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Entrevistas
Antiga aluna UA - Sara Bárrios, licenciada em Biologia
Semear o futuro do planeta no Jardim Botânico Real de Kew
Sara Bárrios
Para uma bióloga encantada pelo mundo das plantas seria difícil trabalhar num local mais apaixonante. O Jardim Botânico Real de Kew, em Inglaterra, é um dos mais extensos, antigos e prestigiados jardins botânicos do mundo e Sara Bárrios, desde 2005, é uma das biólogas que lhe dá alma e rumo. Licenciada em Biologia pela Universidade de Aveiro (UA), a Sara contribui para a implementação da Estratégia Mundial para a Conservação das Plantas, um plano pensado pela “Convention for Biological Diversity”, uma iniciativa promovida pela ONU para diminuir à escala planetária o risco de extinção de plantas.

“Eu trabalho nos Royal Botanic Gardens, em Kew, um jardim botânico localizado em Londres, e onde está situada uma das maiores e mais diversas coleções de plantas e fungos do mundo que permitem aceder a informação sobre plantas de todo o planeta e trabalhar para que estas não desapareçam, devido a uma série de ameaças, como as alterações climáticas”. Bem-vindos aos Royal Botanic Gardens onde a Sara, aos 35 anos, trabalha diariamente para ajudar a “documentar e clarificar a diversidade de plantas e fungos a nível mundial”, contribuindo para a sua conservação.

Neste momento, a bióloga e a sua equipa têm em mãos a missão de estudar o risco de extinção de espécies vegetais que são nativas dos territórios ultramarinos da Inglaterra. “Fazendo uso das categorias estabelecidas pela União Internacional para a Conservação da Natureza, vamos tentar estabelecer quais as plantas que estão em maior risco de extinção para, depois, colocá-las no topo das prioridades em termos de conservação”, explica. Para isso, a equipa de biólogos da Sara Bárrios tem que fazer um estudo completo de cada planta. Saber onde crescem, que outras espécies habitam os mesmos habitats e quais as ameaças às quais estão sujeitas são algumas das informações em que a bióloga está a trabalhar.

O primeiro estudo é todo baseado em especímenes de herbário. “Só mais tarde iremos ao campo verificar se os resultados obtidos são corretos. Vamos demorar dois anos só para completar este estudo para as plantas endémicas [as plantas que só existem naqueles territórios e em mais lado nenhum da Terra]. O grande objetivo é escrever o livro das plantas vermelhas – o “Red List book” – para estes territórios”, desvenda.

De Aveiro para Londres

Licenciou-se em Biologia na UA em 2003. Seguiu-se um estágio profissional na Associação Portuguesa de Educação Ambiental e uma passagem de um ano no Herbário da UA através do projeto Radical da Rede de Aprendizagem Interativa.

No final de setembro de 2005 Sara Bárrios mudou-se para Londres. Na bagagem levava uma Bolsa Leonardo com duração de seis meses para melhorar a sua experiência profissional.

Começou por trabalhar num projeto de conservação de plantas no Jardim Botânico Real de Kew e inserida na equipa dos territórios ultramarinos do Reino Unido onde acabou por ficar um ano e três meses. “Nesta fase aprendi, sobretudo, como se organiza um herbário com 8 milhões de plantas, a identificar plantas dos trópicos e o que custa tentar salvar espécies antes que desapareçam para sempre”, lembra.

Depois concorreu para outro trabalho dentro dos jardins. “Durante dois anos e meio fui team leader para o projeto Iniciativa para as Plantas Latino-Americanas, um dos maiores projetos de digitalização de espécies tipo de herbário, que envolveu mais de 130 instituições do mundo da botânica”. Nos últimos seis meses de trabalho Sara Bárrios foi promovida a coordenadora do projeto nos jardins de Kew.

Preciosas ferramentas adquiridas na UA

Em 2009 surgiu uma vaga na equipa na qual tinha começado a trabalhar nos jardins de Kew, a equipa dos territórios ultramarinos. Desta vez aguardava pela Sara a missão de preparar uma plataforma digital das coleções que existem nos jardins de Kew e analisar onde estas seriam mais fracas de forma a serem posteriormente melhoradas. “Concorri e fiquei com o trabalho. A plataforma “UKOTs Online Herbarium” foi lançada em dezembro de 2011. Entretanto, foi-me oferecida uma posição permanente nesta equipa”, congratula-se.

Concluído o 12º ano na área das Ciências Naturais em Aveiro, candidatar-se à licenciatura em Biologia da UA “foi um passo natural” para quem queria estudar moléculas e ‘bichinhos’ microscópicos. Mas depois, lembra, “vieram as plantas e o amor pela conservação”. Hoje a bióloga não tem dúvidas de que fez “uma boa escolha”.

O dia em que Sara Bárrios decidiu que queria estudar plantas foi mesmo um dos mais marcantes da sua passagem pela academia de Aveiro. Tanto assim é que o episódio permanece gravado na sua memória como se tivesse acontecido ontem.

“O professor da prática de Fisiologia Animal trouxe uma raposa que tinha encontrado morta na estrada, para a abrirmos e estudarmos o seu interior e podermos aferir a sua alimentação”, recorda. A então estudante de biologia, entusiasmada, foi mesmo a primeira a saltar do banco e a voluntariar-se para abrir o animal. “Mas não era bem o que eu esperava e o cheiro e a impressão que me fez abrir o animal quase me levou ao desmaio! Nesse dia decidi que estudar animais não era para mim! Há plantas que também cheiram muito mal, mas aquilo tudo fez-me muita impressão!”, lembra. Do percurso académico, Sara Bárrios aponta que um curso universitário tem que dar aos estudantes as ferramentas básicas para que estes possam crescer na vida profissional.

“Aprender a fazer pesquisa, questionar as respostas fáceis e ensinar a trabalhar com motivação para atingir objetivos que às vezes parecem muito difíceis de alcançar. A UA deu-me todas essas ferramentas”, garante.

“A UA e a cidade de Aveiro foram sem dúvida sítios fantásticos para estudar. A Universidade já na altura tinha condições muito boas e o curso expôs-me a muitas disciplinas e deu-me muitas ferramentas que eu tenho desenvolvido durante a minha carreira”, recorda.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 24 da revista Linhas.

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