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Opinião
Miguel Estanqueiro Rocha, docente do DCSPT e especialista em relações e organizações internacionais
Guterres e a ONU
Miguel Estanqueiro Rocha
O drama sírio, a tragédia dos refugiados, a instabilidade do Médio Oriente, a tensão entre a Rússia e o Ocidente, as alterações climáticas, as doenças infectocontagiosas, as novas ameaças do terrorismo e a revitalização da ONU aguardam por António Guterres. Em artigo de opinião, Miguel Estanqueiro Rocha, professor no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, garante que "em tempos de grande incerteza e conflitos que parecem insanáveis" o novo secretário-geral da ONU é mesmo a pessoa certa para o mundo incerto em que vivemos.

A escolha de António Guterres para o cargo de Secretário-Geral da ONU, após um longo processo de audições, debates e votações, e ultrapassando um obstáculo de última hora, com a candidatura fracassada da búlgara, Kristalina Georgieva, deixou o país em júbilo: pela primeira vez, um português foi escolhido para liderar as Nações Unidas, sendo o primeiro europeu que ocupará este cargo desde 1981 e o nono Secretário-Geral.

O mérito do candidato demonstrado ao longo das várias fases deste processo, demoradoe meticuloso, foi o factor preponderante para esta honrosa distinção, mas não podemos obliterar o trabalho competente de bastidores da diplomacia portuguesa, que soube congregar os apoios necessários que tornaram inevitável esta eleição, mesmo quando enfrentaram uma manobra desastrosa, por parte da diplomacia alemã e com o favoritismo da Comissão Europeia.

Humanista cristão com fortes preocupações sociais, cosmopolita, com um enorme à vontade nas relações internacionais, um novo desafio estimulante se coloca a António Guterres: como revitalizar uma organização estagnada, após anos de liderança inerte do actual Secretário-Geral, Ban Ki-Moon?

É preciso relembrar que a margem de manobra de um Secretário-Geral da ONU encontra-se sempre limitada pelo poder das potências dominantes – em especial os Estados Unidos e a Rússia – e a agenda do futuro líder da ONU terá de ter em conta esta crua realidade da política internacional; no entanto, a sua visão reformista para o futuro da organização, o conhecimento da máquina burocrática da ONU desde os períodos em que liderou o ACNUR, o sentido de missão demonstrado por Guterres ao longo do seu percurso pessoal e profissional, a pregnância do diálogo, a capacidade de gerar consensos, a sua eloquência persuasiva, fazem deste nosso distinto compatriota quem melhor pode liderar a ONU, em tempos de grande incerteza e conflitos que parecem insanáveis. 

A tomada de posse a 1 de Janeiro de 2017 será um tempo novo, no qual Guterrespoderá começar a deixar a sua marca nas Nações Unidas. A tragédia dos refugiados à qual se dedicou de alma e coração, nestes últimos dez anos, será, de certeza, uma das suas prioridades; todavia, questões como o drama sírio, a instabilidade crónica do Médio Oriente, a tensão entre a Rússia e o Ocidente, para além das alterações climáticas, doenças infectocontagiosas, as novas ameaças do terrorismo, entre outras, serão causas que o tomarão por inteiro, porque uma organização como a ONU é decisiva na procura de soluções para os dramas que atingem o nosso planeta.

A reforma do Conselho de Segurança será um outro dossier para o mandato quinquenal, embora pareça pouco provável que se alcance um acordo que permita o alargamento dos membros permanentes a outros Estados, essencial para uma ONU operante. 

Por último, para Portugal, esta nomeação simboliza mais um momento de prestígio internacional. A nossa vocação europeia, atlântica e lusófona, alcança um patamar verdadeiramente universalista, sendo que um pequeno país pode ter uma “presença” no mundo superior à sua dimensão territorial.

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