro nobres japoneses, educados por jesuítas, é objeto de um estudo agora publicado pela Universidade de Aveiro (UA). Um desses quatro japoneses, anos mais tarde e então já sacerdote da Companhia de Jesus, foi detido no Japão, no mesmo dia que o seu confrade e superior hierárquico o português Cristóvão Ferreira, personagem do filme “Silêncio”, de Martin Scorsese, em exibição nos cinemas.

Num momento em que as relações de Portugal com o Japão voltam a estar em destaque através do novo filme “Silence”, de Martin Scorsese, baseado no romance Chinmoku do autor japonês Shusaku Endo, a revista Ágora. Estudos Clássicos em Debate, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, publica, como Suplemento n.º 5, o livro de António Guimarães Pinto intitulado “Adenda ao livro De missione legatorum Iaponensium, de Duarte de Sande: As Orationes de Gaspar Gonçalves e de Martinho Hara”.

O investigador português António Guimarães Pinto, professor de latim na Universidade Federal do Amazonas, foi colaborador em vários projetos da Universidade de Aveiro (UA) e realizou um estágio de pós-doutoramento, sob orientação de António Manuel Lopes Andrade, professor da UA e um dos autores (em conjunto com João Torrão) do prefácio do livro agora publicado.

Este livro tem como pano de fundo a vinda de uma embaixada de quatro jovens fidalgos japoneses (Miguel Chijiwa, Julião Nacaura, Martinho Hara e Mâncio Ito) a vários reinos europeus – Portugal, reinos de Espanha e cidades da Península Itálica - no último quartel do século XVI, organizada sob a égide da Companhia de Jesus e obedecendo a um bem delineado plano do Padre Alexandre Valignano, responsável pela organização e implementação das missões jesuíticas na China e Japão.

As memórias do périplo que os quatro japoneses empreenderam, por terra e por mar, ficaram para sempre gravadas no livro de Duarte de Sande, S. J., De missione legatorum Iaponensium ad Romanam curiam..., publicado em Macau, em 1590, cuja versão integral para língua portuguesa ficou a dever-se a Américo da Costa Ramalho, professor da Universidade de Coimbra, sob o título “Diálogo sobre a missão dos embaixadores japoneses à Cúria Romana e as coisas que eles observaram na Europa, coligido do Diário dos próprios embaixadores e vertido para latim por Duarte de Sande, sacerdote da Companhia de Jesus” (1ª edição, Macau, 1997).

A passagem dos japoneses, primeiro por Portugal e Espanha e depois por várias cidades da Península Itálica, entre as quais sobressaem Veneza, Ferrara, Florença e, sobretudo, Roma, despertou um vivo interesse nos locais por onde deambularam, confirmado tanto pelos próprios príncipes, enquanto interlocutores dos colóquios do livro de Sande e autores, eles mesmos, de outros textos, como também pelos ecos havidos da missão nipónica nas demais fontes impressas e manuscritas da época.

Traduções inéditas

António Guimarães Pinto considera que, entre o vasto conjunto de textos dedicados a memorar a embaixada japonesa, sobressaem, pela sua qualidade literária, «três obras saídas de pena e/ou tipografia portuguesa», uma das quais é o próprio De missione legatorum Iaponensium ad Romanam curiam, de Duarte de Sande. As outras duas ocupam um lugar central no presente livro, que nos oferece os seus textos latinos e respectivas traduções: a saber, a Oratio de obediência ao papa Gregório XIII, que, em nome dos dáimios nipónicos já então convertidos ao catolicismo, escreveu e leu em Roma o insigne latinista conimbricense Gaspar Gonçalves, S.J.; e a Oratio panegírica, em louvor do Padre Alexandre Valignano, da autoria do fidalgo japonês Martinho Hara, um dos quatro membros da embaixada nipónica, discurso este que o moço latinista leu diante do destinatário no Colégio da Companhia de Jesus, em Goa, uma das escalas no seu regresso à pátria.

Os quatro nobres japoneses, instruídos desde tenra idade pelos jesuítas, deixaram alguns textos impressos, onde demonstram um conhecimento não despiciendo do latim, conforme afirma António Guimarães Pinto e se colige pelos textos que ora se imprimem. De entre esses escritos, destaca-se a notável Oratio panegírica do japonês Martinho Hara, publicada em 1587, da qual é dada à estampa neste livro a primeira versão para qualquer idioma ocidental, fazendo-se também prova de que a autoria desta oração pertence inequivocamente ao jovem japonês.

Estes acontecimentos constituíram um marco histórico nas relações entre a Europa e o Japão. O contacto entre estas duas civilizações, à época quase desconhecidas uma da outra, principiara cerca de quatro décadas antes com a chegada dos portugueses ao Japão e aprofundara-se bastante nos anos subsequentes graças ao incremento das trocas comerciais e à ação evangelizadora da Companhia de Jesus, em cujo seio haviam sido instruídos e doutrinados estes quatro jovens japoneses.

Vida de japonês cristão coincide com personagem de “Silêncio”

Não muitos anos depois, nas primeiras décadas do século XVII, a situação alterou-se radicalmente, porquanto o catolicismo foi banido por completo do Japão e os Jesuítas foram vítimas de uma perseguição violenta e implacável que procurava expurgar do país qualquer influência externa. É precisamente neste contexto que decorre o filme de Scorsese, cujo argumento também assenta numa viagem épica, desta feita rumo ao Japão ao invés da viagem dos quatro fidalgos japoneses, e protagonizada por dois padres jesuítas portugueses: Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que partem em busca do mentor deles, o padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson).

Julião Nacaura, um dos jovens que veio à Europa na embaixada de 1580, e que, à semelhança de mais dois dos seus companheiros (a exceção foi Miguel, que, ao que parece, caiu mais tarde na indiferença religiosa) se tornou sacerdote jesuíta, foi precisamente preso em Nagasáqui no mesmo dia em que o foi o padre Cristóvão Ferreira (o mentor apóstata dos jesuítas no livro/filme), ou seja, em 18/10/1633. Julião Nacaura foi, na mesma altura que o seu confrade e superior hierárquico Cristóvão Ferreira, submetido à excruciante tortura da “fossa”, que visava a que o padecente renegasse a sua fé, relata o investigador Guimarães Pinto. Resistiu, porém, até morrer, com o que alcançou ser beatificado pela Igreja católica, ao passo que Cristóvão Ferreira não conseguiu resistir ao sofrimento e renegou o cristianismo, passando a viver como japonês até à sua morte em meados do séc. XVII. Europeu e de linhagem plebeia, Ferreira não fora educado segundo os padrões da rígida ética de samurai, que determina que se prefira a mais dolorosa morte a qualquer quebra à lealdade jurada.

Contributo para os estudos sobre o Humanismo em Portugal

Curiosamente neste livro reproduz-se um documento inédito, procedente do Arquivo de Simancas, em que já se vê a extraordinária têmpera moral e resistência à dor de que Julião dava mostras ainda em anos juvenis, pois, num excerto da carta do encarregado de negócios da Coroa portuguesa em Roma a Filipe I, na qualidade de rei de Portugal, descreve-se o esforço que o moço japonês, apesar de gravemente enfermo e proibido pelos médicos, fez para assistir por seu próprio pé à recepção com que o papa simpaticamente acolheu aqueles seus longínquos súbditos

“Este estudo inovador de António Guimarães Pinto, como 5.º volume do Suplemento da Ágora. Estudos Clássicos em Debate, sob a chancela da UA Editora, constitui mais um valioso contributo em prol do conhecimento do Humanismo em Portugal”, consideram os investigadores António Andrade e João Torrão, “pondo à disposição do leitor interessado os textos originais que constituíram uma das suas mais significativas manifestações, nomeadamente no que tange às relações luso-nipónicas, um tema de enorme interesse e atualidade que continua a ser objeto de atenção por parte de filólogos, historiadores, romancistas ou cineastas de renome.”

A versão integral do livro está disponível através deste hiperlink: http://www2.dlc.ua.pt/classicos/Japoneses.htm

Imagem: ©Trustees of the British Museum.

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