conteúdos
links
tags
Entrevistas
Professor UA - Fernão Abreu, Departamento de Física
Novo curso de Engenharia Computacional promete fazer mexer o futuro
Fernão Abreu
É o coordenador de uma equipa de professores que pela primeira vez em Portugal vai pegar na física, na matemática e na informática e transformá-las em ferramentas que permitam aos estudantes desenvolver e utilizar software que estude, modele e simule fenómenos naturais. Chama-se Fernão Abreu e é diretor do Mestrado Integrado em Engenharia Computacional (MIEC), um curso inédito no país com estreia marcada para o próximo ano letivo no Departamento de Física (DFis) da Universidade de Aveiro (UA) e que permitirá a um vasto leque de empresas suprimir a carência de especialistas na modelação e simulação computacional e no tratamento de grandes quantidades de dados.

Professor na UA há 18 anos, especialista em Simulação e Modelação, o responsável pelo MIEC  que a par do Mestrado Integrado em Engenharia Biomédica é um dos dois novos cursos do DFis e uma das novas formações da UA, é licenciado em Engenharia Física e Tecnológica e tem um Mestrado em Física da Matéria Condensada. Fernão Abreu tem também um doutoramento em França (Grenoble e Paris) onde desenvolveu uma teoria “para a compreender o aparecimento de supercondutividade a alta temperatura”.

Na UA, onde além da docência se tem dedicado à investigação em áreas interdisciplinares, Fernão Abreu procura atualmente respostas para os fenómenos que levam as fibras helicoidais a entrelaçarem-se – área onde tem uma patente em preparação – e está, ainda, a desenvolver um modelo para explicar como o sistema imunitário adaptativo é ativado. Este segundo tema de investigação tem também aplicações em inteligência artificial e na prospeção de dados e, por isso, tem já uma patente submetida nos EUA.

Como define um bom professor

Hoje os professores podem ter múltiplas funções enquanto docentes. Mas de uma forma geral penso que o papel principal de um professor é o de ser um influenciador, um advogado dos conhecimentos importantes. O bom professor é aquele cria nos outros a vontade de aprender certos conhecimentos. A motivação é talvez o mais importante na aprendizagem.

Neste sentido o MIEC, por ser o primeiro curso do género no país, vai precisar de toda a motivação possível…

É um desafio para todos os docentes envolvidos. Já tivemos um primeiro feedback por parte da comissão de acreditação do curso, que achou a proposta inovadora e muito relevante do ponto de vista formativo e de emprego. Mas o maior desafio vem a seguir. Em primeiro lugar, temos que entusiasmar os candidatos ao ensino superior. Depois temos que os motivar para que venham a ser profissionais de referência. Aliás, eu acredito tanto no MIEC que penso que muito em breve as melhores universidades do país terão cursos semelhantes dada a lacuna no mercado de trabalho de profissionais com estas competências. E se isso acontecer isso mostrará que teremos influenciado e dado um contributo importante para todos. Teremos conseguido cumprir bem o nosso papel.

O que mais o fascina no ensino?

Esta profissão oferece a possibilidade (senão mesmo a obrigação!) de inovar, inventar ou descobrir todos os dias. A nossa função é pensar e repensar, nem que seja na forma de transmitir conhecimentos. Eu conheci uma investigadora famosa em Inglaterra que, já com 80 anos, assistia a seminários todas as semanas e perguntei-lhe o que a motivava a vir aos seminários. Ela respondeu-me que para ela, um bom seminário poderia ser tão agradável quanto um concerto de piano; que gostava de sentir o entusiasmo dos apresentadores e que se fascinava com as descobertas. Quando assisto a um bom seminário penso sempre nas suas palavras e creio que a maior parte dos alunos com que trabalhei a nível de projetos e teses fica também para sempre com este ‘bichinho’, porque ele é transversal a muitas áreas. O conhecimento está por toda a parte e as novas ideias também e são sempre fascinantes.  

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes nos cursos aos quais está ligado?

Eu tenho estado ligado principalmente à Engenharia Física e de futuro estarei muito ligado à engenharia computacional. Tenho sido o principal responsável pela disciplina de simulação e modelação. Trata-se de uma disciplina que não tive no meu curso porque hoje qualquer jovem tem um computador com enorme poder de cálculo, coisa que no meu tempo de aluno não se podia exigir a qualquer aluno. Nesta disciplina os alunos tornam-se competentes a usar os computadores para resolver problemas práticos que envolvam modelação. É uma disciplina integradora, que utiliza técnicas e conceitos de todas as outras disciplinas do 1º ano. Os alunos acabam a fazer interfaces gráficas que qualquer pessoa poderia utilizar. Eu diria, que à semelhança desta disciplina, a formação dada hoje tem evoluído muito, e numa perspetiva de pôr os alunos com “as mãos na massa”. Acho que hoje os alunos não podem dizer que o que cá fazem não lhes serve para nada. Por vezes poderão é queixar-se que os empregos poderiam ser mais estimulantes, mas sentirem isso não é mau, e só mostra que têm a capacidade para um dia destes nos surpreender com novidades.

Que grande conselho daria aos seus alunos?

Em economia há um conceito que acho interessante que é o de efeito multiplicador: por exemplo, os empregos criados por uma nova fábrica são muito mais do que aqueles que ela gera diretamente. Eu penso da mesma forma quanto às decisões que vamos tomando ao longo da vida: há decisões que nos abrem muito mais portas do que outras. Assim, o melhor conselho que lhes posso dar é que pensem em termos de efeitos multiplicadores quando tomarem decisões, e lembrem-se também que não decidir é uma forma de decidir. O MIEC procura ter isto em atenção, pois, para além de ser um curso com disciplinas de vários departamentos, proporciona no 3º e 5º anos que o aluno trabalhe num projeto e numa tese com um docente de qualquer departamento da universidade. Isto oferece aos alunos enorme liberdade e a possibilidade de tomarem decisões maduras, adequando a formação aos seus interesses. Quando os alunos têm o potencial de toda uma universidade ao dispor isto só pode aumentar as suas probabilidades de sucesso.

Houve algum grupo de alunos que mais o tivesse marcado? Porquê?

Sem dúvida que os alunos que trabalham comigo diretamente nos projetos e teses são os que me marcam mais, principalmente se forem muito motivados.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Passou-se há poucas semanas, aquando da vinda da comissão de avaliação do curso de Engenharia Física. A comissão, de que fazia parte um avaliador irlandês, perguntou-nos porque não dávamos aulas em inglês, dado que tinha reparado que ao falar com os alunos do curso eles se exprimiam muito bem em inglês. Confesso que na altura fiquei um pouco admirado e que pensei que os alunos tinham sidos escolhidos a dedo. Mas no dia seguinte eu tive apresentações orais dos alunos do 1º ano em Simulação e Modelação. Como temos um docente cuja língua materna é o inglês, calhou em conversa a conversa com o avaliador, e a certa altura os alunos foram incitados a apresentarem os trabalhos em inglês. Ficámos admirados, pois sem preparação os alunos apresentaram os trabalhos tão bem quanto o teriam feito em português!

imprimir
tags
outras notícias