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Opinião
José Figueiredo Silva escreve sobre a proliferação de jacintos aquáticos na área da Ria
Um verão de S. Martinho florido
José Figueiredo comenta a dispersão de jacintos-de-água na área da Ria
A proliferação de jacintos-de-água na área da Ria de Aveiro motiva um texto de opinião de José Figueiredo Silva, professor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da Universidade de Aveiro. A proliferação da espécie deve-se, explica o investigador baseando-se num estudo realizado entre 2007 e 2008, a um verão de S. Martinho prolongado e à ausência de cheias na Ria. Com o avanço do inverno, as plantas tenderão a ser menos visíveis, antevê.

A zona do baixo Vouga incluindo o troço final do rio Vouga entre Eirol e Cacia, os rios Águeda e Cértima e a Pateira de Fermentelos, é rica em plantas aquáticas vulgarmente conhecidas por moliço. Na Pateira foram muito abundantes os nenúfares (Nymphaea) e a Elodea; nas valas do baixo Vouga, além dos nenúfares existiam grandes massas de pinheirinha de água (Myriophyllum); nos canais mais interiores da Ria de Aveiro existiam enormes massas de uma erva aquática tolerante de água salgada (Potamogeton) em conjunto com várias algas verdes. Durante os séculos XIX e XX estas massas de plantas aquáticas eram recolhidas por barcos e bateiras e levadas para os campos agrícolas.

A partir dos anos de 1990 vários fatores provocaram alterações nestes habitats: aumentaram as marés em toda a área da Ria, afetando mesmo a zona terminal dos rios até à Pateira; o clima alterou-se passando os invernos a serem mais amenos. Ao longo das décadas de 1990 e 2000 observaram-se importantes alterações nas comunidades de plantas aquáticas, tendo desaparecido da Ria as espécies de ervas de água doce tolerantes ao sal. Por outro lado, proliferou na Pateira e avançou para os rios a jusante uma planta aquática flutuante do género Eichhornia, conhecida por jacinto aquático.

A proliferação de jacintos aquáticos que cobriam a Pateira começou por ser controlada pela remoção a partir de terra e, após 2006, por meio de uma máquina aquática adquirida pela Camara Municipal de Águeda, que tem permitido manter controlada na Pateira esta massa de plantas flutuantes. Contudo a proliferação no rio Vouga atingiu grandes proporções no verão de 2005, chegando a cobrir completamente o canal do rio a montante da tapagem, que é mantida durante o verão em Vilarinho, Cacia.

Um estudo realizado no Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, que decorreu em 2007 e 2008, permitiu observar a evolução da massa de jacintos aquáticos tendo-se concluído que a combinação do frio com caudais elevados impedia o seu crescimento e conduzia ao transporte das massas flutuantes para a Ria e até para o mar, onde estas plantas acabam por morrer. Na Ria depositam-se sobre o sapal e dispersam-se atingindo o extremo de alguns canais onde a água doce permite a sua manutenção. Verificou-se assim que o problema se reduz no inverno embora a sua severidade aumente em anos de inverno mais seco e menos frio.

Este ano, o verão de S. Martinho prolongado e a ausência de cheias no rio, manteve condições para a continuação do crescimento dos jacintos aquáticos que, tal como em 2005, voltam a dar nas vistas. Para um final mais feliz desta nota é interessante notar que os jacintos aquáticos, além de belas flores, têm uma grande massa de raízes que fornecem um bom abrigo a uma espécie emblemática da região – os juvenis da enguia.

 

José Figueiredo Silva

Professor do Departamento de Ambiente e Ordenamento da UA, novembro de 2015

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