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Entrevistas
Professor UA – João Dias de Oliveira, Departamento de Engenharia Mecânica
A Engenharia Mecânica, o ensino, os estudantes e outros afetos para a vida toda
João Oliveira
Professor no Departamento de Engenharia Mecânica (DEM) há quase uma década, foi também aí que fez licenciatura, mestrado e doutoramento em Engenharia Mecânica. Vinte anos depois de ter chegado à Universidade de Aveiro (UA), João Dias de Oliveira garante que continua a crescer num Departamento “cheio de potencial e capital humano” e onde “os estudantes recebem uma excelente formação”.

Professor do Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica e do Mestrado em Engenharia e Design de Produto, João Oliveira iniciou a atividade de docente, há 12 anos, ainda enquanto estudante de mestrado, no Instituto Politécnico de Viseu. Já enquanto doutorando, há 9 anos atrás, começou a lecionar no DEM da academia de Aveiro. Pelo caminho fez também uma incursão pela Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos, na área de design de produto. Esta ligação entre engenharia e design, gráfico e de produto, sempre foi uma parte integrante do seu percurso. Para além de constantes colaborações com artes gráficas e serigrafia, o percurso profissional de João Oliveira ditou que fosse sendo construída uma ligação próxima a áreas de modelação e engenharia assistidas por computador, assim como de desenvolvimento de produto.

Tem na simulação numérica e nas diversas áreas relacionadas, nomeadamente no desenvolvimento de ferramentas computacionais de simulação em cálculo estrutural, os seus principais focos de interesse científico e de investigação. É na ligação a estas áreas que surge a associação, desde a sua génese, ao grupo de investigação GRIDS. Atualmente, começa a investir também em áreas mais diretamente ligadas à Educação em Engenharia, fazendo parte do SEE, um grupo de trabalho do DEM focado em promover a discussão e desenvolvimento em temáticas relacionadas com o Ensino e a Aprendizagem em Engenharia.

João Oliveira mantém também uma forte ligação às camadas mais jovens e à divulgação científica, nomeadamente como colaborador assíduo em diversos programas da UA.

Como qualifica a formação que é dada aos estudantes no DEM?

Sou naturalmente pouco isento nesta resposta, mas posso afirmar que os estudantes recebem uma excelente formação no DEM. Por um lado, encontram um corpo docente com diferentes competências técnicas e experiência profissional, que se envolvem ativamente no apoio aos estudantes e no acompanhamento dos seus trabalhos. Por outro lado, e em particular no Mestrado Integrado em Engenharia Mecânica, muita da atividade ao nível da cooperação com a sociedade e da investigação transporta conhecimento, experiência e problemas reais diretamente para as atividades de formação. Esta abordagem integradora é levada a cabo muitas vezes numa fase bastante inicial do percurso académico dos estudantes. Com um excelente equilíbrio entre componentes laboratoriais e teóricas, a própria organização curricular do curso dá-lhes uma base de formação sólida e alargada em Engenharia Mecânica, complementada com um vasto leque de opções e de áreas de especialização no último ano.

Qual é o segredo para se ser bom professor?

A meu ver, há um enorme elefante na sala de aula do ensino superior. Não há formação, muitas vezes sequer vocação ou mesmo vontade. Há o (pre)conceito de que a especialização técnica é conducente a um bom desempenho lectivo. Há requisitos, há tarefas, muitas vezes aquela ‘chatice’ de dar um determinado número de horas lectivas… para se poder fazer o resto. Mas também há vontade, há grandes exemplos, há pessoas. E tudo é feito de pessoas! Na minha opinião, sem saber ser um bom professor ou como me classifico nesse aspecto, esse é o principal requisito. É sentir afecto pelo que se faz, pelas pessoas. Para isso, é necessário que a competência técnica seja sustentada por duas questões essenciais: comunicação e humildade.

Por um lado, a comunicação é essencial. Não só no sentido de ser efectivamente um bom comunicador (ou de investir para ser), mas também para trabalhar a consciência de que a comunicação nunca é unidireccional. Por outro lado, a humildade de perceber que não há hierarquias na sala de aula, apenas papéis diferentes. Somos pessoas que trabalham em conjunto para um dado fim, para atingir um conjunto de objectivos.

Não esquecer que, na realidade, os melhores professores dentro da sala de aula são muitas vezes os estudantes. Os melhores professores que tive foram pessoas que admiro para além do que são como professores, que me fizeram sentir como sendo realmente parte da equação, que me integraram como aluno e me deram a oportunidade de adquirir não só conhecimento como também outras competências. Os melhores professores que vejo em meu redor são os que têm esse espírito também.

O que mais o fascina no ensino?

Julgo que o que mais me fascina no ensino é o perceber que se tem impacto… e a responsabilidade associada a esse impacto. Temos o poder de ajudar a criar (ou a destruir) caminhos. Fascina-me também perceber que os estudantes vêm para a universidade com o espírito aberto, elástico. Está directamente associado ao ponto anterior, temos a obrigação de os ajudar a manter esse espírito, a motivá-los para aprender, a aprendermos a aprender também.

Aliás, no que diz respeito à profissão, ao ser docente, para além da componente de ensino, dou especial valor à possibilidade de aprender coisas novas todos os dias. É perceber que, pelo menos eu, não faço nada sozinho. Absolutamente nada de relevante. Tenho tido sorte, nomeadamente ao fazer parte de grupos como o GRIDS e agora também o SEE, formados por pessoas que me permitem construir as minhas faculdades (e contornar algumas das minhas limitações). É exemplo disso também o DEM, minha casa de toda a vida adulta. A verdade é que vejo uma casa cheia de potencial e capital humano. Coisa que me enternece é perceber que os nossos alunos vestem essa camisola muito rapidamente, que são naturalmente integrados e apoiados, que lutam pelo DEM e geram verdadeiro valor.

Qual o maior desafio que enfrenta hoje um professor do Ensino Superior?

A meu ver, a tentação para o acomodar. O potencial para deixar que a grande variedade de solicitações distraia o professor daquela que é, para mim, a sua primeira missão. Antes ou depois, não sei, talvez durante, parece-me que poderá haver uma certa confusão de prioridades. Currículos e indicadores, evidentemente importantes, apenas fazem sentido se a universidade não perder a sua identidade. E se falamos de ser professor, falamos de pessoas que devem encarar a formação (a diversos níveis e dimensões) como sua prioridade máxima. Lembrar que mesmo a investigação é maioritariamente feita por alunos de pós-graduação ou por bolseiros que, em muitos casos, estão a tentar fazer caminho e currículo para encontrarem condições para serem alunos de doutoramento.

Qual é o segredo para cativar os estudantes?

Confesso que não sei. Julgo que é um caminho que se faz de parte a parte, de comunicação e de proximidade. Acho que parte do segredo é perceber e mostrar que somos todos iguais. É também sermos honestos. Se os estudantes perceberem que não temos a pretensão de ser infalíveis, que estamos a dar o nosso melhor e que aprendemos tanto quanto eles (ou mais), ao contrário do que se possa pensar, acredito que ganhamos todos respeito e confiança. Ganhamos um sentido de equipa, à qual nós trazemos mais experiência e conhecimento, e os estudantes trazem mais energia e novos desafios. Gestão de expectativas, aberta e honesta.

Existem diferenças entre esta e as anteriores gerações de estudantes?

Julgo que sim, existem diferenças. Existem diferenças de hábitos de estudo, por exemplo, diferenças na forma de encararem o curso, formas diferentes de trabalhar. Ao contrário do que se diz muitas vezes, no entanto, não concordo minimamente com o chavão de que “no nosso tempo é que era bom”. Sou da chamada “geração rasca”, que também era muito inferior às gerações anteriores. Há muito essa tendência, não é? Ao contrário do que é comum dizer-se, os estudantes de agora são muito melhores do que os do meu tempo. Do que eu fui, sem a menor dúvida! Simplesmente a abordagem é outra, mesmo os valores. As coisas evoluem. Tal com as distracções dos meios e a forma como se gere o conhecimento, como se armazena ou acede a ele. Mais distraídos a alguns níveis, muito mais completos a outros.  

Que grande conselho daria aos seus alunos?

Acima de tudo, algo que digo sempre aos estudantes pré-universitários nos vêm visitar, para manterem o espírito aberto por tanto tempo quanto conseguirem. O tempo tende a colocar-nos 'palas nos olhos'. Uma expressão não apreciada por todos, mas algo que sinto muitas vezes em mim próprio. Digo aos estudantes para não perderem a vontade de aprender, seja qual for o caminho, para se construírem, para fazerem mais coisas, para tentarem sempre perceber… Ainda hoje olhava com uma certa inveja (da boa) para os passos inseguros do filho de um amigo. Tão mágico que seria conseguir olhar para tudo como se houvesse ainda o que aprender em absolutamente tudo. Será que não há?

Quer indicar um aspeto positivo e um aspeto negativo que carateriza hoje a profissão docente?

Um aspecto positivo pode encontrar-se na disponibilidade de meios e nas intermináveis possibilidades de acesso à informação. Há imensas ferramentas e meios que facilitam o exercício da profissão, há um sem-fim de oportunidades para ampliar o alcance a qualidade do que se faz. Um aspecto negativo, em alguns casos ampliado pelo aspecto positivo que refiro, acaba por encontrar-se na grande variedade de outras solicitações e na forma como se podem sobrepor às actividades mais importantes. Posso dar o exemplo do e-mail. Por um lado, ainda por cima quando prefiro escrever e não gosto nada de falar ao telefone, é para mim um dos grandes meios de comunicação e mesmo de gestão. No entanto, dou por mim a deixar que a gestão de e-mails me consuma muito tempo e quebre muitas vezes o fluxo de tarefas mais importantes. Tenho de perceber que os e-mails continuam lá, à minha espera, se os deixar repousar mais um pouco. Estou a aprender, mas lentamente.

Houve algum grupo de alunos que mais o tivesse marcado?

Há um grupo de alunos que se destaca, sim. Tendo a dar aulas aos alunos do MIEM apenas no quarto ano, excepto com alguns alunos que por vezes encontro em turmas práticas de Desenho Técnico. No caso de que falo, pelo facto de ter leccionado algumas aulas teóricas de uma UC do segundo ano, acabei por acompanhar a maioria dos alunos desse ano até ao final do curso. Tornaram-se rapidamente pessoas com quem se gerou alguma cumplicidade e proximidade. Com alguns mesmo muita. Foi um grupo que me mostrou que não há necessidade de distância ou hierarquia demasiado rígidas, que somos peças de um mesmo puzzle. É uma das razões pelas quais gosto tanto de dar aulas de Desenho Técnico, ao primeiro ano. Uma colega cuja visão eu respeito muito diz que todos devíamos dar aulas ao primeiro ano de vez em quando. É humildade, contacto com as mentes mais permeáveis, é o reduzir à essência de transmitir a mensagem a pessoas que acabaram de entrar num mundo novo. É conhecer os nossos alunos antes de serem moldados por nós.

Não posso ainda deixar de destacar os muitos estudantes com quem tenho participado em diferentes projectos extracurriculares. São exemplo vivo de que o mais importante é haver vontade para fazer com que coisas boas aconteçam. São os verdadeiros empreendedores. São a prova de que os nossos estudantes podem (e devem) moldar(-se) para que a sua formação possa ter outras dimensões para além daquelas que os nossos currículos lhes dão. Fico-lhes grato, confesso, são exemplos a seguir e a apoiar!

Pode contar-nos um episódio curioso que se tenha passado em contexto de sala de aula ou com estudantes?

Posso contar alguns, na verdade, mas o problema é que a maioria são da minha responsabilidade. Digo muitas palermices nas aulas, tenho a mania que sou engraçado. Algumas são de tal forma 'elaboradas' que acabo sozinho, com uma turma inteira a olhar para mim sem a menor reacção. Mais ainda, vejo nos seus olhos uma expressão incrédula. No entanto, acabam sempre por me fazer o favor de apoiar. Julgo que é graças ao lado familiar que acabamos por criar com os nossos alunos. Talvez seja esse conforto que leve a que ocasionalmente tenha episódios de excesso de sono de alunos nas aulas. Certamente não será por estarem em aulas aborrecidos... 

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