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Entrevistas
André Santos, formado em Estudos Chineses, ensina português na Ásia
Antigo aluno da UA num 'ying yang' "arrebatador"
André Santos ensina na zona oriental da China
Antigo aluno do Mestrado em Estudos Chineses (MEC) da Universidade de Aveiro (UA), André Santos ensina português na Jilin Huaqiao University, em Changchun, a norte da península coreana. André Santos foi também aluno do curso de Línguas e Relações Empresariais, tendo aí obtido o primeiro contacto com o Mandarim. Eis um dos antigos alunos do Mestrado que levou a sério o fascínio por este país que nem com duas vidas seria possível percorrer metade do caminho para o conhecer na totalidade, como diria um professor seu, António de Graça Abreu. A quem se quiser aventurar naquele imenso e tão diversificado país, André sugere informação e formação, para além de não dever esquecer o termo "guanxi", cuja tradução mais simplificada é a relação entre as pessoas.

Porque escolheu o Mestrado em Estudos Chineses da Universidade de Aveiro?

Na minha licenciatura tive a oportunidade de entrar em contacto com a língua e a cultura chinesa e, logo nas minhas primeiras aulas, percebi que esta língua iria fascinar-me e decidi que o meu caminho académico e profissional iria passar por esta área. Assim aconteceu. Após finalizar a minha licenciatura, fui informado pela professora Wang Suoying que a UA oferecia a possibilidade de explorar ainda mais o mundo chinês através do MEC. Foi a melhor notícia que podia receber naquela altura e procedi à minha candidatura ao MEC.

Ambicionava ir trabalhar para a China antes de terminar a formação na UA?

Trabalhar ou estudar na China foram sempre possibilidades que tentei explorar ao longo do meu Mestrado. No entanto, essa tarefa não se revelou nada fácil. No primeiro ano do meu mestrado decidi que iria ficar por Aveiro para completar a minha formação nas disciplinas extremamente aliciantes que o MEC oferece, ao mesmo tempo que ia trabalhando em São João da Madeira como professor de mandarim e em outras escolas/centros de formação. No segundo ano, tentei explorar as minhas opções no segundo semestre (nomeadamente com a Universidade de Macau), mas a falta de protocolos que enquadrassem o intercâmbio de alunos do MEC para essa universidade ou o estado de “congelamento” por parte dos mesmos, que se verificava nesse período, fez com que visse adiada a minha ida para a China.

Em que moldes a formação na UA terá contribuído para a atividade que desempenha atualmente?

Todo o meu percurso académico na UA contribuiu imenso para a função que desempenho hoje. A aprendizagem da língua, o estudo da cultura do povo chinês e a forma como a mesma influencia o comportamento organizacional, a aquisição de experiência no ramo da formação e da educação assim como a oportunidade de trabalhar com colegas de profissão chineses, foram bases importantíssimas que recebi nos meus cinco anos de formação na UA e que ainda hoje se revelam essenciais para o cumprimento do que me é exigido como professor na China.

Como surgiu a oportunidade de ir trabalhar para a China?

Todo o aluno que queira entrar no mundo chinês irá estudar, certamente, estes dois caracteres: ?? (guanxi), o que numa tradução muito simples se pode definir como a “relação” entre as pessoas. Foi através da minha rede de contactos que fui informado que poderia ter essa oportunidade de trabalhar na área de educação na China. Em qualquer parte do mundo, e principalmente na China, as relações entre as pessoas são de uma importância fulcral e, por isso, quanto maior for a nossa rede de contactos mais portas se podem abrir tanto ao nível das amizades como da nossa profissão.

Presumo que ensine Português na China… Como é ensinar na China?

É uma experiência totalmente diferente da que se tem no ocidente. Da experiência que consegui retirar deste ano que passou, na minha universidade, e também após reflexões com outros professores estrangeiros e conversas com os meus alunos, chego à conclusão de que os alunos chineses, no ensino intermédio, recebem uma educação muito baseada na memorização. No que diz respeito à oralidade, são poucos aqueles que se sentem com confiança para falar ou iniciar uma conversa com um estrangeiro, pois também têm muito medo de cometer algum erro gramatical ou de pronúncia. É nossa função transmitir-lhes que a língua estrangeira tem de ser oralmente praticada e que o medo de errar tem de desaparecer, pois é perfeitamente natural cometer falhas quando estamos a iniciar a aprendizagem de uma língua não materna. O mais curioso é que todos eles têm presente na sua memória um provérbio chinês que me ensinaram e que, sucintamente, significa que uma pessoa aprende com os seus próprios erros. Creio que no caso dos alunos chineses trata-se de colocar em prática aquilo que eles sabem na teoria.

“Ninguém sai da China indiferente”

É difícil para um português a adaptação a uma cultura tão diferente?

Tendo recebido formação anterior sobre os costumes, hábitos e tradições do povo chinês, o choque inicial não foi tão forte. Contudo, apesar de recebermos a melhor das formações, eu considero que é a experiência no local que vai influenciar a nossa perceção sobre o país, a região ou a cidade onde vivemos. Na cidade onde vivo (e falando somente neste caso em específico, pois Changchun dificilmente representa toda a China) existem contrastes bem marcados. Ora encontramos pessoas extremamente simpáticas que nos querem ajudar em tudo o que podem, voluntariando-se para resolver situações de aperto, ora encontramos taxistas arrogantes que nem sequer tentam perceber o que nós estamos a tentar explicar-lhes em mandarim, para não falar naqueles que nos subornam e que nos dão o troco errado (no inicio confiava no troco que me davam, até ao dia em que me apercebi que fui enganado por uma quantia absurda por um desses larápios versados nessa arte). Tanto é provável que se encontrem jovens em transportes públicos que se levantam para dar o seu lugar a pessoas necessitadas e até mesmo a um estrangeiro em perfeito estado de saúde, como também é alta a probabilidade de encontrarmos indivíduos que fingem que não vêem a velhinha corcunda extremamente cansada e que acabou de entrar no veículo com uma sacola quase maior do que ela, ou até mesmo mulheres grávidas que têm de aguentar a viagem inteira, em posição vertical, até ao seu destino não esquecendo a soma dos longos minutos que se passam nos engarrafamentos de Changchun que são tão certos como a neve que cai aqui todos os invernos.

Estes acontecimentos quotidianos que relato aqui, são apenas uma pequena gota num imenso oceano de experiências que retiramos da vivência desta cidade no nordeste da China, onde o lado bom e, por vezes, o menos bom, andam de mãos dadas. Qualquer estrangeiro que venha para este lado do mundo, terá de vir preparado para este ying yang arrebatador, e uma coisa é certa - ninguém sai da China indiferente. 

Que conselhos daria a alguém que quisesse ir trabalhar para a China?

Se possível, que receba formação e se informe junto de quem conhece bem a China antes de se lançar no mercado de trabalho chinês. O “pára-quedismo laboral” que muitos portugueses fazem (e muitas vezes com sucesso) por muitos países da Europa, aqui na China pode ter efeitos contraproducentes. Informação e conhecimento sobre a língua, o país e as suas gentes, são ferramentas fundamentais que não podem ser negligenciadas.

A China é um país gigantesco… Dificilmente alguém que chega de fora terá uma visão completa da China… Concorda?

Indubitavelmente. A China é um país enorme, com muitas províncias, muitas cidades, muitos cantos e recantos para explorar e em cada parte encontraremos experiências e sentimentos diferentes. Houve uma frase que me marcou enquanto aluno do MEC e que foi proferida por um professor que admiro muitíssimo, e que segue as seguintes linhas: “Uma vida não é suficiente para conhecer a China, e, muito provavelmente, com duas também não chegamos à metade desse caminho.” Esta é uma das frases pronunciadas pelo homem que já percorreu todas as províncias chinesas e que tem uma bagagem de vivências na China que muito poucas pessoas tiveram a oportunidade de absorver. Falo do professor António de Graça Abreu.

MEC: a cultura, a sociedade e a economia chinesas

O MEC, parceria UA/ISCTE-IUL,  tem como objetivos a aquisição de conhecimentos específicos em áreas como a cultura, a sociedade e a economia chinesas. Há também a preocupação de dotar os alunos de conhecimentos básicos  da Língua Chinesa. Os objetivos do MEC acolhem a necessidade de olhar para a influência determinante que a cultura e a forma como a sociedade se organiza e funciona exercem sobre a economia e os negócios na China. Esta abordagem consubstancia-se na aquisição de capacidade para antecipar, monitorizar e reformular objetivos no âmbito de atividades empresariais/negociais ou de promoção de relações bilaterais, o escrutínio e a negociação, tendo em conta perspetivas e interesses e, particularmente, o contexto específico da negociação com empresas e outras organizações chinesas, e, ainda, motivar e desenvolver competências para aprendizagens ao longo da vida. A diversidade curricular do 1º ano do ciclo de estudos reflete essa abordagem, permitindo olhar para a China na sua diversidade social, territorial, cultural, económica e demográfica (a ênfase do 1º semestre) e dar substância cognitiva a esse 'olhar', utilizando-o como base para a aquisição de conhecimentos e competências na área da negociação e da gestão empresarial chinesas (a ênfase do segundo semestre). Empresários, arquitectos, médicos, professores, geógrafos, profissionais na área das humanidades estão entre os habituais alunos do curso.

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