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Opinião
Opinião de Susana Sargento, investigadora do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da UA
"Não se assuste quando um sensor, uma bicicleta ou um carro chamar por si!"
A investigadora Susana Sargento
“Em 2020, espera-se que mais de 26 bilhões de dispositivos estejam interligados. No entanto, como é que podemos tornar esta comunicação numa realidade”? Susana Sargento lança a pergunta e dá a resposta. Em artigo de opinião, a investigadora do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática, que em março conquistou o Prémio Mulheres Inovadoras da União Europeia 2016, garante que o futuro das redes veiculares está cada vez mais próximo.

Estima-se que a população urbana a nível mundial duplique até 2050. Como as nossas cidades se tornarão maiores, elas também precisam de se tornar mais inteligentes para gerir as pessoas, edifícios, serviços, e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para poder gerir todas as ‘coisas’ nas cidades, seria fantástico se estas pudessem falar e dar-nos atualizações em tempo real sobre as pessoas, veículos, padrões de tráfego, poluição, lugares de estacionamento, água, energia e luz. Em 2020, espera-se que mais de 26 bilhões de dispositivos estejam interligados. No entanto, como é que podemos tornar esta comunicação numa realidade?

Através dos veículos ou de qualquer objeto móvel!

Imagine que o seu carro pode funcionar como um ponto de acesso Wi-Fi, e que se pode ligar à Internet através dele; ou que ele pode funcionar como um ponto de acesso Wi-Fi para qualquer sensor na rua e é capaz de obter as suas informações e enviá-las para um servidor na cloud onde poderá processar essa informação; ou ainda, que pode interligar informação de sensores das pessoas, das estradas, das bicicletas, de outros carros, e poder tomar decisões automáticas de passagem num cruzamento sem ajuda do condutor ou de semáforos.

É esta tecnologia e rede de comunicações que temos vindo a construir: uma rede de veículos que pode interligar os próprios veículos, pessoas, sensores, e criar os espaços inteligentes e autónomos.

Os veículos ligam-se entre si através de uma tecnologia de comunicações Wi-Fi para veículos, o IEEE 802.11p, desenvolvida para ambientes dinâmicos veiculares e na banda dos 5.9 GHz, reservada para comunicações entre veículos. Esta tecnologia permite um alcance de comunicação até 1Km em linha-de-vista, e as ligações podem ser estabelecidas em tempos muito pequenos, de 10-20msec. Além disso, os veículos podem formar uma malha de rede de comunicações e aumentar o alcance das comunicações através de outros veículos: comunicam com a infraestrutura fixa (pontos de acesso fixos) diretamente ou através de outros veículos no alcance e com acesso à infraestrutura. A ligação dos veículos à infraestrutura pode ser realizada também através de uma rede celular, a qual está disponível como uma tecnologia complementar para o IEEE 802.11p quando este não está disponível: cada veículo liga-se de forma automática à melhor rede e tecnologia no seu alcance.

Em 2014 Porto implementámos a maior rede veicular urbana, a nível mundial, com 608 veículos, e uma rede de sensores ambientais com 75 conjuntos de sensores. Os veículos estão todos interligados entre si e à Internet, e dão acesso Wi-Fi às pessoas que se encontram próximas ou dentro dos mesmos. Num ano de serviço de Free Wi-Fi nos autocarros STCP foram registadas mais de 2 milhões de acessos à Internet com perto de 300 mil utilizadores únicos. A grande novidade é que o acesso à Internet é efetuado pela rede de veículos!

Também os sensores enviam a sua informação para os servidores de processamento através dos veículos: enviam a sua informação para um veículo quando este se aproxima, sem necessitar de um ponto de acesso disponível de forma constante, nem de utilizar a rede celular. Além dos sensores ambientais, os sensores de nível dos contentores do lixo enviam a sua informação através dos veículos; apenas quando se deteta que o nível ultrapassou um determinado valor, os camiões do lixo são chamados a descarregá-los!

Por isso, não se assuste quando um sensor, uma bicicleta ou um carro chamar por si!

 

Nota: artigo de opinião publicado na edição de 31 de março do jornal Diário de Aveiro

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