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Opinião
Opinião de Ana Paula Laborinho, Presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua
O Lugar da Universidade
Ana Paula Laborinho, Presidente do Camões ¿ Instituto da Cooperação e da Língua
O português é a quinta língua mais falada e está presente nos cinco continentes. É uma língua de futuro, como atesta a crescente aposta de muitos países na aprendizagem do português como língua estrangeira, e mesmo no domínio da ciência tem conseguido criar os seus próprios espaços e canais de comunicação e publicação científica, sendo por tudo isto, uma prioridade para a UA. mas qual deverá ser a melhor estratégia a seguir pelas instituições de ensino superior públicas nacionais em relação ao seu ensino? Ana Paula Laborinho, Presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, avança com algumas pistas.

Desengane-se quem considere que a missão da Universidade se cumpre como lugar de conhecimento. O mundo contemporâneo exige muito mais do que sabermos porquê e como, inscrevendo na nossa necessidade a dimensão do ser e do estar.

Não precisamos de refletir profundamente para nos confrontarmos com o apelo dúplice do local e do global. Todos nós, mais ou menos conscientemente, oscilamos entre estas duas dimensões, o que nos coloca em permanente condição de mobilidade, mesmo para aqueles que não saiam do mesmo lugar. Basta entrar num supermercado, e até numa vetusta mercearia, para encontrarmos produtos que viajaram, e nós com eles quando os consumimos. Esta cadeia pode prosseguir e adensar-se se referirmos os mundos para onde somos transportados pelos meios de comunicação, comparticular intensidade através das imagens que passámos a trazer dentro do bolso. A mobilidade passou a condição do ser e nela nos conhecemos e reconhecemos.

Vem esta constatação a propósito do tema que serve de mote a este artigo – a internacionalização – repto que me foi lançado e não poderia ser mais oportuno. O ensino superior português vem assumindo uma crescente vocação internacional, constituindo objetivo estratégico das universidades públicas portuguesas. Não podemos deixar de reconhecer que essa internacionalização começou, na nossa era moderna, com os primeiros programas Erasmus, um dos mais bem-sucedidos e consensuais programas europeus. As primeiras gerações desses programas levaram e trouxeram estudantes, e progressivamente também docentes, contribuindo para o mútuo conhecimento do espaço europeu, cruzando conhecimento e experiência e, sobretudo, preparando para o desafio da cidadania global.

Os programas europeus que se seguiram elevaram o patamar do desafio, mantendo como um dos seus objetivos a promoção do ensino superior europeu, nomeadamente por meio de programas académicos conjuntos e ainda através de parcerias com países terceiros. O mais recente programa – Erasmus+ (2014-2020), além da mobilidade para a aprendizagem, aposta na cooperação para a inovação e no apoio às reformas do sistema de ensino. Neste quadro, importa ainda referir as oportunidades que decorrem do Programa Quadro Comunitário de Investigação e Inovação – o Horizonte 2020, com um orçamento global superior a 77 mil milhões de euros para o período 2014-2020.

A mobilidade fomenta o conhecimento e o conhecimento exige a mobilidade. Parece um silogismo de simples conclusão mas que, de facto, excede em resultado as suas premissas. A criação do Estatuto de Estudante Internacional, em conjugação com o Programa Universities Portugal.com, promovido pelo Conselho de Reitores, permitiu aproveitar a capacidade científica instalada e responder à procura de um ensino universitário de excelência, seja porque os estudantes que escolhem as universidades portuguesas não dispunham de oferta suficiente ou adequada nos seus países, seja porque apostam numa formação internacional.A criação do Estatuto de Estudante Internacional veio alargar o perfil desta comunidade estrangeira, já não apenas os estudantes europeus ao abrigo dos programas de mobilidade, já não apenas os estudantes da CPLP, mas outras nacionalidades se juntaram enriquecendo o crisol de culturas e adensando os ingredientes criativos, tão essenciais à produção de conhecimento. A vinda de alunos estrangeiros propicia ainda parcerias várias e uma cooperação mais alargada entre instituições e sistemas de ensino, de que os programas conjuntos de investigação serão dos mais relevantes.

Procurei até agora sublinhar o tónico criativo que a mobilidade representa, aguçando o espírito crítico, construindo teceduras permeáveis e até disruptivas. O contacto diário com o outro, seja no papel de estudante internacional, seja no papel de estudante do país de acolhimento – releva em todos os casos uma experiência diferenciadora e, insisto, disruptiva. Se a universidade representa o lugar onde se torna necessário mover as certezas em direção ao desconhecido, esse movimento em direção ao desconhecido ganha com o confronto intelectual que um campus internacional favorece.

Cientes da importância da internacionalização, poderíamos concluir de forma simples que a língua privilegiada deveria ser o inglês, apresentada como meio de comunicação internacional e língua de ciência. Trata-se de uma visão que não temem consideração as mutações em curso e, sobretudo, tende para a utopia da língua única que acabaria com a Babel universal.

Nada mais empobrecedor e contrário à diversidade da condição humana. Sabemos que pensar numa língua é diferente de pensar em outra língua. Além disso, as línguas apresentam-se hierarquizadas em função do número de falantes, mas sobretudo em função das economias que representam. Diríamos que língua e economia se reforçam mutuamente, o que explica o crescimento do inglês como língua internacional, muito mais do que a alegada simplicidade da sua estrutura sintática.

Se considerarmos as línguas mais faladas domundo, o português coloca-se atualmente entre as cinco primeiras, a seguir ao mandarim, ao espanhol, ao inglês e ao árabe. Entre as suas vantagens como grande língua de comunicação internacional, destaca-se a sua presença nos cinco continentes o que a valoriza como língua multipolar. Se, no passado, esta dispersão do português pelos vários continentes foi considerada uma fragilidade, a crescente importância das redes e das suas intersecções tornou esta dimensão multipolar como valor fundamental.

O português é uma língua de futuro, como bem compreende a China que tem vindo a apostar na abertura de licenciaturas, tendo-se passado de três para quase 30 em menos de 15 anos. Este interesse na sua aprendizagem como língua estrangeira tem vindo a crescer: além da China, poderíamos referir a África Austral, mas também a América Latina e a América do Norte, com especial expressão nos EUA. Só no Senegal, existem atualmente 44 mil alunos nas escolas regulares, além do elevado número de estudantes na Universidade de Dacar.

Se outros indicadores são relevantes, comoa presença do português na internet (5ª), no facebook (3ª) e no twitter (5ª), importa destacar a sua posição no domínio da ciência. Como sabemos, o inglês é a língua dominante no domínio científico, mas a língua portuguesa tem conseguido criar os seus próprios espaços e canais de comunicação e publicação científica, sendo um dos mais importantes o SciELO – Scientific ElectronicLibrary Online, uma ampla coleção de revistas e artigos científicos em acesso aberto criado pelo Brasil em que participam muitos outros países latino-americanos e também Portugal e Espanha.

Aliás, este movimento de produção científica em línguas alternativas ao inglês encontra no português e no espanhol formas de mútuo reforço, potenciado pela proximidade entre as duas línguas. Este traço tem vindo, aliás, a desenvolver-se em todo o espaço ibero-americano que se estende da América Latina à Península Ibérica, com projetos de densificação da intercompreensão entre as duas línguas.

Regresso ao meu argumento sobre a utilidade do português no contexto das mudanças geopolíticas em curso. A sua posição em África e na América Latina, as redes complexas que a CPLP e o espaço ibero-americano representam, as projeções demográficas e económicas, justificam a escolha do português como língua de ciência.

Termino salientando, neste contexto, a vantagem de escolher uma universidade portuguesa. A posição estratégica de Portugal cria uma nova centralidade na relação com África e com a América Latina, além da Europa. Na sua longa tradição e experiência de importante mediador, Portugal é o único país que pertence ao mesmo tempo à União Europeia, à CPLP e ao espaço ibero-americano. Trata-se de uma posição privilegiada para observar e viver o cruzamento entre mundos. Trata-se de um lugar de onde se pode pensar e agir na complexidade contemporânea.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 26 da revista Linhas

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