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Entrevistas
Maestro e docente da UA dirige concerto final dos Festivais de Outono
“Estou plenamente convencido da boa capacidade técnica e musical dos nossos formados”
Luís Carvalho vai dirigir o concerto final dos Festivais de Outono 2016
Luís Carvalho, clarinetista, maestro, compositor e docente da Universidade de Aveiro (UA), vai dirigir o concerto de encerramento dos Festivais de Outono 2016, a 30 de novembro, no Teatro Aveirense. Ravel, Debussy, Britten, Freitas Branco, fazem parte de um programa dedicado ao impressionismo na música. Nesta entrevista, o maestro e docente apresenta o concerto, mas também fala da formação na UA. Formar um músico pressupõe educação abrangente, capacidade de trabalho, espírito de sacrifício, curiosidade, afirma.

O maestro faz parte de uma nova geração de músicos, compositores, maestros portugueses com mais reconhecimento internacional do que provavelmente qualquer outra geração anterior em Portugal. No entanto, há ainda vários problemas, como notou numa recente entrevista à revista. Neste contexto, que acha da prestação da UA no meio musical?

A minha geração foi uma das primeiras a beneficiar de uma maior sistematização e organização do ensino superior de Música em Portugal. Daí também terem aumentado significativamente os profissionais da Música no nosso país sensivelmente a partir da década de 1990, pois o aumento da oferta e qualidade desses cursos superiores motivou e incentivou muitos jovens da minha geração, que tantas vezes haviam começado a estudar Música casualmente (como foi o meu caso que me iniciei numa banda filarmónica), a optarem por uma saída profissional nesta área artística. Havia também uma esperança latente na transição para os anos 2000 que a Cultura seria uma aposta de futuro, pois estava em franco crescimento e com investimento fulgurante, tendo-se criado várias oportunidades de trabalho nomeadamente com as orquestras regionais (onde se inclui a Filarmonia das Beiras, em Aveiro) e várias escolas do ensino vocacional especializado da Música, entre outros. Entretanto, essa aposta coletiva da sociedade estagnou já longamente, e a esperança esmoreceu bastante nos últimos anos. Paradoxalmente, não só a quantidade, mas também a qualidade dos alunos de Música nas gerações mais recentes tem crescido exponencialmente. A UA, e o seu curso de Música, é simultaneamente ponto culminante e agente catalisador do percurso académico-musical dos estudantes que nos procuram, e o DeCA [Departamento de Comunicação e Arte] tem assim contribuído decisivamente para a dinamização cultural não só do meio académico, mas mesmo da cidade de Aveiro. Porém sou da opinião que há ainda um significativo caminho a percorrer, principalmente no que concerne à fixação de públicos para esta dita música “erudita”, pois parece-me faltar ainda hábitos bem enraizados de participação e colaboração cultural na sociedade aveirense.

De acordo com a sua experiência enquanto docente, formador e maestro, os formados em Música pela UA, na sua generalidade, têm dado boa mostra da sua capacidade na atividade que desenvolvem em Portugal e fora, apesar de, na sua perspetiva, as oportunidades para se mostrarem não serem muitas?

A enorme procura dos nossos cursos de Música (licenciaturas, mestrados e doutoramentos), que normalmente superam largamente a oferta, levam-nos a crer que a instituição está bem cotada no panorama nacional, e até internacional, pois temos tido diversos alunos de outras proveniências. Por outro lado, os inúmeros prémios nacionais e até internacionais que vários dos nossos alunos têm arrecadado, também atestam da elevada qualidade do nosso ensino em diversas áreas. Portanto, posso afirmar que estou plenamente convencido da boa capacidade técnica e musical dos nossos formados.

Educação abrangente, trabalho, sacrifício e curiosidade

Como se forma um músico para os dias de hoje?

Com uma educação abrangente, capacidade de trabalho e, porque não dizê-lo, com algum espírito de sacrifício, pois ser músico exige muito trabalho pessoal e longas horas de estudo individual e solitário. Também com muita curiosidade, já que a descoberta constante da(s) Música(s) valoriza-nos e faz-nos crescer enquanto artistas mais completos. E esta curiosidade deve ainda espalhar-se por outras áreas artísticas como a pintura, a literatura, o teatro, o cinema, etc., com as quais a Música partilha conceitos e estéticas.

Como deve evoluir a formação e a investigação da UA, em Música, para responder melhor aos problemas e às necessidades que se avizinham?

Não descurar a componente prática da Música, já que esta é uma arte de lavor, de artesão. A propensão para a Academia derivar numa perspetiva de dissecação teórica-histórica-sociológica das artes é grande, ainda que o prazer de discutir o objeto artístico seja legítimo. Mas não esqueçamos que o momento de centelha é o da criação da obra de arte (um quadro, uma escultura, uma composição), ou, no caso da performance musical, da recriação de uma partitura, que só existe quando executada por intérpretes. Toda a discussão teórica posterior será sempre órfã da existência prévia do objeto artístico.

Como tem evoluído o panorama musical na região desde a criação da formação em música da UA?

Não sendo eu natural de Aveiro, não tenho grande noção da realidade cultural da região anteriormente, mas parece-me assertivo considerar que um curso superior de Música, que necessariamente atraiu artistas com carreiras mais ou menos firmadas, e com elevada formação, terá contribuído decisivamente para um desenvolvimento positivo da diversidade e qualidade do panorama musical aveirense.

O maestro apresentou e dirigiu o ensemble Mr SC and the Wild Bones Gang -, concerto dos Festivais de Outono 2016, na estreia mundial da sua composição “Dodekathlon”. Quer falar um pouco desse trabalho no contexto da sua obra como compositor?

“Dodekathlon” deriva de uma encomenda do tubista virtuoso e artista de craveira internacional Sérgio Carolino, a quem também é dedicada. A sugestão do dedicatário foi para escrever uma obra de alguma forma inspirada na façanha mitológica dos 12 Trabalhos de Hércules. Assim, concebi esta peça em que a tuba solista representa obviamente o herói Hércules, e é acompanhada por um grupo de 10 trombones que representam, metaforicamente, o “chorus” do Teatro grego clássico. Tal como o “chorus” comentava com apartes a ação do teatro na Grécia Antiga, também os trombones na minha peça vão comentando musicalmente a atividade solista na tuba. Não obstante, esta minha obra não é descritiva stricto sensu, mas antes figurativa, na medida em que não há uma tentativa de descrever qualquer ação, mas antes oferecer uma abordagem musical do que desperta na minha imaginação aquela história mitológica dos 12 Trabalhos de Hércules. Um exemplo: num dos trabalhos, Hércules tem de lutar com uma cobra gigante, a Hidra de 9 cabeças; este momento é vertido musicalmente na minha obra por sucessões de acordes de 9 sons. No fundo trata-se de música abstrata, mas pontuada com elementos figurativos que derivam da minha leitura musical dos 12 trabalhos mitológicos. Esta obra representou um grande desafio para mim, pois tive de escrever para instrumentos cujas possibilidades técnicas não dominava muito bem (diversos tipos de trombones, eufónio, tuba), o que se revelou também uma enorme aprendizagem pessoal.

Programa apelativo e muito sugestivo

No encerramento dos Festivais de Outono vai dirigir a Orquestra Filarmonia das Beiras e as orquestras de Cordas e de Sopros do DeCA na interpretação de Ravel, Britten, Freitas Branco e Debussy… Será um programa todo dedicado a compositores do século XX… Que se pode o público esperar deste concerto?

Pode esperar-se um programa apelativo e muito sugestivo, não só ao ouvido, como mesmo ao imaginário de cada um, já que todas as obras são descritivas. A configuração do programa inspira-se na música francesa, e mais especificamente numa das suas correntes estéticas mais famosas, o impressionismo do início do séc. XX. Apesar de apenas dois dos compositores que iremos tocar serem franceses (Ravel e Debussy), também os outros dois compositores presentes no programa denunciam forte influência daquela estética. O português Luiz de Freitas Branco, apesar de ter estudado na Alemanha, inclinou-se, no início da sua carreira, mais para as sumptuosas sonoridades impressionistas. Aliás, o seu irmão, Pedro de Freitas Branco, foi um dos mais importantes maestros portugueses da primeira metade do séc. XX, e um aclamado intérprete de música francesa, nomeadamente Ravel. Já Britten, epígono da música inglesa do século passado, tem uma linguagem musical muito própria, mas na obra que tocaremos (4 Sea Interludes from Peter Grimes) aproxima-se do impressionismo precisamente ao procurar criar imagens sonoras descritivas de paisagens marítimas. O programa que propomos tem ainda a particularidade de emparelhar as obras por temáticas: as duas da 1ª parte inspiram-se na mitologia (Daphnis et Chloé, e Vathek), enquanto as da 2ª parte propõem visões musicais do mar (La Mer de Debussy, e o já referido Britten).

Que perspetiva diferente traz um maestro que também é clarinetista à direção de orquestra?

Nenhuma em particular, senão a minha visão única e pessoal do processo de interpretar a Música, que não depende estritamente do meu instrumento, mas é certamente influenciada por essa minha formação, e principalmente, por ter sido músico de orquestra. Clarinetista, maestro ou compositor, considero-me acima de tudo Músico, pois o que mais prazer me dá fazer é Música, e sinto-me grato com a Vida por poder fazê-lo profissionalmente.

(Grande parte desta entrevista foi publicada, simultaneamente, no Diário de Aveiro)

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