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Entrevistas
Antigo aluno UA - Rui Diogo, licenciado em Biologia
Na senda de um novo campo da Biologia
Rui Diogo
É um novo campo da Biologia aquele que Rui Diogo quer ajudar a erguer: Evolutionary Developmental Anthropology (EDA). Assim se chama a área que pretende combinar a biologia evolutiva com a de desenvolvimento e juntar a evolução humana e o estudo de defeitos de nascimento. A surgir, a EDA terá, afirma o antigo estudante da Universidade de Aveiro (UA), entre outros aspetos, importantes, “aplicações e implicações para a medicina e na discussão de temas sociais como a história do racismo”. Licenciado em Biologia pela academia de Aveiro em 1998, Rui Diogo é hoje investigador e professor no Colégio de Medicina da Universidade de Howard.

Um dos exemplos mais significativos da EDA, e de como integra informação de anatomia comparada, biologia evolutiva, biologia de desenvolvimento, e evolução humana e implicações para medicina, está bem patente num artigo publicado na revista Nature, em abril, por Rui Diogo como primeiro autor.

O artigo avança uma nova ideia sobre a origem da cabeça humana, na evolução dos cordados, e de uma ligação profunda entre os músculos da cabeça e do coração. “Exemplos de implicações evolutivas são o revelar que a nossa cabeça tem uma heterogenia enorme de tecidos, em que um só sistema – por exemplo o muscular – tem ao menos sete tipos de origens embrionárias diferentes, em que alguns músculos de expressão facial estão mais relacionados embriologicamente com músculos de outras partes do corpo que com os músculos idênticos do outro lado da cara”, explica o investigador.

Incrivelmente, avança, “os músculos de expressão facial do lado direito da cabeça estão mais relacionados com a base da artéria aorta, enquanto os músculos faciais do lado esquerdo estão mais relacionados com a base do tronco arterial pulmonar”.

Professores marcantes

O prestígio da UA, o curso em Biologia, que é a sua área científica preferida – “antes de ir para a Universidade, quando aprendi sobre Darwin e a teoria evolutiva na escola secundária, vi que era isso que realmente me interessava” –, a cidade e o facto de poder viver junto ao mar trouxeram-no de Castelo Branco, onde vivia, para Aveiro.

“A Universidade e a cidade corresponderam completamente às minhas expectativas e o curso, em grande parte, também”, recorda Rui Diogo. Talvez a pequena exceção que abra tenha sido o facto de o curso, naquela época, ser mais orientado para biologia de laboratório e não tanto para anatomia e biologia evolutiva, tendo, por exemplo, muito pouco sobre paleontologia, enquanto o seu interesse maior era a biologia evolutiva.

“A paleontologia está agora a desenvolver-se muito bem em Portugal, mas a anatomia comparada e biologia evolutiva ainda não são áreas com tanto interesse no país. Na verdade, vejo que já introduziram a área “Biologia, Evolução e Diversidade” no primeiro ano do currículo do curso de Biologia da UA”, congratula-se.

Em relação aos docentes que o marcaram, lembra-se da professora Ana Rodrigues, “com quem falava muito”, do professor Victor Quintino e da sua classe de Bio-Estatística, “muito boa”, e também do professor de biologia vegetal, de plantas terrestres. “Não me lembro do seu nome mas adorei a cadeira, pois tinha uma grande parte sobre biologia evolutiva, como evoluíram as plantas com e sem flor e falava muito de fósseis de plantas”, recorda.

Das competências que adquiriu na UA, e que entende terem sido fundamentais para o exercício da sua atual atividade, Rui Diogo lembra “a importância que se dava às várias áreas da biologia em geral”. Um aspeto do curso que o ajudou a ter uma base de conhecimentos mais alargada. Recorda também que “foi devido à experiência como estudante Erasmus” que lhe foi possível, graças à ajuda do professor Victor Quintino (coordenador na época do programa de Erasmus para os alunos de Biologia da UA), estudar um semestre na Universidade de Liège onde acabaria por fazer o Mestrado e Doutoramento em Biologia (2003). Mais tarde realizou outro Mestrado e Doutoramento, em Antropologia, na Universidade de George Washington (2011).

Uma nova área para a Ciência

Depois de acabar o doutoramento foi para a capital espanhola, onde fez um pós-doutoramento no Museu de Ciências Naturais de Madrid. “Pude então estudar a anatomia e evolução de todos os grandes grupos de animais vertebrados. Depois fui convidado a continuar a minha investigação no Departamento de Antropologia da Universidade de George Washington, em Evolução Humana, que no fundo foi sempre a meu interesse principal”, diz o investigador.

“Como tinham fundos para fazer doutoramento, e eu queria muito ir para esse departamento, considerado hoje um dois mais fortes do planeta em evolução humana, aceitei fazer um segundo mestrado e doutoramento, que acabei em 2011”, descreve. Depois foi contratado pela Universidade de Howard, também em Washington DC, como professor de anatomia humana no colégio de medicina, onde está atualmente.

“Temos muito bons professores, mas a investigação não correspondia tanto a esse nível. E é por isso que, estando sobretudo no colégio de medicina, sinto a necessidade e o prazer de tentar combinar investigação básica com aplicações para a medicina e também sobre temas sociais como a história do racismo, a história da Ciência em geral e a negligenciada contribuição por parte de investigadores não ocidentais, por exemplo, investigadores da China e também muçulmanos, os quais contribuíram muito mais do que se diz normalmente, para o conhecimento da anatomia humana e mesmo da biologia evolutiva”.

Hoje, Rui Diogo está a tentar criar, junto com alguns colegas, um novo campo da biologia, que se chama “Evolutionary Developmental Anthropology”, que “pretende combinar a biologia evolutiva com a biologia de desenvolvimento e também a evolução humana e o estudo de defeitos de nascimento, com importantes aplicações e implicações para a medicina, portanto, e também para discutir temas sociais como a história do racismo, entre outros”.

Nota: este artigo foi publicado na edição número 23 da revista Linhas.

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