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Entrevistas
Entrevista quase no final do prazo para candidaturas ao Prémio Aldónio Gomes
Literatura juvenil: a narrativa de “transição”, “num limbo difícil de classificar”
Ana Margarida Ramos fala da narrativa juvenil, tema do Prémio Aldónio Gomes 2016
A proximidade do final do prazo para entrega dos trabalhos candidatos ao Prémio Aldónio Gomes – termina a 29 de fevereiro – motiva uma entrevista sobre a literatura que inspira a edição deste ano: a narrativa juvenil. Não é fácil de definir, explica Ana Margarida Ramos, professora do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro e especialista nesta área. Desde logo, à volta do segmento há muitos receios infundados, considera a investigadora: “Assim como a televisão não trouxe o fim da rádio, acredito que também a internet e o livro terão uma longa vida conjunta, com influências várias de parte a parte.”

Concorda com esta definição retirada da Wikipédia? “A literatura juvenil é um ramo da literatura dedicada a leitores entre dez a quinze anos de idade. Em geral, têm as seguintes caraterísticas: a) apresentam temas de interesse do jovem adolescente, muitas vezes controversos, como sexo, violência, drogas, relacionamentos amorosos, etc; b) os personagens, especialmente os protagonistas, são da mesma faixa etária dos leitores; c) podem possuir imagens e fotos, mas não necessariamente; são, basicamente, constituídas por  texto; d) apresentam um número maior de páginas do que os exemplares de literatura para a infância, podendo alcançar 200 a 300 páginas.”

Compreendo que, por motivos de simplificação da informação, este tipo de definição possa funcionar, mas ela não caracteriza cabalmente um subsistema literário que contempla uma grande variedade de modos e géneros literários, muitos registos e formatos. Ao contrário da literatura infantil, a literatura juvenil não atraiu, por parte da crítica e dos estudiosos, a mesma atenção, não só em resultado do menor número de publicações de qualidade, mas também de uma certa indefinição deste segmento editorial que continua a situar-se num limbo difícil de classificar (não é por acaso que alguns especialistas se referem à “idade do meio”, a propósito do público preferencial, situado entre a adolescência e a juventude). A literatura juvenil carece ainda de reconhecimento e legitimação, e a sua situação, entre a literatura infantil e a destinada a adultos, não tem favorecido a sua valorização. Esta questão do seu estatuto transicional é quase sempre referida nas várias tentativas de definição.

Na Wikipédia também se diz: “Enquanto muitos jovens têm um certo repúdio pelos clássicos da literatura, alguns livros mais atuais, dedicados a adolescentes, têm vindo a tornar-se grandes best-sellers mundiais, como Harry Potter, Percy Jackson e Jogos da Fome. O fenómeno, no entanto, pode ser visto como uma boa oportunidade de incentivar o gosto pela literatura nesta faixa etária”. Isto tem acontecido, nomeadamente em Portugal?

O fenómeno dos best-sellers não é exclusivo da literatura juvenil, ainda que ela não esteja imune a este acontecimento das modernas sociedades globais. Eu gosto de separar, a este propósito, a questão da leitura da da literatura. Algumas destas publicações de grande sucesso podem fazer muito pela leitura, atraindo leitores, mas algumas fazem pouco pela literatura, no sentido em que não são obras especialmente inovadoras ou singulares nem vão deixar marcas relevantes no sistema literário. Nesta medida, destacaria o papel dos professores e dos mediadores de leitura, que podem ajudar a fazer a ponte entre livros de sucesso mais imediato e obras de referência, canónicas, centrais para a formação dos jovens.

Receios infundados

Diz Ana Lucia Santana (http://www.infoescola.com/literatura/literatura-infanto-juvenil-na-atualidade/): “Hoje, ao longo do mecanismo de criação, o escritor infanto-juvenil preza mais as representações imagéticas, as brincadeiras contagiantes, os passatempos e divertimentos, as músicas, enfim, tudo que é adicionado ao texto ou que o substitui.  (…) Embora as obras dirigidas a este público sejam cada vez mais publicadas e disponibilizadas pelas editoras, físicas ou virtuais, e estejam muito presentes na esfera da educação, vários estudiosos e autores revelam temer o predomínio das representações visuais em uma época dominada pela tecnologia virtual.” Também pensa que é caso para temer?

O livro em papel ou em formato tradicional é o resultado de uma evolução que dura há muitos séculos. O livro foi evoluindo e foi-se transformando, respondendo às necessidades do homem, mesmo em termos físicos, formato, papel, dimensões, materiais. E, nessa medida, o livro e a literatura têm vindo a dialogar com várias artes e formas de comunicação, numa lógica de influências mútuas, de apropriação, de transformação, de reflexão e até de questionamento recíproco. A presença abundante de imagens nos livros – e não nos exclusivamente dedicados aos leitores mais pequenos – tem vários séculos. Em relação às tecnologias digitais, a evolução ocorrida revela diálogos e contaminações semelhantes que estão a ser estudadas e investigadas em várias áreas e sob vários pontos de vista. Até hoje, os sistemas de comunicação e as tecnologias de informação têm convivido uns com os outros e, tal como o cinema não originou o fim da fotografia, ou a televisão o fim da rádio, acredito que também a internet e o livro terão uma longa vida conjunta, com influências várias de parte a parte.

Como carateriza hoje o panorama da literatura infanto-juvenil, mais propriamente da literatura juvenil? Parece-me que, apesar das edições se sucederem no mercado – muito à custa de novas editoras, julgo eu… - este género vive muito de autores consagrados, como António Mota, António Torrado, Álvaro Magalhães, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Ducla Soares, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada…

A literatura juvenil contemporânea portuguesa conhece atualmente um novo impulso criativo, ainda que menos significativo do que a literatura infantil. Assim, para além da consolidação dos autores que, a partir das décadas de 80 e 90, publicam, para o público juvenil, como acontece com Alice Vieira, António Mota, Maria Teresa Maia González ou Ana Saldanha, a que se adiciona a colaboração mais esporádica, mas de grande qualidade, de Álvaro Magalhães, por exemplo, assistiu-se, recentemente, ao aparecimento de novos autores que, em resultado de Prémios, começaram a publicar textos para jovens, como aconteceu com Afonso Cruz, Carla Maia de Almeida, Conceição Dinis Tomé, Susana Cardoso Ferreira ou Ana Pessoa. Refira-se que outros autores que habitualmente não escrevem para a infância e/ou juventude, como José Eduardo Agualusa ou Richard Zimler, também dedicaram recentemente ao público juvenil textos de qualidade assinalável. Outros contributos relevantes chegaram pela mão de Ondjaki, Jorge Araújo ou Gonçalo M. Tavares. A edição atual para a juventude não fecha a porta à tradução de obras relevantes, sejam elas clássicas ou contemporâneas, permitindo o acesso à produção internacional.

Género para o qual confluem variadas formas de expressão

A UA tem alguma investigação em curso sobre literatura juvenil? Em que consiste?

Sobretudo a partir do momento em que a disciplina de Literatura para a Infância e Juventude integra os planos curriculares de algumas licenciaturas e mestrados, têm sido realizadas várias teses de Mestrado sobre esta produção. Trata-se de um tema que interessa a um universo consideravelmente amplo, e que pode reunir áreas como a literatura, a ilustração, a edição, a educação... No ano passado, a UA acolheu um dos mais importantes congressos internacionais sobre literatura infantil e juvenil, o “The Child and the Book” que reuniu mais de uma centena de especialistas oriundos dos cinco continentes. Agora, em março, estamos a organizar um seminário internacional temático com alguns investigadores relevantes, para além de conferências pontuais e encontros com criadores que também temos organizado.

Quais as expectativas para o Prémio Aldónio Gomes deste ano, que é dedicado à narrativa juvenil?

Como, nos últimos anos, os Prémios Literários atribuídos à literatura juvenil têm contribuído para o aparecimento de novos autores e de obras de muita qualidade, a grande expectativa era que surgisse também aqui uma obra relevante, capaz de suscitar interesse.

Conhece autores na comunidade da Universidade de Aveiro? Quais?

Especificamente no universo da literatura juvenil, não conheço, até porque estamos a falar de uns milhares de pessoas, mas lembro que da Universidade já saíram autores com produção no segmento infantil, como foi o caso da Catarina Sobral, que fez a formação inicial no DECA e que é hoje uma premiada criadora de livros-álbum, ou de Nuno Camarneiro, que também publicou um conto infantil ilustrado no final do ano passado. Há uns anos, um aluno do DLC pediu-me para ler um romance juvenil que se revelou bem interessante e engraçado. Pode ser que agora apareça a concurso.

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