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Parcerias UA/ALGAplus: aquicultura sustentável
Parcerias UA/ALGAplus: aquicultura sustentável
A Ria de Aveiro foi escolhida pelas suas condições extraordinárias para um projeto único na aquicultura em Portugal. O cultivo de algas em terra surge articulado com a produção de peixe, segundo o regime de aquicultura multi-trófica integrada, conceito a reter na rentabilização e sustentabilidade destas explorações. A UA tem sido um parceiro central que procura ajudar a multiplicar as boas práticas.

Em agosto deste ano, as Ministras do Mar, da Presidência e da Modernização Administrativa e os Secretários de Estado das Pescas e do Ordenamento do Território e Conservação da Natureza, vieram a Aveiro anunciar um pacote de medidas de apoio à aquicultura,designado Aquicultura+, que o governo espera aplicar a partir de janeiro de 2017. A deslocação incluiu uma visita da delegação governamental à UA. No mês seguinte decorria, pela primeira vez em Portugal, a SEAgriculture, conferência internacional de técnicos, investigadores, empresários e investigadores sobre cultivo de algas. A jovem empresa ALGAplus foi uma das impulsionadoras e a UA foi parceira do evento.

Não foi por acaso que os dois eventos decorreram em Aveiro. A Ria é uma importante área com potencial para relançar e expandir a aquicultura em Portugal e tornar este um negócio mais sustentável e amigo do ambiente. A UA reúne as competências adequadas para ajudar os agentes económicos nesta tarefa e tem vindo a desenvolver o seu conhecimento, produção científica e o portfólio de serviços nesta área, no qual os novos centros, ECOMARE e Centro de Inovação e Tecnologia em Aquicultura (CITAQUA), são peças-chave, mas não exclusivas. A ALGAplus, instalada no concelho de Ílhavo, é a primeira empresa em Portugal a cultivar macroalgas em terra, de acordo comum novo sistema, designado aquicultura multi-trófica integrada.

Aquicultura em modo mais rentável, eficaz e amigodo ambiente

Na aquicultura multi-trófica integrada a produção de organismos vivos articula-se em cascata, considerando que em cada degrau da cascata se consomem nutrientes libertados pelo degrau anterior, contribuindo progressivamente para um efluente cada vez mais limpo. Este novo sistema de produção é apontado por Ricardo Calado, investigador e um dos coordenadores da Plataforma Tecnológica do Mar na UA, como um importante contributo para a viabilização económica das explorações aquícolas. Não só permite a diversificação da produção, como abre portas à redução de despesa na adição de nutrientes necessários à produção de algas e à redução de despesa no tratamento de efluentes. Os sistemas de aquicultura multi-trófica integrada têm vindo a ser estudado pelos investigadores da UA, sendo este um dos assuntos a estudar na nova estrutura de investigação e prestação de serviços da UA na área do mar. Estes sistemas de produção são também uma mais-valia para a investigação no âmbito do crescimento azul, acrescenta o investigador, dado que permite a produção em condições mais controladas.

Numa instalação que produz peixe na Torreira, por exemplo, foi testada a produção de salicórnia e de minhoca (serradela) usados na pesca, como forma de aproveitamento do efluente e das lamas daquela exploração aquícola. Mas este sistema pode ser usado para a produção de outros organismos vivos, nomeadamente bivalves ou crustáceos, refere ainda Ricardo Calado.

A ALGAplus tem como estratégia base da sua produção o sistema de aquicultura multi-trófica integrada, tendo-se instalado no espaço de uma outra exploração dedicada à produção de robalo e dourada em regime semi-intensivo, em Ílhavo, e usando como input a água que sai dos tanques de peixe. Esta água transporta os nutrientes de qualidade controlada necessários para o cultivo de macroalgas, imitando assim o funcionamento natural do ecossistema marinho. Em 600 m2, através de um sistema modular de produção desenvolvido na própria empresa, a ALGAplus produz cerca de 24 toneladas frescas de macroalgas de elevada qualidade, essencialmente para alimentação humana, escoando outra parte da produção para cosmética. Vendendo, principalmente, para outras empresas, a ALGAplus chega ao consumidor com as marcas Tok de Mar (produtos alimentares) e SeaOriginals (produtos de bem-estar).

Tratando-se de um mercado em crescimento, a ALGAplus necessita agora de aumentar a produção, não descartando a possibilidade de avançar para outros produtos e mercados. Por isso, promove e acolhe investigação para acrescentar valor às algas que produz, permitindo assim garantir a sustentabilidade do aumento de produção previsto. Desde logo, sabe-se que as propriedades e a concentração das substâncias constituintes de cada espécie podem ser manipuladas pelas condições de produção, apenas recorrendo a fatores ambientais (como na natureza), salienta Helena Abreu, co-fundadora da empresa e investigadora nesta área.

Pesquisa em várias frentes

O projeto internacional GENIALG – “GENeticdiversity exploitation for Innovative macro-ALGal biorefinery”, por exemplo, no âmbito do programa europeu Horizonte 2020, com início previsto para janeiro de 2017 e duração de quatro anos, procura a diversificação e o aumento da escala de produção de duas espécies de algas, estudando novos extratos e os fatores que determinam o sucesso desse aumento de escala. A ALGAplus e a UA são dois dos quase vinte parceiros, envolvendo investigadores dos departamentos de Química (DQ), Biologia (DBio) e de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo (DEGEIT), e ainda dos centros de investigação Química Orgânica, Produtos Naturais e Agroalimentares (QOPNA), CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP).

Na ALGAplus será instalado o sistema de demonstração da produção de Ulva rigida de qualidade em sistemas de esteiro, acolhendo a intervenção da UA, os parceiros nacionais Instituto de Engenharia e Gestão Industrial (INEGI) e Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), bem como equipas internacionais. Os investigadores do DQ, sob coordenação de Rosário Domingues, contribuem com a análise de compostos extraídos das algas. O DBio, presente sob a liderança de Ricardo Calado, contribui com a sua experiência no estudo da aquicultura multi-trófica integrada, da ecologia das espécies e fatores de crescimento e o DEGEIT, representado neste projeto pela equipa da investigadora Ana Daniel, transporta para a parceria o saber em gestão, valorização e comercialização de conhecimento e em análise do ciclo de vida.

Um outro projeto, a decorrer, designado SHARP – “Seaweed for healthier traditional food products”, tem como promotor a empresa Irmãos Monteiro e como co-promotores a Central Rest, a ALGAplus e a UA. Neste caso, a UA participa com o seu conhecimento na área da química orgânica e alimentar, e aplicação de Alta Pressão para processamento e preservação alimentar, sob a liderança de Artur Silva (envolvendo os investigadores Susana Cardoso e Jorge Saraiva). No projeto SEACOLORS –“Demonstration of new natural dyes from algae as substitution of synthetic dyes currently used in textile industries” (sobre pigmentos para aplicação têxtil com origem em macroalgas) – têm participado alunos de estágio e mestrado da UA, sob a orientação de Sónia Ventura.

Além destes projetos, a empresa garante a coorientação de duas alunas de doutoramento – uma do DBio e outra doDQ – e abre portas a estágios profissionais de alunos do curso de Biologia e de mestrados em Bioquímica e Biotecnologia do DQ.

Formação e investigação são peças-chave num setor jovem e que tem condições para crescer em Portugal, muito especialmente, na região de Aveiro onde tantas antigas marinhas clamam por novas oportunidades.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 26 da revista Linhas

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