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Investigação
Expedição Timor Subterrâneo
Espeleólogos da UA à descoberta do ‘lado de baixo’ de Timor-Leste
Gruta Maubakufere Maubisse - Timor-Leste
Estiveram um mês inteiro debaixo de Timor-Leste. Em setembro, a expedição Timor Subterrâneo, organizada pelo Núcleo de Espeleologia da UA (NEUA), trouxe para a superfície muitos dos segredos de cavidades, grutas e nascentes que nunca tinham sido exploradas pelos olhos da Ciência. Pelo meio, o NEUA desenvolveu ações de sensibilização direcionadas para a necessidade de proteger o património espeleológico de Timor e de promover a espeleologia num país cujo subsolo tem um enorme potencial. Timor Subterrâneo foi um êxito e, por isso, o NEUA prepara já as malas para repetir a viagem em 2017.

Quando o NEUA se propôs a organizar a expedição traçou à partida três grandes objetivos: inventariar cavidades e nascentes cársicas e efetuar os respetivos levantamentos topográficos, desenvolver ações de sensibilização no âmbito da proteção e uso sustentado do património espeleológico e promover o desenvolvimento da espeleologia em Timor-Leste. Para cumprir as missões, de Portugal viajaram Manuel Freire e Sofia Reboleira, espeleólogos do NEUA, e outros quatro especialistas nacionais do Centro de Estudos e Actividades Especiais da Liga para a Proteção da Natureza, do Centro de Investigação e Exploração Subterrânea e do Grupo Protecção Sicó.

“Os objetivos eram ambiciosos, mas todos eles se concretizaram”, congratula-se Manuel Freire, sublinhando o quão determinante foi o apoio dado pela Universidade Nacional de Timor Lorosa'e, com a qual o grupo assinou um protocolo de cooperação, pela Fundação Oriente, pela Embaixada de Portugal e pela Vodacabo, SA. Para além dos trabalhos espeleológicos desenvolvidos, descreve o coordenador do NEUA, “foram efetuadas sessões de divulgação em diversas escolas, foi dado um curso de introdução à espeleologia a alunos daquela Universidade e foram incluídos na expedição membros da associação Juventude Hadomi Natureza, podendo-se afirmar que já existem espeleólogos em Timor-Leste”.

No total foram inventariadas 52 cavidades, das quais mais de metade foram visitadas e topografadas. Embora inicialmente a expedição previsse a visita a três municípios, Baucau, Lautém e Viqueque, os espeleólogos nacionais também visitaram Maubisse. Se por um lado aumentar, diz Manuel Freire, “a área de prospeção tenha tido implicações diretas no tempo disponível para a exploração das grutas descobertas”, por outro demonstrou ser “extremamente importante uma vez que permitiu a aquisição de conhecimento em sistemas cársicos tropicais de média-alta montanha com características próprias e bem diferentes, como por exemplo, dos complexos calcários coralíferos de Baucau”. Das cavidades visitadas foram topografados mais de 1800 metros de extensão, trabalho que está a ser incluído no relatório da expedição Timor Subterrâneo 2016.

Cavidades impressionantes

“O património cársico de Timor-Leste é realmente impressionante e, consequentemente, as suas grutas também”, descreve Manuel Freire. De uma forma geral “poderia dizer que todas elas me impressionaram, umas pela sua morfologia, que demonstram inequivocamente pertencerem a grandes sistemas subterrâneos extremamente bem organizados e que com explorações e estudos sistemáticos alcançarão facilmente dezenas de quilómetros em extensão; outras impressionam pela diversidade biológica; e outras pelos vestígios, bem patentes, de ocupação humana”.

Timor-Leste tem vastas áreas calcárias e é caracterizado por um clima tropical, quente e húmido, com duas estações anuais em regime de monções. Estas características, aponta o especialista, “são determinantes para uma constante evolução do endocarso”. A grande quantidade de água precipitada durante a estação das chuvas, aliada à temperatura e coberto vegetal que atravessa antes de chegar aos calcários, cria condições ótimas para o desenvolvimento de grandes cavidades, não só em extensão como em profundidade.“Estou plenamente convencido de que em poucos anos serão descobertas cavidades na ordem das dezenas de quilómetros de extensão e algumas delas atingirão profundidades abaixo dos 1000 metros. O potencial espeleológico de Timor-Leste é enorme”, garante. Por isso, recai sobre os espeleólogos “a responsabilidade de descobrir e dar a conhecerestas maravilhosas paisagens subterrâneas”.

Um património natural que, se melhor conhecido, pode não só vir ao encontro das necessidades das populações locais no que toca ao acesso à água como constituir um grande manancial cultural e científico nas mais diversas vertentes. “Se todos estes fatores se aliarem de forma complementar e sustentada Timor-Leste irá definitivamente usufruir de todas estas mais valias que este seu património natural contém”, aponta Manuel Freire.

Nascido na partilha de informação e conhecimento nos mais diversos domínios da espeleologia, o projeto Timor Subterrâneo assume já a responsabilidade de dar continuidade a esta expedição. O NEUA tem já planeado um ciclo de formação espeleológica que irá dotar Timor-Leste não só de espeleólogos, mas também de monitores de espeleologia permitindo assim a sua plena autonomia em matérias espeleológicas. Paralelamente o NEUA continuará com a exploração e estudo dos sistemas já identificados e com a prospeção de novas áreas com intuito de se cadastrarem novas cavidades.

“Sabemos que é um projeto ambicioso, mas, tendo em conta os princípios que fizeram com que esta primeira expedição se tornasse realidade, estamos convictos de que se encontrará o devido enquadramento para que a concretização do projeto Timor Subterrâneo, no seu todo, venha a ser uma realidade”, aponta Manuel Freire.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 26 da revista Linhas

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