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Entrevistas
Professor UA - Fernando Costa (ISCA-UA)
Ser professor é … “um percurso conjunto de aprendizagem e um espaço de partilha entre todos”
Prof. Fernando Costa
É competente, empenhado, trabalhador, inovador, simpático, atento, divertido e brincalhão. Estes são alguns atributos que os seus alunos lhe reconhecem. Fernando Costa, 44 anos, é formado em Economia e está na carreira docente há 19, tendo já completado 15 na UA. No Instituto de Superior de Contabilidade e Administração da Universidade de Aveiro (ISCA-UA) dá aulas de “Gestão das Organizações” e de “Projeto Empresarial”, mas ninguém se espante se em vez de professor o encontrar na pele de jardineiro!

Resolve qualquer questão que ponha em causa o normal funcionamento do ISCA-UA e cuida das plantas de todo o edifício. Fernando Costa, responsável pela lecionação de duas unidades curriculares das licenciaturas em Contabilidade e em Finanças faz questão de dizer que não se vê como um bom professor e de adiantar que nem é questão sobre a qual tenha alguma vez refletido com particular cuidado. Por isso, adverte: “tudo o que aqui será dito não assenta em qualquer critério de certeza ou valor científico”.

 

Como define um bom professor?Na verdade, não sei responder. Há seguramente muitas pessoas na Organização que o são e que, por isso, deveriam ser elas a revelar o segredo. O que sei é que as organizações não existem sem pessoas. Logo, por aproximação, se tivermos boas pessoas temos bons professores. Ou seja: vejo com muita dificuldade que um bom professor não seja acima de tudo uma boa pessoa, no sentido humano que o conceito encerra. Os conhecimentos, as competências, as áreas do saber, a identidade profissional são um pressuposto: isto tem sempre que estar lá! Mas é preciso muito mais para resolver o problema que é muito da natureza humana das nossas organizações. Todavia, não sei a fórmula para isto. Para mim – costumo dizer – é tudo um grande mistério. Não tenho qualquer certeza, não sei a receita e mais: tudo não é nunca a mesma coisa - varia nos anos, nos semestres, de turma para turma, dentro e ao longo de cada aula tudo se transforma muito (o tempo, as horas do dia, a ligação com outras UC, os espaços, etc.).

E qual o segredo para cativar os estudantes?O sentir-se como um deles e sentir-se como eles. Eu não me sinto diferente, não sou diferente, não me considero diferente. É um percurso conjunto de aprendizagem que nos leva a imenso espaço de partilha entre todos. Claro que não está, nem pode estar, em causa a confusão de papéis: assentamos em regras claras, conhecidas à partida por todos, mas o saber não se esgota numa pessoa nem numa figura. Há uma orientação que seguimos – o programa da unidade curricular – mas os caminhos são, com certeza, muitos. E fica sempre tanto por fazer e por sentir.

O que mais o fascina no ensino?A liberdade. A aula é um espaço de descanso, de criatividade, de contacto; mas, acima de tudo, de transferência contínua de conhecimento(s). Reforço: os conteúdos programáticos e o ensino em si é crucial – isto não está em causa. Mas o essencial é saber como partimos daí para criarmos competência(s), valor, competitividade, bem-estar.

 

“Estou confiante no ensino que a UA orgulhosamente faz acontecer”

Qual o maior desafio que enfrenta hoje um professor do Ensino Superior?O gap geracional. O conseguir captar a atenção constante dos estudantes, o conquistar o equilíbrio entre indivíduos e interesses tão diversos. Julgo que, empiricamente pelo menos, há diferenças entre gerações: no grau de concentração, na atenção que dedicamos à vida da Instituição, da Comunidade, do País e do Mundo. Não julgo que seremos melhores ou piores: somos diferentes, fruto de um mundo muito mais dinâmico e complexo, com mais e novos desafios (pelo menos os do nosso tempo) e isso não é nada mau. Ainda assim, em muitos casos, parece que temos que assumir o papel de pai e mãe para muitos. Mas isto também é parte do espaço e do desafio de aprendizagem que temos.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes da UA nos cursos de Contabilidade e de Finanças?Creio que a resposta deveria ser dada por quem a recebe. Porém, por nós, esperamos que seja e é qualificante. Trabalhamos e esforçamo-nos para isso. Tenho sempre em linha de horizonte que quando os estudantes concluem os seus cursos serão continuadamente uma extensão de nós (enquanto Escola, claro). Não se trata apenas da imagem e do reconhecimento que se espera ter no tempo por parte do mercado; trata-se, sobretudo, de, em certa medida, sermos nós que estamos lá. Com esta certeza, só posso responder que estou confiante no ensino que a UA orgulhosamente faz acontecer.

O que pode fazer um futuro licenciado em Contabilidade e em Finanças?Tudo o que quiser. O curso não deve ser uma prisão, uma obrigação de exercício. É mais um instrumento que, afortunadamente, tem e que deve saber utilizá-lo naquilo que o move na vida: ser capaz de, perante recursos escassos, extrair razões de bem-estar para si e para os outros. Em termos profissionais, se quiser, pode traduzir isto por criação de valor e de competitividade (talvez mais nas áreas do curso em que estuda ou estudou, mas, como creio, não em exclusivo). Dizem que quem só sabe de (para o caso) de Contabilidade e Finanças nem de Contabilidade e Finanças sabe. Mas não se esqueçam que também temos o Marketing.

 

“O mundo é muito mais para além de nós e da nossa sala”

Que grande conselho daria aos seus alunos?Agora são estudantes… O único que lhes dou: que sejam confiáveis e que mereçam (a) confiança (de si, dos colegas, da família, das empresas, da sociedade). Reforço: as áreas do saber, especialmente as do curso, são insubstituíveis. Mas não chega. As atitudes são fundamentais. Digo-lhes sempre para abrirem espaços de aprendizagem a muitas outras áreas: afinal a unidade curricular que lecionamos não é a única disciplina, porventura não será nunca a mais importante. O mundo é muito mais para além de nós e da nossa sala.

Houve algum aluno que mais o tivesse marcado? Porquê?Vários. Muitos. Curiosamente, sempre por boas razões: pela atitude, pelo respeito, pelo querer, pela postura com os amigos e com a vida; pelo testemunho que deixam e pelo exemplo que marcam. Não sou muito dado a este tipo de saudades. Mas, frequentemente, quando vamos para além do estudante e buscamos a pessoa, é fascinante o que muitos fazem e que só muito distraidamente descobrimos: na arte, na música, no trabalho, no voluntariado, na disponibilidade em ajudar e, em muitas outras coisas, sobretudo no não desistir. Talvez a Madalena tenha resumido isto muito bem quando referia sempre, já cansada após um dia de trabalho e de muitas outras atividades, algo entre a “força de vontade a vontade da força”. Nesse ano fomos (a turma, claro!) a Paris… em visita de estudo! A grande conclusão é que só existimos porque eles existem. Muitas vezes - quase sempre - são eles que nos reforçam o ânimo e nos renovam a determinação. E este respeito é único. Tem que ser.

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?Sim. Para os que (re)vivem (relembro o gap geracional): um momento do tipo Lauro Dérmio, de um episódio do Herman José que ficou conhecido pelo “não pirilamparás”. Não é a parte do episódio em si, mas o que ele simbolizou: o envolvimento e a motivação para o estudo, a construção da equipa e não apenas de um grupo de estudantes que só convive, porque a isso é obrigado, em sala de aula.

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