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Opinião
Opinião de Alfredo Rocha, investigador do Departamento de Física e do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar
Será suficiente a ação Humana contra as alterações climáticas? Parece que não, mas…
O investigador Alfredo Rocha
No dia que marca o início da 22.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, Alfredo Rocha, especialista em Climatologia da Universidade de Aveiro (UA), deixa o aviso: “toda a ambição e esforço Humano no sentido de reduzir as emissões de gazes com efeito de estufa e aumentar a sua captura deverão acontecer como nunca dantes aconteceu”. Mesmo que isso contribua apenas para minimizar as alterações climáticas…

O histórico acordo de Paris sobre alterações climáticas, estabelecido em Dezembro de 2015, entrou em vigor no dia 04-11-2016. A comunidade internacional comprometeu-se a reduzir emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE) no sentido de limitar o aumento da temperatura do ar média global próximo da superfície abaixo dos 2 ºC, ou mesmo 1,5ºC, até 2100.

A 22.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP22), a decorrer de 7 a 18 deste mês, em Marraquexe (Marrocos) terá como principal objetivo pôr em prática o Acordo de Paris. Um dos objetivos essenciais do acordo é a criação de um mecanismo de revisão, de cinco em cinco anos, dos compromissos voluntários dos países. A primeira revisão obrigatória decorrerá em 2025.

Mesmo que sejam aplicadas as medidas até agora previstas no Acordo de Paris, o aumento de temperatura irá atingir 3ºC. Para além de garantir que estas medidas sejam cumpridas, o que revela um nível de ambição internacional nunca observado, será ainda necessário reduzir ainda mais as emissões de GEE para que o aumento de temperatura não ultrapasse os 2ºC.

O efeito de estufa da atmosfera traduz-se numa temperatura média global do ar próximo da superfície de aproximadamente 15ºC. Na ausência da atmosfera essa temperatura seria de -18ºC, o que representa uma diferença de 33ºC. Deste modo, o efeito de estufa é benéfico à vida na Terra. Os gases atmosféricos mais importantes para o efeito de estufa são o vapor de água, responsável por até 70%, o CO2 que contribui com quase 26% e outros menos importantes como o metano o ozono, entre outros.

A emissão de vapor de água para atmosfera pelo Homem é desprezável quando comparada com aquela de origem natural. Daí a nossa preocupação com as emissões de CO2 de origem Humana. A concentração atmosférica do CO2 ultrapassou nos últimos meses a barreira dos 400 ppmv. Nos últimos 800 000 anos o valor máximo registado raramente chegou a 300 ppmv. Isto significa, portanto, que o efeito de estufa está a intensificar-se a uma taxa nunca dantes registada, e que representa, globalmente, mais efeitos negativos do que positivos.

Deve ser referido que não há registo de ter havido na história um aumento da concentração de CO2 na atmosfera e da sua temperatura em tão curto intervalo de tempo. De facto, o aumento de temperatura registado nos últimos 100-200 anos ocorreu a uma taxa (graus por ano) 10 vezes superior a qualquer aumento de temperatura observado no passado.

Para um aumento da temperatura de 3ºC, o que corresponde às ações propostas no Acordo de Paris, o degelo do gelo marinho no Ártico tornar-se-á irreversível. O mesmo acontecerá com a maioria das barreiras de corais. Degelo semelhante nas calotes polares poderá provocar uma subida do nível médio global do mar que atingirá cerca de seis metros após alguns séculos. Ocorrerão também alterações catastróficas na produção alimentar, pesca, vida selvagem e reservas de água. Um estudo recente sobre o Mediterrâneo publicado na revista Science no dia 2 de novembro de 2016 concluiu que acima de 2ºC os ecossistemas do Mediterrâneo serão profundamente transformados. No Sul de Portugal o montado dificilmente resistirá a aumentos da temperatura média global superiores a 2º C.

Baseado no histórico recente da ação climática Humana, o expectável é que, em Portugal, o aumento de temperatura média anual atinja, relativamente à era pré-industrial (1880), quase 5ºC em 2100. Relativamente a essa época, a temperatura já aumentou mais de 1ºC. Espera-se, portanto, um aumento de mais 4ºC até 2100. Em algumas regiões e épocas do ano, os aumentos podem atingir mais 6ºC, como por exemplo na região do Douro onde, no verão (julho e agosto), a temperatura máxima média poderá passar do valor atual de 26ºC para 32ºC em 2100. Isto será crítico para a produção vinícola.

O aumento da temperatura é proporcional à acumulação de GEE na atmosfera. Isto significa que o aumento de temperatura que agora se faz sentir não depende das emissões de GEE atuais mas sim do que foi emitido cumulativamente desde a revolução industrial. Por isso, mesmo que sejam tomadas agora medidas drásticas de redução de emissões de GEE, iremos observar um aumento da sua concentração atmosférica nas próximas décadas e um aumento de temperatura e nível do mar durante os próximos séculos. A figura mostra o que acontecerá à concentração de CO2, temperatura e nível médio do mar se as emissões atingirem o seu máximo dentro de poucas décadas.

No entanto, as medidas tomadas agora irão reduzir a necessidade de tomar medidas mais drásticas mais tarde de forma a atingir o mesmo objetivo.

Para não atingir o limite de +2ºC, as emissões de GEE terão de atingir o seu pico nos próximos 10 anos, atingir um valor metade do atual dentro de 50 anos e atingir emissões zero durante entre 2080 e 2100. Note-se que emissões zero não significa emitir zero GEE mas sim emitir a mesma quantidade do que aquela que se captura da atmosfera com recursos a tecnologias a desenvolver. Portanto o custo para atingir emissões zero está associado à redução de emissões de GEE e também à sua captura.

Todo a ambição e esforço Humano no sentido de reduzir as emissões de GEE e aumentar a sua captura deverão acontecer como nunca dantes aconteceu. Isto irá minimizar as alterações climáticas previstas mas não as irá eliminar dentro dos próximos séculos.

É neste sentido que deve ser interpretado o Acordo de Paris, mesmo que as metas previstas não sejam realistas.

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Não é provável que as emissões de GEE atinjam o máximo nos próximos 11 anos (NEO, 2016).
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