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Entrevistas
Antiga aluna UA – Rafaela Norogrando, doutorada em Design
Numa nau vinda do Brasil à descoberta de todos os caminhos do mundo
Rafaela Norogrando
Designer, antropóloga, professora, investigadora focada no design de moda, na cultura, no património e na museologia, Rafaela Norogrando é uma apaixonada pelo toque humano que transforma os objetos em construções culturais dos povos e em memórias. Após quase uma década de trabalho como designer de produto na indústria de calçado brasileiro, o seu coração “pegou uma nau” e rumou a Portugal onde, em 2010, iniciou o Doutoramento em Design na UA, mais concretamente no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA) que defende que “as investigações e trabalhos devem ter o objetivo de promover melhorias à comunidade”. O seu dia a dia acompanha a crença.

Depois de concluir, em 2015, o Doutoramento em Design no DeCA,  e a par da investigação que nunca deixou de realizar, começou a dar aulas de Design no ensino superior. E é como professora que Rafaela Norogrando inaugurou a exposição xi-coração onde, no Museu Nacional do Traje, entre 4 de junho e 15 de setembro, os seus alunos têm a instalação expositiva e peças de roupa criadas pelos próprios para, no final da mostra, serem doadas a crianças e adolescentes africanos.

Mestre em Antropologia Social e Cultural pela Universidade de Coimbra, Rafaela Norogrando formou-se em Moda e Estilo pela Universidade de Caxias do Sul (Brasil), tem especializações em Design de Produto e em Moda e Comunicação e um MBA em Marketing. Durante quase dez anos, e antes de se mudar para Portugal, desenvolveu pesquisas e produtos para a Grendene, uma das maiores empresas do setor da moda no Brasil e com abrangência internacional.

Por onde começaram os primeiros passos do seu percurso profissional?

Eu comecei o meu percurso profissional ainda enquanto estudante, aos 19 anos. Fui pedir um estágio e acabei por conquistar um emprego como designer de produto numa das maiores empresas do setor calçadista, a Grendene. Foram muitos anos de aprendizados e conquistas as quais iniciaram com muitíssimas horas extras, muita paixão pelo trabalho e uma equipe maravilhosa para superar as metas e milhões de pares vendidos. Ao fim de nove anos já havia desenvolvido produtos para os mais diversos seguimentos, muitos estagiários e designers tiveram a minha orientação e os projetos mais importantes e decisivos para a repercussão da empresa no mercado passavam pelas minhas mãos.

No meio a tudo isso nunca abandonei as cátedras e o “estudar” sempre foi um desejo, o que me fez não abandonar os livros e as letras e juntar outros aprendizados ao meu repertório. Da mesma maneira, sempre encarei o investimento cultural como parte da minha formação profissional e estes foram os anos que mais respirei teatro, dança e fascinação.

E depois de uma década a trabalhar na indústria…

… meu coração pegou uma nau e em Portugal iniciei um outro percurso, quase um recomeço por outra área, com outros “viventes”. Atualmente tenho-me dedicado a investigações e publicações que com prazer vejo serem usadas oportunamente. Também uso de minha experiência para dar realidade aos alunos de design sobre suas atuações, responsabilidades e necessidades de alimentar a alma de arte para que suas escolhas não sejam em vão.

Como tese final do Programa Doutoral apresentou um trabalho intitulado “Exposições museológicas: a moda por narrativas, experiências e conexões”.  Que caminhos percorreu com esta investigação?

A minha tese de doutoramento foi uma construção que teve origem já no mestrado em Antropologia, quando procurei identificar qual seria o meu diferencial na proposição de contributos frente às possibilidades que o curso, e os docentes, apresentavam – além, é claro, do contexto investigativo. Foi neste momento que alterei uma primeira proposta e parti para uma outra perspetiva, unindo o meu knowhow sobre moda e o contato com os grandes especialistas em património e museologia que a UC me proveu. Com isto defendido eu já ia ao fim do primeiro ano do doutoramento – fui aprovada sem o mestrado por causa do CV, por ter pós-graduações com carga horária superior a um mestrado, bem como publicações científicas. A necessidade de continuar as investigações no doutoramento foi inevitável, além de ser uma responsabilidade. Foi assim, traçando as conexões entre a minha trajetória e o caminho que se abria que moda e museu param juntos em meu trabalho.

Que questões levantou?

Inicialmente questionei os processos de patrimonialização, o que fazia com que um objeto de moda fosse eternizado em salvaguarda? Como é este processo no contexto contemporâneo do fast-fashion e do consumismo antiético? No doutoramento fui mais longe e verifiquei como o património inventariado era apresentado e comunicado ao público. Isso porque a acessibilidade que temos é através das exposições (presenciais e virtuais) que os museus disponibilizam. No entanto, há milhares de objetos e histórias guardadas em armários distantes de nossa apreciação enquanto visitantes. Para além disso, uma importante questão colocada e que pontua a minha tese é a apreciação da moda enquanto fenómeno social com processos económicos, industriais e projetuais. Nisso tudo considero todos os agentes e processos envolvidos, materiais e imateriais. Neste sentido, não é possível resumir a moda e a sua patrimonialização somente pelo seu resultado material (as roupas), mas também por sua imaterialidade, desde os processos projetuais de design à experiência da utilização do objeto. Esta abordagem pode ser ampliada a diversas manifestações culturais e objetos de design. No entanto, a particularidade que a moda assume é o próprio revestir o corpo e representá-lo com símbolos e identidade em uma metamorfose do objeto e da pessoa. Por fim, tudo isto serve para remontarmos nossas memórias e construções culturais, fazer uso de nosso património em processos atuais da indústria, além de tornar mais consciente a nossa relação emocional e ética com as matérias que criamos e usamos em prol de nossa humanidade.

O que mais a marcou na UA?

Muitas pessoas foram importantes na minha trajetória pela UA, algumas com muita estima faço questão de manter contato. Neste sentido preciso falar de meu orientador, o Prof. João Mota, com quem tive cumplicidade, respeito e parceria em uma relação profissional e proactiva. Também conheci outros profissionais maravilhosos no DeCA, visionários, inteligentes, energéticos ou simplesmente, de bem com a vida a dedicar de seu tempo de forma ética e eficiente. Assim, posso falar de Cristina Silva, Vítor Vieira, Teresa Franqueira, Joana Quental, Nuno Dias, Helena Barbosa, Vasco Branco, Álvaro Sousa. Como também devo lembrar de colegas e camaradagem com Miriam Reis, Sandra Cruz, Raul Pinto, João Martins entre tantos que lamento não poder estender-me aqui. Por fim, nunca esqueço da boa vontade e praticidade do Fernando Viera dos Serviços Acadêmicos.

Sempre soube a profissão que queria seguir?

Não, na verdade acho que nunca. O que sempre soube é que profissão só tem sentido com paixão, porque tudo tem uma carga burocrática e pesarosa, o importante é esta não ser maior do que o espaço de criação. Por isso, se for ver bem, hoje eu estou longe da profissão que comecei. Atuar como designer em uma indústria, investigador científico ou docente no ensino superior são coisas completamente diferentes, exigem desempenhos, posições, motivações diferentes. É claro que existe a temática, eu sempre estive nas artes e humanidades, transito a vontade por elas, mas não diria que outras não sejam plausíveis de emoção. Pelo contrário, acho que tudo está na maneira como encaramos as situações.

Como descreve a sua atividade profissional?

Chata, emocionante, divertida, estimulante, pesada, cansativa, criativa e responsável. Tem um pouco de fado, de samba e chamamé, por vezes se é solista, noutras só se afina com orquestra. Dança-se de par, em grupo e sozinha, porque parte do bailado exige concentração, inspiração, reflexão e muita, muita dedicação e trabalho. No fim, tudo parece fácil e uma grande brincadeira e este é o segredo para a satisfação!

O que mais a fascina no seu trabalho?

Considerando uma esquizofrenia de minha parte em não abdicar das experiências acumuladas em minha trajetória, o mais fascinante é tentar vincular tudo em uma só atividade profissional. Também é incrível a possibilidade de estimular alunos a construírem por eles e por todos nós juntos, aquele mundo que a gente gostaria que se descolasse dos nossos sonhos. Que a nossa utópica imaginação transcendesse as nossas reles atividades cotidianas e pairasse por mais tempo entre o céu e a terra.

Que competências adquiridas na UA entende terem sido fundamentais para o exercício da sua profissão atual?

Quando cheguei na UA já não era mais guria - termo gaúcho do sul do Brasil que se refere a menina/jovem. Já tinha alguns bons anos de uma experiência profissional muito ativa, além de pós-graduações. Enfim, já estava em uma formação final (ao que tange colações de grau). Isso possibilitou que o meu aprendizado não estivesse atrelado a competências disciplinares, mas no observar as ações humanas de profissionais competentes e dedicados. Por exemplo, como foco do doutoramento em Design, e acredito poder expandir esta observação a todos os ciclos em Design da UA, está a premissa de que as investigações e trabalhos devem ter o objetivo de promover melhorias à comunidade e ao país. Isto é crucial para que financiamentos não sejam relegados a pilhas de papéis que só apresentam sentido para os que os produziram e nada mais. Acredito que esta foi uma competência reforçada com fervor por meus professores, a qual abraço com responsabilidade. 

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