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Entrevistas
Professor UA - Ricardo Dias, Departamento de Física
“A abrangência da investigação realizada no Departamento de Física permite-nos coordenar e participar em formações multidisciplinares”
Ricardo Dias, docente do Departamento de Física
É professor na Universidade de Aveiro (UA) há quase 20 anos e o seu maior desafio enquanto docente é ensinar física de forma simples. Ricardo Assis Guimarães Dias, 47 anos, dá aulas de Física Matemática (FM) e Complementos de Mecânica e Eletromagnetismo (CME) aos alunos da licenciatura em Física e do Mestrado Integrado em Engenharia Física, bem como de Complementos de Mecânica Quântica (CMQ) aos do Mestrado em Física. É também vice-diretor do Departamento de Física e coordenador do Grupo Teórico e Computacional do Laboratório Associado I3N – Aveiro.

Licenciou-se em Física (Ramo de Especialização Científica em Estado Sólido e Ciências de Materiais) na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto em 1991. No ano seguinte, iniciou Doutoramento em Física Teórica da Matéria Condensada no Interdisciplinary Research Centre (IRC) in Superconductivity, na Universidade de Cambridge. Terminou-o em 1996. Após um Pós-doutoramento muito curto e um período ainda mais curto em que foi Professor no Departamento de Matemática da Universidade de Évora, chegou à UA para aqui ser professor em 1997.

Os seus interesses de investigação incluem a supercondutividade em sistemas de baixa dimensionalidade e a física de sistemas eletrónicos fortemente correlacionados. “Tenho particular interesse nos efeitos da frustração geométrica nas propriedades magnéticas e de transporte à nanoescala”, adianta (http://uaonline.ua.pt/pub/detail.asp?c=44749)

No Departamento de Física (DFis) da UA, Ricardo Dias leciona atualmente a Unidade Curricular (UC) Física Matemática (FM) e a UC Complementos de Mecânica e Eletromagnetismo (CME) aos alunos da Licenciatura em Física e do Mestrado Integrado em Engenharia Física. Leciona também a UC Complementos de Mecânica Quântica (CMQ) aos alunos do Mestrado em Física. “Estas UCs têm conteúdos muito interessantes, o que me motiva para respetiva lecionação. Por exemplo, ensino integração no plano complexo em FM, relatividade em CME e entrelaçamento quântico em CMQ”, explica.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes da UA no(s) curso(s) a que está ligado?

A oferta formativa do DFis tanto ao nível da formação inicial (Licenciaturas e Mestrados Integrados) como da pós-graduação (Mestrados e Programas Doutorais) reflete a abrangência da investigação realizada pelos docentes do DFis. As áreas científicas do Departamento cobrem um espectro muito largo, da Nanofísica à Cosmologia e incluem também áreas interdisciplinares e multidisciplinares como a Física Médica e a Oceanografia. Esta abrangência permite-nos coordenar e participar em formações multidisciplinares como são exemplo os novos Mestrados Integrados em Engenharia Computacional (MIEC) e em Engenharia Biomédica (MIEB)  ou as Licenciaturas em Meteorologia, Oceanografia e Geofísica e em Ciências do Mar http://www.ua.pt.

Em particular, o MIEC é uma formação única em Portugal, apesar de já existir com grande sucesso nas melhores universidades europeias e norte-americanas. Esta formação surge primeiro na UA, e na minha opinião, isso deve-se à relação de proximidade que existe entre os vários departamentos de Engenharia e das Ciências Exatas na UA.

A qualidade da nossa formação é elevada e há vários fatores que atestam essa qualidade. Por exemplo, o DFis é responsável pelo único Mestrado Integrado em Engenharia Física (formação com longa tradição no nosso Departamento) com a marca de qualidade EUR-ACE (European Accredited Engineering Masters) atribuída conjuntamente pela Ordem dos Engenheiros e European Network for Accreditation of Engineering Education (ENAEE). A qualidade deste Mestrado Integrado é também reconhecida pelas empresas, que financiam várias bolsas de mérito anuais para os melhores alunos que ingressam nesta formação.

Nos últimos anos dos nossos cursos, os alunos são integrados em grupos de investigação e trabalham em laboratórios avançados, dos melhores que existem em Portugal. E aqui é importante salientar que a grande maioria dos docentes do DFis está integrada em unidades de investigação que mereceram a classificação de excecional ou excelente na última avaliação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Aliás, a investigação de grande qualidade é uma característica da UA no seu todo.

A relação de grande proximidade entre docentes e alunos é um outro fator que distingue a UA de outras Universidade em Portugal.

Como define um bom professor?

Qualquer definição de bom professor é necessariamente subjetiva. No entanto, há características que são óbvias como a capacidade de captar a atenção dos alunos (uma aula implica comunicação entre professor e alunos, e se nenhum aluno ouvir o professor, todas as qualidades do discurso do professor são irrelevantes).

No contexto do ensino da física, o que mais valorizo num professor é a capacidade de transmitir, de forma simples, conceitos que parecem à partida muito complexos. Eu tento em todas as minhas aulas que os alunos consigam ver a simplicidade da Física que existe para além do formalismo matemático.

O que mais o fascina no ensino?

A ciência é um jogo de equipa em que os jogadores de hoje se apoiam nas contribuições daqueles que os antecederam (como dizia Newton, não exatamente por estas palavras). E este é um jogo em que, na minha opinião, o lema “o que interessa é participar” se aplica (apesar da exigência dos dias de hoje obrigar muitos cientistas a encarar a ciência de forma competitiva). Com isto quero dizer que a continuidade que resulta da transmissão de conhecimentos entre gerações é essencial para a evolução da ciência e, quando ensino, eu tenho consciência de que estou a desempenhar o meu pequeno, mas importante papel.

 

As formações em física são abrangentes e permitem percursos variados

Que grande conselho daria aos seus alunos?

Os conselhos que eu dou dependem dos alunos a que se destinam. Mas talvez o mais geral seja que tenham vistas largas, pois as formações em Física permitem-lhes precisamente isso. E não resisto a citar um grande Físico do século XX, Phillip W. Anderson, que contra a visão reducionista da Física, afirmou “More is different”. Este “More” pode e deve ser estendido de forma a incluir a interface da Física com as outras áreas científicas, pois também aí os Físicos podem dar contribuições importantes.

Houve alguma turma que mais o tivesse marcado? Porquê?

Todos os meus alunos me marcaram de uma forma ou outra e lembro-me ainda do nome de alunos que tive há quase 20 anos. No entanto, gostaria de lembrar a geração de 2002 dos alunos da Licenciatura em Física (o 1º grupo de alunos após um interregno de alguns anos em que esta formação não foi lecionada). Este era um pequeno grupo de alunos, mas todos eles se doutoraram em Física e após o doutoramento, seguiram percursos muito diferentes em Portugal e internacionalmente. Um destes alunos escreveu ainda um livro de Daily Jokes (http://www.bubok.pt/livros/4358/Daily-Jokes-O-Livro) sobre o dia a dia no Departamento de Física, livro que recomendo. Este ano, a licenciatura em Física não abriu vagas (para grande pena minha) e parece-me apropriado relembrar estes alunos (e também os que se seguiram).

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Durante alguns anos, dei uma palestra sobre mecânica quântica na Escola de Verão da UA a alunos do ensino secundário.

Nesta palestra, abordava tópicos variados como as interpretações da mecânica quântica ou a supercondutividade. E abordava em particular o teletransporte quântico.

Numa das vezes que falava sobre o teletransporte quântico, um aluno intervém e diz-me que já leu sobre o assunto e que em particular, tinha lido que um grupo de investigação já tinha conseguido teletransportar um grão de arroz (mas um pouco queimado).

Eu procuro esclarecer o rapaz, dizendo-lhe que o teletransporte de massa é impraticável. No teletransporte quântico, fazemos o teletransporte do estado quântico, não da massa.

Ao que o aluno me responde:

- Pois professor, a massa não, mas o arroz…

descrição para leitores de ecrã
Leitor compulsivo e amante de cinema, Ricardo Dias admite que gostaria de passar pela experiência de “Living off grid”; um novo estilo de vida, livre de todos os recursos e novas tecnologias.

Traço principal do seu carácter

Acho que, sem falta de modéstia, posso descrever-me com uma pessoa ponderada.

Ocupação preferida nos tempos livres

Gosto muito de ler (até aos meus 20 anos era um leitor compulsivo) e de cinema, mas é cada vez mais difícil ter tempo para estas atividades. Felizmente, desde criança que gosto também muito de banda desenhada (norte americana, europeia, japonesa, coreana, etc., não discrimino na origem) e esta ocupação requer muito menos tempo que as duas primeiras.

O que não dispensa no dia-a-dia

Um dos pontos altos do meu dia é ir buscar os meus filhos à escola.

O desejo que ainda está por realizar

Pode parecer um pouco contraditório para quem me conhece e sabe em particular que transporto dois portáteis na minha mochila e que trabalho com 3 monitores/computadores simultaneamente no meu gabinete, mas eu gostaria de experimentar aquilo que em inglês se chama “Living off grid”.

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