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Opinião
Opinião de Raquel Lopes, doutoranda do Departamento de Biologia da UA
Árvores monumentais, uma memória viva
Raquel Lopes
No Dia da Árvore, Raquel Lopes chama a atenção para a importância das árvores monumentais do país, especialmente para aquelas que ainda não estão identificadas e classificadas. Sabe porque é que têm um nome tão monumental? Conhece alguma? Então este artigo da estudante de Doutoramento do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro é para si.

Hoje celebramos o Dia das Árvores Monumentais. Quem não se recorda da árvore da sua infância? Ainda estará viva? Ou aquela plantada pelos avós? Ou outras, autóctones ou não, que sempre foram conhecidas assim, de características excecionais e de verdadeira monumentalidade? São estas as árvores de que vos quero falar.

Presentes na nossa paisagem urbana, rural ou natural, as árvores monumentais desempenham múltiplas funções. Estão relacionadas com aspetos de fruição pessoal e estética, e ainda valorizam os espaços onde se encontram. A nível ecológico, conferem a renovação do ar, intervindo ativamente na mitigação do aquecimento global ou como fomento de biodiversidade. Se pensarmos que uma única árvore antiga dá abrigo, proteção e alimento a mais de 2 000 espécies de seres vivos diferentes, como fungos, líquenes, plantas e animais e que alguns deles vivem ai em exclusividade, então o que aconteceria caso a árvore deixasse de existir? A perda de biodiversidade seria enorme!

Mas o que as distingue das demais? Devido às suas características singulares como o porte, idade, raridade, simetria ou a forma bizarra, ou pelo seu significado histórico, cultural, natural ou paisagístico, as árvores, tanto isoladas como em conjuntos arbóreos, podem ser classificadas de Interesse Público e, por isso, protegidas por legislação. Contudo, existem muitas árvores com características monumentais que carecem de classificação, sendo a falta de conhecimento um entrave à sua salvaguarda.

Importa dar a conhecer estes autênticos monumentos vivos, para que desta forma as possamos proteger, enquanto património arbóreo de inestimável valor. Todavia, muitas árvores monumentais encontram-se à mercê do abandono, de atos de vandalismo (muitas vezes por desconhecimento), de podas radicais que desfiguram o seu porte, diminuindo consideravelmente a sua capacidade de resistência, da fragmentação do habitat, pelo isolamento, conflitos com infraestruturas, incêndios desenfreados, pressão urbana ou povoamentos de monoculturas contínuas, que têm isolado os últimos redutos de florestas autóctones, de sobreiros, carvalhos ou teixos, que outrora existiam em abundância. Também a própria idade avançada, torna estes seres notáveis mais suscetíveis à ação de pragas, doenças ou de agentes atmosféricos, contribuindo, frequentemente, para o aumento da sua fragilidade e consequente diminuição de resiliência e capacidade de defesa. Estas árvores sofrem, ainda, com excesso de visitação.

Respeitar estas árvores é admirar o seu porte a uma certa distância, tal como fazemos num museu ao apreciar uma obra de arte. Se pensarmos que um grupo de 15 pessoas pesa cerca de 1 tonelada, o peso exercido pelos visitantes, junto a uma árvore, irá compactar o solo, danificando e dificultando o arejamento das suas raízes.

Para além disso, algumas destas árvores seculares, como as oliveiras têm despertado grande interesse comercial, levando ao seu arranque massivo do local de origem para transplantação. Muitas acabam por morrer pelas irrecuperáveis lesões que sofrem. Importa reverter esta situação, atuando pela sensibilização e contribuir para a sua classificação e proteção legal, pois estas memórias vivas da nossa paisagem agrícola merecem morrer no local onde nasceram, cresceram e envelheceram.

Como se vê, são várias as condicionantes que têm conduzido ao declínio de árvores saudáveis, agredindo não só árvores notáveis, mas também árvores jovens, o que inviabiliza uma nova geração de árvores monumentais. Urge atuar, no terreno, com uma gestão adequada destas árvores, uma vez que se estas perderem o papel que desempenham não poderão ser substituídas por outras mais novas. 

Para além de todos os seus valores, o arvoredo de interesse público e outras árvores monumentais não classificadas contribuem também para a diferenciação endógena das regiões onde se localizam, constituindo focos de desenvolvimento local, como são disso exemplos alguns projetos que, têm timidamente surgido no nosso território, mas em franco desenvolvimento noutros países. A par do seu elevado valor natural, histórico, cultural, paisagístico, as árvores monumentais têm-se assumindo enquanto recurso educativo e turístico, ademais do seu reconhecido papel na promoção da saúde e do bem-estar físico, mental e social.

Cabe a todos nós, reconhecermos este património como nosso, e propor árvores para classificação, mesmo sem o consentimento do proprietário, junto do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas*.

Vamos todos unir esforços para que o Dia da Árvore seja o dia das árvores saudáveis que merecem viver, crescer e envelhecer, tornando-se contadoras de histórias, testemunhas de vivências e abrigo de muitos seres vivos, para que as possamos admirar por muitos mais anos. Proponha para classificação a árvore da sua infância, pois só amamos, respeitamos e protegemos aquilo que conhecemos.

 

* Registo Nacional do Arvoredo classificado de Interesse Público: http://www.icnf.pt/portal/florestas/aip/arvores-mon-pt-online

Requerimento de Classificação de Arvoredo de Interesse Público: http://www.icnf.pt/portal/icnf/serv/formularios/arvoredo-de-interesse-publico

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