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Entrevistas
Professor UA – José Carlos Pedro, Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática
Um professor mundialmente premiado ao serviço do ensino da Electrónica e das Telecomunicações
José Carlos Pedro
O trabalho de excelência enquanto professor e investigador na área da eletrónica de radiofrequência valeu-lhe um dos maiores prémios mundiais para professores. Chama-se José Carlos Pedro, é docente no Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da Universidade de Aveiro (UA) e, em junho, a Microwave Theory and Techniques Society do Institute of Electrical and Electronics Engineers, IEEE, a mais importante e representativa organização mundial de promoção do conhecimento nos campos da engenharia eletrotécnica e eletrónica, atribuiu-lhe o prémio Distinguished Educator Award. Foi a terceira vez que o IEEE premiou este professor da UA.

Licenciado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações (atual Mestrado Integrado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações) pelo DETI e doutorado em Engenharia Eletrotécnica, também naquele Departamento, José Carlos Pedro, em 2007, foi eleito pela IEEE Fellow Member e, em 2014, nomeado pela mesma associação como Distinguished Microwave Lecturer.

Professor da UA há três décadas, José Carlos Pedro é também investigador no Instituto de Telecomunicações, unidade de investigação da UA onde chefia o grupo de Sistemas e Circuitos de Rádio-Comunicações.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no(s) curso(s) a que está (esteve) ligado?

Não obstante ser usual o tratamento indiferenciado de informação e conhecimento, eles são muito diferentes. A informação é aquilo que transmitimos aos alunos. O conhecimento é o que resulta do processamento que o aluno faz da informação que lhe transmitimos. Ora, eu acredito que deveria centrar-se neste conhecimento a medida de eficácia do processo de ensino-aprendizagem. Como tal, é difícil responder à questão em abstracto, pois ela depende muito do docente e, fundamentalmente, do discente. O que posso afirmar com certeza é que, usando como métrica o que já vi em outras escolas nacionais e estrangeiras, a informação específica passada aos nossos alunos de Engenharia Electrónica e Telecomunicações em nada fica atrás da que é transmitida nas outras escolas.

Qual é o segredo para se ser um bom professor?

Um bom professor tem que ser, antes de mais, uma boa pessoa, do ponto de vista humano. Depois, tem que, naturalmente, interrogar-se sobre tudo o que aprendeu e sobre tudo o que ensina, para que possa acreditar profundamente nisso. Sim, tal como nós próprios, os alunos detectam facilmente as nossas dúvidas. Finalmente, tem que ter um discurso e raciocínio organizados por forma a transmitir a informação de forma clara e cativante.

Isto é o que, para mim, faz um bom professor. Agora, para alguém ser um excelente professor, para além de ter todos os atributos de um bom professor, tem que ser um comunicador por excelência e ter, ele próprio, criado algum do conhecimento que ensina. Na verdade, é isso que, em última análise, o distinguirá de todos os outros bons professores.

O que mais o fascina no ensino?

O contínuo desafio intelectual. Nada melhor que um grupo de alunos – em particular se for bom – para nos questionar constantemente. Há quem diga que o contacto com gente nova nos atrasa o envelhecimento. Não sei se isso será verdade. Mas, pelo menos, é um forte opositor à preguiça do cérebro.

Que grande conselho daria aos alunos?

Questionem-se continuamente, por forma a desenvolverem sentido crítico! Só assim poderão construir uma opinião própria, exercendo na plenitude as vossas funções profissionais mas, sobretudo, as humanas e de cidadania.

Houve algum grupo de alunos que mais o tivesse marcado? Porquê?

Bem, eu diria que não. Em todos os grupos de alunos há alunos interessados, isto é, curiosos, – e que, por isso, se tornam interessantes – como os há desmotivados. Recordo-me, no entanto, de um curso breve de doutoramento que deveria dar a sete alunos da Universidade de Oulu, na Finlândia, onde me deparei com cerca de vinte alunos. Quando perguntei quem eram aquelas outras pessoas, explicaram-me que, sendo tradição da Universidade de Oulu abrir este tipo de cursos especializados à comunidade, a maioria da assistência vinha da indústria local (em particular da Nokia Siemens Networks). No final do curso de uma semana fui convidado a visitar a divisão de investigação da empresa onde tive a agradável surpresa de saber que alguns dos meus “alunos” eram investigadores em processamento de sinal, e que tinham formação em matemática, e não em engenharia electrotécnica, como inicialmente poderia imaginar. Fiquei satisfeito em saber o esforço que aquelas pessoas devem ter feito para não só deixarem o seu trabalho na empresa, por uma semana, como para tentarem obter a máxima informação possível numa área para a qual certamente não teriam preparação.    

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Provavelmente, a minha memória já não é muito boa, pois não consigo recordar-me de nada de significativo. Ou então a experiência docente foi-me ensinando a relativizar quer o que de mais positivo e de negativo me foi acontecendo nestes trinta anos de ensino. Há talvez um episódio que me aconteceu enquanto ainda era um jovem professor, e, certamente, quando este tipo de eventos ainda deixavam alguma marca. Tratou-se de um aluno que me interpelou numa aula apontando para um suposto erro que teria dito. O que, a ser verdade, não constituiria nada de extraordinário, e, portanto, digno de ficar retido na memória.

O que tornou o caso mais estranho foi que, nesse caso era o aluno que não tinha percebido, o que tentei resolver rapidamente mostrando-lhe o raciocínio que suportava a minha afirmação. O episódio só tomou proporções dignas de memória quando o aluno, muito convencido da sua razão, se virou para mim negando o meu raciocínio, mas sem ser capaz de lhe identificar qualquer falha. Perante isto, retorqui dizendo-lhe que não se deveria mostrar demasiado surpreendido já que, por vezes, temos convicções que só são questionadas quando confrontadas com um raciocínio lógico.

Na verdade, agora sei – e ensino-o na disciplina de Seminário aos nossos alunos de doutoramento – que a capacidade que a Ciência tem de nos mostrar como o senso comum pode por vezes estar errado, é uma das suas grandes vantagens. Infelizmente, o aluno, que não deveria estar nos seus melhores dias (dias destes tanto lhes acontecem a eles, alunos, como a nós, professores), ripostou, de uma forma algo deselegante, que não era por não conseguir apresentar uma falha ao meu raciocínio que teria que o reconhecer como certo. Na verdade, acrescentou algo como “… e vou prová-lo, pois com a matemática que sei sou capaz de provar qualquer coisa!”. Nesta altura, achei que a inconsequente discussão intelectual poderia converter-se num desafio de autoridade. E, como acredito que a minha autoridade me vem do meu conhecimento e raciocínio, disse-lhe que a próxima aula começaria com a sua demonstração do meu erro.  Na aula seguinte, assim fiz, pedi-lhe que fosse ao quadro apresentar à turma as suas conclusões. Um pouco embaraçado respondeu que se teria esquecido. E eu disse-lhe que não se esquecesse de o fazer na próxima aula.  Certo é que, interpelado mais uma vez no início da aula seguinte, teve que confessar e pedir desculpa – a mim e aos seus colegas – pela atitude destemperada que teve.

E uma situação mais feliz?  

Mas, para não acabar estas linhas com uma situação menos boa, vou contar uma outra, de que me recordei enquanto descrevia a anterior. Numa outra aula, bem mais recente – há uns 8 anos – fiz uma brincadeira que, por vezes, faço nas aulas e que serve para as tornar mais animadas. A talhe de foice do que estávamos a tratar, coloquei uma questão à turma dizendo que oferecia um almoço ao aluno que soubesse a resposta. Bem, tive um que me respondeu correctamente, e que, por isso, ficou conhecido entre os seus pares como quem foi almoçar ao restaurante Refúgio convidado pelo professor.

Mais uma vez, tal evento se apagou da minha memória, até que, um belo dia, uns 5 anos depois, um meu aluno de pós-graduação me contou esta história e me perguntou se me recordava. Confessei que sim, que tinha uma vaga ideia do que se tinha passado, mas que não me recordava mais do aluno. Ao que ele respondeu: “Mas eu recordo-me muito bem, pois esse aluno era eu!” Parece que esse episódio, aparentemente inconsequente, veio a cativar mais um jovem para a Ciência. Hoje é um investigador doutorado num laboratório de uma multinacional em Estocolmo, Suécia.

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